Mia Couto conclui trilogia histórica sobre seu país

Publicado em 16/04/2018 por Folha de S. Paulo Online

O escritor moçambicano Mia Couto chega, agora, ao fim de "As Areias do Imperador", trilogia histórica sobre seu país, com o volume "O Bebedor de Horizontes".

Ele lança o livro nesta segunda (16) em um evento que mistura leituras, conversa e um show da cantora Lenna Bahule, sua conterrânea.

A trinca de romances conta a história de Ngungunyane, o último imperador de Gaza, reino que ocupava um pedaço de Moçambique no fim do século 19. Ele resistia à invasão portuguesa na região.

Neste terceiro volume, portanto, vemos Ngungunyane, aprisionado com sete de suas mulheres, ser levado de um cais por oficiais lusitanos a caminho do exílio. A protagonista do livro é Imani Nsambe, jovem que serve de intérprete entre os dois grupos.

Não é gratuito Mia Couto ter escolhido uma tradutora como personagem -com ela, ele trata de um dos temas caros à sua literatura, que é o papel da língua como instrumento de poder. Imani está grávida de um sargento português. O livro se alterna entre a narração dela e as cartas que recebe dele.

"Precisava de um tradutor não só de línguas, mas de culturas. Ela tem um pé na cultura africana, mas pertence a uma etnia subjugada por esse imperador", diz.

Mia vem de um país em que, desde a guerra que terminou com sua independência, em 1975, tem intercalado conflitos. Talvez por isso, as razões da guerra sejam um dos temas que investiga.

O escritor Mia Couto
O escritor Mia Couto - Divulgação

"A maior parte da minha vida foi passada em guerras. A mim, me interessa como a construção da guerra é feita dentro das pessoas, essa questão de desumanizar o outro", diz ele.

É natural, para um autor que reflete sobre um país com várias culturas tentando se manter coeso, que a identidade seja alvo de reflexão.

"Em Moçambique, identidade nacional é uma questão muito recente. O país nasceu com várias nações, com diferentes línguas e culturas. É preciso esquecer algumas diferenças."

Identidade nacional foi um tema que ocupou a mente das letras no Brasil por muito tempo. A literatura deve ter um papel nessa construção? "Sem dúvida a literatura tem um papel, mas sem assumir isso como uma missão."

Mas é possível fazer isso na língua do colonizador? "Tínhamos outra língua que não tinha a ver com a portuguesa. Hoje, estamos tentando construir uma história comum."

"Acho que a literatura tem um papel mais claro. Ela tem que sugerir um veículo de unidade nacional, mas também a possibilidade de viver coisas íntimas numa língua que aparentemente é do outro. Essa língua tem que ser de intimidade, uma língua da alma."

Identidade e linguagem são dois temas que fervilham na atualidade. Com a eclosão de militâncias ligadas à primeira -de raça, gênero ou orientação sexual-, é comum a crença de que é possível mudar a sociedade a partir de uma mudança de vocabulário.

Daí a existência de palavras que passam a ser banidas. Como um escritor tão ligado aos dois assuntos vê a questão? Mia é cético quanto à forma que a política identitária é realizada hoje.

"As forças autoritárias estão crescendo e não estão distraídas. Mas quem quer um mundo mais justo está distraído com lutas que agora precisam ser repensadas em função de uma larga frente."

"Vejo brigas em relação à palavra mulato. Mas não me parece que a obra de Jorge Amado tenha que ser questionada politicamente por isso. No caso de África, ele teve uma importância fundamental para redescobrirmos a nós próprios. Fica estranho agora a questão da palavra guiar o olhar sobre uma obra."

 

AS AREIAS DO IMPERADOR - O BEBEDOR DE HORIZONTES

AUTOR Mia Couto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 49,90 (328 págs.)

CONEXÃO MOÇAMBIQUE
QUANDO segunda (16), às 19h
QUANTO R$ 30 (frisa e balcão) e R$ 60 (plateia), ingressos à venda em teatroportoseguro.com.br
ONDE Teatro Porto Seguro, al. Barão de Piracicaba, 740, tel. (11) 3226-7300