Meu filho, você não sabe de nada!

Publicado em 16/05/2018 por Folha de S. Paulo Online

Ilustração
André Stefanini/Folhapress

No auge do confronto, o pai pergunta ao filho: "Você pensa que é melhor do que eu?" No filme "1945", em cartaz em São Paulo, vem à tona o comportamento que tiveram os habitantes de uma aldeia na Hungria, durante a ocupação nazista.

Muita gente, vamos percebendo, tirou proveito do extermínio dos judeus para enriquecer. Descrevo a situação sem muitos detalhes, porque tudo se constrói aos poucos nessa história, ao mesmo tempo austera e tensa, dirigida por Ferenc Török.

Enquanto a aldeia se prepara para o casamento do rapaz rico da cidade, dois judeus desembarcam na estação, trazendo baús carregados, diz-se, de perfumes e cosméticos. Medo e culpa se espalham: será que os dois forasteiros vieram recuperar os bens que usurpamos de seus parentes?

Ninguém está disposto, naturalmente, a devolver coisa nenhuma. O filho descobre a desonestidade do pai. Este se defende como pode. "Como pensa que você se livrou de ser convocado para a guerra?"

Foi com dinheiro roubado, afinal, que o pai corrompeu os oficiais que certamente colocariam o rapaz na linha de frente do pelotão.

Entre mãe e filha, o conflito é praticamente idêntico -agora numa peça, também em cartaz na cidade. Trata-se de "A Profissão da Senhora Warren", de George Bernard Shaw (1856-1950), com direção de Marco Antonio Pâmio (no auditório do Masp, até 1º/7).

Vivie (Karen Coelho) acaba de ganhar um prêmio de matemática em Cambridge. Tem um excelente futuro profissional numa época em que só se esperava, das mocinhas bem-nascidas, que casassem com alguém de sua condição.

Logo no começo desse drama (escrito em 1893), vemos que Vivie não é tão bem-nascida assim. A jovem sabia muito pouco a respeito de sua mãe, a senhora Warren (Clara Carvalho), cuja profissão nada tinha de recomendável.

O segredo se revela. Vivie fica indignada. A mãe lhe pergunta: e como você pensa que eu pude pagar pelos seus estudos? Gostaria de ter tido o mesmo destino que todas as mulheres do lugar de onde venho?

A honestidade significaria matar-se de trabalhar numa fábrica vitoriana, ou casar-se com um imbecil alcoólatra, envelhecer aos 30 anos e morrer depois de pôr dez filhos no mundo. Que moral tem a brilhante estudante de matemática para julgar a mãe?

Nos dias de hoje, é como se a sra. Warren tirasse seus vencimentos de uma rede de escravidão infantil ou de pedofilia. Seria necessário imaginar algo do gênero para reproduzir, na plateia de hoje, o impacto que Bernard Shaw terá produzido em fins do século 19.

"A Profissão da Senhora Warren" foi proibida na Inglaterra depois de duas apresentações. As indignações morais contemporâneas voltam-se para coisas diferentes do que aquelas vigentes no tempo de Shaw, mas o problema não se altera.

Imagine-se o filho intelectual de um grande empreiteiro, a filha ambientalista de um ministro do PT. Aprenderam na universidade pública os elementos básicos do pensamento crítico -e, possivelmente com os próprios pais, padrões claros de decência pessoal.

Fiz tudo para que você tivesse uma boa educação, diz a senhora Warren à filha. "Mas", completa, "vejo que te ensinaram tudo errado!" Na análise marxista, a surpresa da senhora Warren teve seu equivalente político em 1848.

Até aquele momento, os princípios da igualdade, da liberdade e da fraternidade podiam ser tomados mais ou menos ao pé da letra.

Encontraram seus limites quando operários passaram a reivindicar educação gratuita, direito a voto, organização sindical e criação de oficinas que pudessem gerir por conta própria. Tinham aprendido bem demais os hinos em favor dos direitos e da dignidade humana.

Não me parece casual que, com o declínio ético do socialismo (depois de Stálin e da invasão da Hungria em 1956), sem contar com a diminuição da própria porcentagem do operariado no conjunto da população, o conflito moral tenha mudado de protagonistas.

Em 1968, jovens com ideais corretos (e pouca ideia de como implantá-los) se chocaram contra o discurso dos mais velhos -que não se sustenta com muita firmeza. É o discurso do "não é bem assim", do "você não sabe de nada", do "quem é você para me criticar"?

Sem moral, a autoridade se mantém a duras penas. Uma conquista parece clara depois de maio de 1968: os mais velhos perderam boa parte do seu poder. Não podiam dar lições de moral; passaram, como se sabe, a dar aulas de economia.

Até que deu certo: muitos jovens, hoje, não querem outra coisa.