Otto Alencar: "Não sei se há na Bahia outro partido tão bem organizado quanto o PSD"

Publicado em 15/04/2018 por A Tarde - BA

Otto Alencar, senador da Bahia e presidente estadual do Partido Social Democrático - Foto: Luciano Carcará l Ag. A TARDE
Otto Alencar, senador da Bahia e presidente estadual do Partido Social Democrático

Em entrevista ao jornal A TARDE, o senador Otto Alencar, que é o presidente do PSD na Bahia, destacou nomes da sigla que poderiam formar uma chapa com o governador Rui Costa (PT), caso o atual vice João Leão (PP) tente uma vaga no Senado. Otto Alencar foi cauteloso ao tratar do cenário político, mas defendeu a candidatura de Lula à presidência da República e, regionalmente, previu que a oposição a Rui, em especial PSDB e DEM, deve se unir em torno de um único candidato mais à frente. O senador ainda criticou o "denuncismo exagerado" que atinge a política no Brasil e criticou o presidente da Câmara dos deputado, Rodrigo maia (DEM-RJ), por não pautar os projetos de lei que tratam do abuso de autoridade e do fim do foro privilegiado, já aprovados no Senado, Casa onde Otto Alencar fica até 2023.

Como presidente do PSD na Bahia, como vê o aumento da bancada?

Nós tivemos dois deputados estaduais que vieram, ficamos com nove, e cinco federais. Também vieram seis prefeitos, estamos com 88 prefeitos. O partido está muito bem organizado, não sei se há outro na Bahia tão bem organizado quanto o nosso.

Qual a expectativa no Congresso para o próximo ano?

Nós temos três candidatos com chance de vitória: o deputado estadual Manassés, o ex-prefeito de Guanambi Charles Fernandes, e meu filho Otto Alencar Filho, que vai ser candidato também a deputado federal, por coincidência com a mesma idade que eu entrei na política, com 40 anos.

Como o senhor viu as especulações de que o senhor deixaria o Senado para auxiliar na campanha de Rui Costa?

Essa conversa saiu não sei de onde. Rui nunca falou comigo, acho que, se houver necessidade, ele me chama para conversar, mas nunca chamou. Foi mais uma especulação.

Mas se precisasse sair, o senhor sairia?

Sem dúvida. Me considero do grupo, se precisar da minha ajuda, eu vou ajudar.

E como o senhor vê o cenário que está se formando para o governo da Bahia?

A expectativa era que o ACM Neto fosse candidato, estávamos todos preparados para enfrentá-lo e vencê-lo. Agora mudou, tem dois candidatos da oposição declarados: o ex-prefeito de Feira de Santana José Ronaldo (DEM) e o deputado federal João Gualberto (PSDB). Agora nós não vamos nos envolver na formação de chapa, como nunca procurei saber quem iria ou não iria com Neto. Tenho que cuidar do nosso grupo, que é muito unido, forte. As pessoas, às vezes, avaliam mal. Para conhecer a Bahia tem que conhecer todos os municípios, não pode ser setorial, de grupo, tem que ter uma visão da extensão política do estado, que é o quarto maior colégio eleitoral do Brasil, com 10 milhões de eleitores.

Como o senhor viu a desistência de ACM Neto em concorrer para o governo?

Eu sempre disse que a história mostra que todos aqueles que deixaram um mandato no meio do caminho na busca de um cargo maior se deram muito mal. Waldir Pires foi governador, terminou vereador. Eu mesmo poderia ficar confortável no meu mandato de oito anos no Senado e sair a governador, para perder ou ganhar, mas não vou fazer isso, porque minha campanha foi toda debatendo o que eu queria fazer aqui no Senado. Tenho PECs e projetos aprovados e sancionados. Mas eu não vou deixar porque eu posso disputar e vou ficar com mais quatro anos. A política não permite esses vacilos. Não vou entrar no mérito, mas não acho que o prefeito de Salvador tenha deixado de ser candidato por outro motivo que não seja querer continuar com o mandato dele, pode ser que tenha outro motivo, mas desconheço. Não vou, de maneira nenhuma, criticá-lo ou dizer que faltou aliança ou coragem.

O cenário fica mais favorável a Rui Costa?

Ninguém ganha de véspera, tem que respeitar o adversário e trabalhar intensamente para ser vitorioso. Nós, em 2014, saímos atrás e vencemos. Eu saí com 4%, meu adversário principal tinha entre 40% e 50% e terminei vencendo com 1,3 milhão de votos.

Mas o oposição se dividiu na Bahia.

Acho que eles vão se unir mais para frente. Quando tiver a aliança que sempre se repete para presidente da República, os tucanos com o democratas, aí, na Bahia, eles vão se unir.

E em relação a chapa de Rui Costa, a senadora Lídice da Mata (PSB) falou ao A Tarde que tem disposição para sair como vice.

