Pedro Cardoso lança romance em que revela perplexidade e preocupação com o país

Publicado em 14/11/2017 por O Globo

RIO - Morando há dois anos e meio em Portugal, o ator Pedro Cardoso, 54 anos, chegou a São Paulo na semana passada e, desde então, tem peregrinado por diversas livrarias da cidade com um livro rosa-choque nas mãos. "O livro dos títulos" é seu primeiro romance. E, em vez de lançá-lo com tradicionais noites de autógrafos no Rio e em São Paulo, o ator-dramaturgo-romancista preferiu ir às ruas "conversar com livreiros, com leitores, fazer com que o livro penetre", como diz.

Nesta semana, Pedro promete circular por livrarias do Rio com a mesma proposta: conversar com seus possíveis leitores sem alarde, sem foto, flash ou festa. Daqui, o plano é seguir fazendo a mesma coisa no Nordeste. Autor de peças como "O autofalante", "Os ignorantes" e "O homem primitivo", ele conta que o livro foi escrito sob o impacto de uma profunda preocupação com o futuro do Brasil e a perplexidade diante dos seguidos "nãos" que recebeu ao apresentar seu novo projeto após o fim de "A grande família", em 2014.

- Escrevi motivado pelo desejo de permanecer presente, falando com as pessoas - ele diz.

"O livro dos títulos" é focado na relação, a princípio virtual, entre um escritor amador e uma editora, que recebe por e-mail os originais que ele envia e que diz escrever movido por paixão.

O que o fez escrever o livro?

A interrupção do meu trabalho na TV. Quando "A grande família" terminou, caí num deserto. Falar com as pessoas e ouvi-las semanalmente me preenchia muito. O programa havia cumprido sua missão, mas meu desejo era seguir na TV. Queria fazer uma série que eu havia escrito, mas não tive boa aceitação. Não só na Globo, mas em lugar algum. Procurei todos, até canais realmente pequenos, pois não tenho condições de produzir sozinho. Foi muito frustrante. Esse desinteresse pelo meu trabalho foi incompreensível. Então, saímos do Brasil (ele, a mulher, Graziella Moretto, e os filhos). Em meio a esse luto, surgiu o livro, como resposta ao vazio. Escrevi motivado pelo desejo de permanecer presente, falando com as pessoas.

Por que acha que não houve interesse?

A série se chama "Área de serviço", e é sobre a amizade de um homem com seus funcionários. É um homem rico mas solitário, que conhece o país por seus empregados. Isso aconteceu comigo em outra escala. Sou de classe média, não vivi a pobreza, a conheci por meio de amigos mais pobres. Foram eles que me contaram como é o Brasil. Acho importante mostrar a história afetiva desse país, as contradições sociais e amorosas que nos constroem. Acredito que não houve interesse porque não quero fazer pornografia. Tudo está dominado pela pornografia, que é barata e dá resultado.

Você apresentou esse projeto em Portugal? O que tem feito lá?

Não, porque esse é um projeto para o Brasil. Tenho feito teatro. Apresentei "O homem primitivo" no ano passado. Agora estamos tentando transformar a peça num filme. E estreio "Os ignorantes" em janeiro.

No livro, os personagens discutem se deixam ou não o Brasil. O autoexílio da classe média está em debate. Por que se mudou para Portugal?

Um dos assuntos do livro é esse, sair em busca de um país mais organizado. Isso tem sido muito dito pela alta classe média, por quem tem condição econômica de fazer isso. Vão embora porque o Brasil "ficou insuportável". Isso me incomoda muito, porque o que tornou esses outros países melhores para se viver foram certas contribuições de um pensamento socialista, que essas pessoas que querem ir embora negam ao seu país: o compromisso do estado com a escola, a saúde e o transporte público, uma polícia que não seja inimiga da população. São conquistas. Lá, ninguém acha que não deve haver escola pública de qualidade. Enquanto no Brasil ainda tem muita gente que acredita num capitalismo absoluto, sem contrapeso; e são justamente essas pessoas que querem ir embora. Não fui embora por isso. Aliás, não fui embora. Escrevi esse livro sobre o Brasil e para o Brasil.

