Pesquisas direcionaram opção por Haddad

Publicado em 08/08/2018 por Valor Online

Pesquisas direcionaram opção por Haddad

A se consolidar a escolha de Fernando Haddad como plano B do PT para a sucessão presidencial, agora em "estágio probatório" na vaga de vice, o partido aposta em pesquisas internas que indicam um potencial expressivo de transferência de votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao seu ungido. As sondagens também revelam a rejeição a uma chapa presidencial encabeçada por uma mulher, após a experiência com Dilma Rousseff.

Essa rejeição ao nome de outra mulher indicada por Lula para a corrida presidencial favoreceu a opção por Haddad. Além disso, justificou os vetos para que Gleisi Hoffmann ou Manuela D'Ávila assumissem desde já a vaga de vice, e via de regra, de "porta-voz" da campanha.

Sobre Manuela, Lula escreveu na carta à cúpula partidária que ela não estaria preparada para liderar a coligação na "travessia do mar Vermelho".

Na carta endereçada à Executiva Nacional do PT, no último domingo - escrita de próprio punho em uma folha de caderno espiral, de frente e verso, - onde chancelou a indicação do ex-prefeito de São Paulo para a missão, Lula explica por que a ex-deputada Manuela D'Ávila (PCdoB) não poderia assumir desde já a vaga de vice em sua chapa.

Para Lula, Manuela não está pronta para encabeçar a "travessia do mar Vermelho" até as eleições de outubro. Com a metáfora bíblica, Lula compara as futuras adversidades que enfrentará - como a batalha judicial para tentar legitimar sua candidatura, - ao desafio de Moisés, que liderou os hebreus na fuga do Egito rumo à Canaã, a terra prometida. No caso, a Canaã dos petistas seria a vitória nas urnas.

Na mesma mensagem, Lula também descarta a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, para a missão. Ele orienta Gleisi a não ficar sem mandato para prosseguir na direção do partido. Depois de ser absolvida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em uma denúncia relativa à Lava-Jato, Gleisi concorrerá a um mandato de deputada federal pelo Paraná em outubro.

A ressalva de Lula acaba sendo um contrassenso, já que os antecessores de Gleisi - Rui Falcão e José Eduardo Dutra (morto em 2015) comandaram o partido sem mandatos parlamentares.

Vale destacar que a pesquisa qualitativa mostra a rejeição dos grupos lulistas a outra mulher na cabeça de chapa presidencial, mas não há um veto generalizado às mulheres, tampouco a uma mulher na vaga de vice. Um dirigente que teve acesso ao levantamento lembra que a senadora Fátima Bezerra (PT) lidera a disputa pelo governo do Rio Grande do Norte, enquanto a própria Dilma é favorita na corrida por uma vaga de senador por Minas Gerais.

Há uma percepção, entretanto, de que o "dedo de Lula" na escolha do candidato pode falhar. O impeachment de Dilma em 2016, e no mesmo ano, a derrota de Haddad na tentativa de reeleição para a Prefeitura já no primeiro turno são exemplos do "dedo podre", segundo um petista da cúpula partidária. Há uma responsabilização a Dilma pelo início da derrocada econômica, e ao ex-presidente, por ter sufocado o "volta, Lula" em 2013.

Preferido da maioria dos petistas, o ex-ministro da Casa Civil Jaques Wagner negou o pedido de Lula para ser o vice em sua chapa. Sem Jaques e sem a opção de uma mulher, Lula escolheu Haddad, conjugando seus atributos aos requisitos do presidente ideal descrito nas pesquisas. Haddad nunca foi implicado na Lava-Jato, tem perfil ético, combateu a corrupção na Prefeitura de São Paulo, e tem demonstrado compromisso de governar para o povo brasileiro. Além disso, como autor do programa de governo, está pronto para defender o documento e o nome de Lula, em debates e entrevistas.

Os levantamentos internos do PT foram feitos nas duas últimas semanas, com resultados quantitativos e qualitativos. Pelo menos metade dos eleitores que declaram voto em Lula, em pesquisas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmam que mantêm o compromisso com o seu substituto. Mas é um pouco maior o percentual daqueles que apenas "cogitam" aderir ao plano B do PT, e podem debandar para Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL).

Os entrevistados consideram Lula vítima de uma "injustiça", apesar da condenação em duas instâncias pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Alertam que o PT não pode abandoná-lo. Reconhecem que o ex-presidente "cometeu erros", mas merece ser perdoado porque, na conjuntura de crise atual, seria o único capaz de resolver os problemas do desemprego e da desesperança.

A principal conclusão do PT, com essas pesquisas, é de que os brasileiros têm "saudade" dos governos Lula. Nas entrevistas, vários entrevistados disseram querer "ir de volta ao futuro" e o direito de "sonhar de novo".