Na Bahia tudo depende da posição que for tomar o João Leão, porque ele é o vice e tem a opção de ser senador. Então estamos aguardando qual é a movimentação que ele vai fazer. Quando ele tomar essa posição é que nós vamos nos reunir pra definir o nome com possibilidade de participar da chapa. Tem um nome que é ponteiro, de vanguarda, que é o do Ângelo Coronel, também do deputado federal Antonio Brito, todos têm o mesmo respeito nosso. Mas ainda tem muito tempo e política muda muito. Há quinze dias Neto era candidato e já não é mais. Ter visão do que pode acontecer no futuro é difícil, eu não sou adivinho. E Rui, é claro, vai para reeleição com meu apoio. O Jaques Wagner [ex-governador] para o Senado, eu acho que é uma coisa natural pelo que ele representou paro grupo, embora seja do PT. O PT com dois na chapa majoritária não vejo nada fora do normal.

Já que o senhor falou sobre Jaques Wagner, como avalia a possibilidade dele ser um possível substituto a Lula como candidato do PT à presidência da República?

Qualquer adepto da causa do presidente Lula, como eu sou, deve fazer o esforço maior para ele ser candidato. Cercear o direito dele ser candidato, na minha ótica, sem uma prova material, só por suposições e convicções, me coloco na posição de dúvida a respeito da imparcialidade do juiz Sérgio Moro e dos três desembargadores do TRF-4.

Mas se não houver revisão da prisão em segunda instância, é possível que o Tribunal Superior Eleitoral barre a candidatura de Lula...

Isso seria fazer uma previsão e eu prefiro não fazer, porque o Lula é o candidato natural do grupo. Ele tem uma popularidade tão grande que essas coisas não afetam. Ele vem sofrendo ataques de todos os lados, até do Exército. Aquela declaração do general de ameaçar com um golpe militar, eu nunca imaginei que eu podia ouvir no regime democrático uma manifestação daquela. Porque o general fala em impunidade e corrupção, mas o general bate continência para Temer que é acusado, não sei se é culpado, pela Procuradoria-Geral da República. Então, se o general está batendo continência para Temer não tinha como falar nisso.

O próprio Lula no discurso do último sábado, antes de ser preso, não falou sobre sua candidatura. Pelo contrário, ressaltou nomes da esquerda que estavam presentes no ato em São Bernardo do Campo.

Quem tem que dizer se Lula é candidato é o povo e tem gente, como é o meu caso, que rejeita o autoelogio e esse deve ser o caso do Lula.

Como o senhor avalia o cenário político atual, em que um general tem coragem de fazer esse tipo de afirmação?

Está inseguro, uma vida nacional totalmente conturbada, com choque entre poderes. De alguma forma, um denuncismo exagerado, sem provas, que até atingiu alguns senadores. Nós aprovamos no Senado duas matérias que estão na Câmara dos Deputados, o abuso de autoridade e o fim do foro privilegiado. Agora lá [na Câmara], o Rodrigo Maia não deu seguimento, engavetou tudo, até os pedidos do impeachment de Temer. Acho que Rodrigo Maia é o substituto do 'engavetador-geral da República' [referência ao ex-procurador-geral da Repúblicas, Geraldo Brindeiro]. Rodrigo Maia é um presidente frágil e com receio de tocar matérias importantes para o país.

Como está a relação do Senado com a Câmara?

O Eunício [Oliveira, presidente do Senado] tem tido bom entendimento com ele [Rodrigo Maia].

E como senhor vê a relação dos políticos com a população?

A população do meu estado conhece o perfil de cada político, quem mais conhece é o eleitor. Então, todo colegiado tem santo e tem demônio, mas neste momento está aparecendo mais demônio, porque o Ministério Público está atuando muito em cima. Mas qualquer profissão tem falhas. Num colegiado de 12 pessoas escolhidas pelo Filho de Deus, um deles se vendeu. Cada político constrói a sua própria história e a população sabe exatamente como ele é. O eleitor é responsável por fazer a reforma dos homens que serão os representantes da Câmara, Senado, governos estaduais e presidente da República. Então, não venha me dizer que os que estão aí errando não passaram pelo crivo do eleitor, ninguém chegou aqui por via indireta, foram eleitos pelos eleitores.

Como o senhor vê essa divisão atual entre direita e esquerda?

Isso é um modismo. Eu acho que se Lula não for candidato ninguém vai acertar o futuro. Ninguém vai ganhar no primeiro turno e quem vai paro segundo turno? Ninguém acerta.

O senhor fica até 2023 no Senado, existe algum projeto que o senhor vai trabalhar firmemente pela aprovação?

Quero lutar muito pela revitalização do Rio São Francisco, para garantir água para os futuros nordestinos. Daqui a vinte anos, sem a revitalização, não vai ter água no Nordeste. Eu quero chamar a atenção do governo federal para isso.

Como o senhor vê a privatização da Eletrobras?

Acho difícil alguém se interessar pela Chesf, por exemplo, são nove hidrelétricas que daqui a dez, quinze anos não vão ter água pra mover as turbinas. Quem vai comprar? O governo está avaliando isso mal, [o projeto de lei] está na Câmara ainda e se chegar no Senado vou trabalhar para não privatizar, eu sou contra. A parte de energia é estratégica para o País, enfim, como é agora a luta pela Fafen ( Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados, com unidades em Camaçari (BA) e de Laranjeiras (SE).

Nesta semana houve uma reunião da Câmara Federal sobre a Fafen...

Eu participei e o governo deve voltar atrás, é uma irresponsabilidade o que tem feito o presidente da Petrobras [Pedro Parente], que não conhece a realidade do Brasil e da Bahia, que tem oito empresas que dependem da matéria-prima da Fafen.