'Precisamos ambicionar uma revolução. Não sei qual é. Mas aguardo a novidade. E espero que aqueles que se iludem com totalitarismos mudem de opinião.'

- Pedro Cardoso Ator e autor

Mas você compartilha esse sentimento de "inviabilidade" do país? Como vê o momento?

O meu momento é de perplexidade. Meus personagens têm muitas certezas. Eu tô zerado de certezas. Estou aqui sentado, esperando acontecer alguma coisa. O meu livro é tomado por essa preocupação. Infelizmente o parcial fracasso do PT abriu campo para o fascismo se manifestar violentamente. Eu continuo com as boas promessas e convicções a respeito da liberdade, igualdade e justiça social. São crenças válidas. Precisamos ambicionar uma revolução. Não sei qual é. Mas aguardo a novidade. E espero que aqueles que se iludem com totalitarismos mudem de opinião. A história já provou que a ambição totalitária, de direita ou esquerda, termina em assassinato, tortura, pobreza, revolta. Não traz nada de bom. Espero que essas forças fascistas não ganham adeptos. Mas não sei contribuir para que isso não aconteça.

Você descartou as noites de autógrafos para o seu livro. O que está por trás dessa decisão?

Não quero fazer lançamento para celebridades e mídias que exploram esse tipo de informação. Quero lançá-lo como faço teatro, num contato direto com as pessoas. Acho que a exploração comercial das celebridades faz com que a classe artística, pouco a pouco, vire uma realeza. Isso diferencia e distancia o artista do povo, e não quero isso. Tem sido muito bom. As pessoas ficam surpresas de me verem ali, vendendo. Pegam o livro, leem a orelha, perguntam. Não sei se tem sido um bom negócio, mas tive conversas incríveis. O fundo é esse: minha implicância com a cultura da celebridade e a criação de redomas em torno do artista.

Em 2015 você e a Graziella Moretto escreveram a peça "O homem primitivo", que trata de sexismo e da opressão do que é masculino sobre o feminino. Hoje estamos diante de um levante feminista assim como de uma série de revelações públicas de atos de violência sexual perpetrados pelos mais poderosos homens da indústria audiovisual. Um caso como o de Harvey Weinstein simboliza toda essa engrenagem de opressão?

O Wenstein é um bandido, um agressor de proporções inacreditáveis. Mas até se chegar a ele, há toda uma escala de agressões. Ele só pôde exercer sua perversão impunemente por causa de uma estrutura de poder que oprime. O homem de poder tenta matar você socialmente. É como enfrentar uma ditadura militar, e é preciso ter coragem. Acredito que o que tem sido revelado nos EUA também acontece no Brasil, e é preciso ter força para exercer a denúncia.

Essa denúncia também estava quando você veio a público no Festival do Rio (em 2008) falar sobre pornografia no cinema?

Ali eu falava da liberdade individual que é corrompida e transformada em produto. O que denunciei é uma conivência de certos diretores com os interesses do capital em disfarçar a pornografia. E acho que as minhas colegas de trabalho são vítimas disso. O que falo é que há sempre alguém ganhando uma fortuna fazendo pornografia em vez de dramaturgia.

O que é pornografia para você?

É algo que nem sempre tem nudez. Existe pornografia, por exemplo, na explicitação da violência física. A pornografia, para mim, é uma questão de desonestidade. Se eu digo: "venham ver um filme erótico cuja intenção é produzir uma emoção de carga erótica", estou sendo honesto na proposta. Outra coisa é: quero fazer um drama sobre o nazismo, e aí há uma porção de cenas de mulheres judias sendo abusadas, e essas cenas servem como chamariz. É sutil a diferença.

Serviço - "O livro dos títulos".

Autor: Pedro Cardoso.

Editora: Record.

Páginas: 192.

Preço: R$ 34,90