PF liga doleiro da Lava-Jato ao narcotráfico

Publicado em 16/05/2018 por Valor Online

PF liga doleiro da Lava-Jato ao narcotráfico

A Polícia Federal (PF) descobriu um elo entre um investigado pela Operação Lava-Jato e o tráfico internacional de drogas. Preso ontem, o doleiro Carlos Alexandre de Souza, o "Ceará", que é delator com acordo já homologado judicialmente, viabilizava dinheiro para pagar propinas a políticos brasileiros enquanto gerava divisas para o traficante Luiz Carlos da Rocha, conhecido como "Cabeça Branca", considerado pelos investigadores como um dos maiores narcotraficantes da América do Sul.

O traficante é investigado por ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que opera dentro dos presídios administrados pelo governo de São Paulo. "Cabeça Branca era um dos grandes fornecedores de cocaína para a facção. O PCC tem usado redes de doleiros para enviar dinheiro ao Paraguai e à Bolívia", disse ao Valor o promotor de Justiça de São Paulo, Lincoln Gakiya.

Ceará foi capturado durante a deflagração da "Operação Efeito Dominó", que cumpriu oito mandados de prisão nos Estados do Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Velho conhecido da Lava-Jato, Ceará trabalhava para o doleiro e delator Alberto Youssef e fechou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) em 2015. No ano anterior, Youssef tinha sido peça-chave para que os investigadores entendessem o esquema de desvio bilionário da Petrobras por meio de contratos superfaturados, liberação de aditivos e contratação de empresas de fachada para repassar o dinheiro a beneficiários no Brasil e no exterior, com o uso de offshores.

Nos 29 depoimentos em delação prestados à PGR entre junho e julho de 2015, Ceará afirmou ter entregado dinheiro vivo a diversos políticos, entre os quais os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Aécio Neves (PSDB-MG) e Fernando Collor (PTC-AL). A PF comunicou a PGR sobre a prisão de Ceará que, por ter voltado a delinquir, deverá ter seu acordo de delação revogado. As informações que ele forneceu e as provas que ajudou a produzir, no entanto, continuam valendo.

As investigações revelaram que Ceará ajudava a financiar o negócio de Cabeça Branca, gerando recursos, em dólares e em reais para o traficante, preso em 1 º de julho de 2017 e que foi transferido para o presídio de segurança máxima de Mossoró (RN).

Em entrevista coletiva realizada ontem, em Curitiba, o delegado Elvis Secco afirmou que ainda é cedo para dizer se existe uma conexão entre políticos e traficantes que se valiam do esquema operado por Ceará. "O que temos até agora são apenas indícios. Só poderemos confirmar essas informações no decorrer das investigações", esclareceu.

O Valor apurou com duas fontes da PF que, até agora, as investigações não apontaram nenhum indício de ligação de Cabeça Branca com políticos investigados pela Lava-Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Ceará atuava do seguinte modo, segundo a PF: atendia interessados em obter reais para pagar corrupção de políticos, que mantinham dólares no exterior; e também prestava serviços para traficantes que buscavam dólares para comprar drogas no exterior com dinheiro disponível no Brasil, mas que precisavam "lavar" esses recursos.

Até ser encarcerado, Cabeça Branca liderou por mais de 20 anos um esquema responsável por enviar ao exterior, mensalmente, cinco toneladas de cocaína com alto grau de pureza, disse a PF - o que torna o entorpecente ainda mais valioso nos mercados americano e europeu da droga.

A estimativa policial é que o traficante tenha realizado transações de até US$ 140 milhões em período de três anos, de 2014 a 2017.

Outro doleiro preso pela Efeito Dominó é Edmundo Gurgel Júnior, que também atuou com Youssef na década de 90 e foi investigado em operações policiais que deram origem à Lava-Jato, como a Farol da Colina. Gurgel Júnior foi acusado de fraudes no caso de evasão de divisas pelo extinto Banco do Estado do Paraná (Banestado).