Por votos em Minas, diferenças com Dilma devem cessar

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Por votos em Minas, diferenças com Dilma devem cessar

O candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, vive o dilema de como lidar com a era petista no governo federal. Se por um lado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o esteio de sua candidatura e o responsável por sua indicação, a imagem da ex-presidente Dilma Rousseff talvez seja o obstáculo mais delicado para o ex-prefeito de São Paulo administrar se quiser chegar ao segundo turno da eleição. O assunto já é discutido entre os coordenadores da campanha e um dos colaboradores de Haddad, antecipando o imbróglio, definiu, com bom humor: "Ela é a kriptonita. Neutraliza o super-homem".

Minas Gerais é um colégio eleitoral estratégico e foi crucial para a vitória de Dilma Rousseff na apertada eleição de 2014, ironicamente contra o mineiro Aécio Neves (PSDB). No primeiro turno, Dilma venceu o tucano em Minas com uma diferença de quase meio milhão de votos. No segundo turno, obteve 52,41% a 47,59% dos votos válidos no estado. As pesquisas eleitorais feitas pelo PT apontam que Lula tinha uma posição extremamente favorável entre os mineiros para o pleito de 2018. Agora, na disputa ao Senado, Dilma segue líder nas pesquisas com folga, com 26% das intenções de voto, segundo o Datafolha.

Haddad deve visitar Minas na próxima semana. Detalhes da agenda e datas ainda estão em discussão entre os coordenadores da campanha, mas a ideia é que a viagem não se restrinja a Belo Horizonte. "Ele precisa ir a regiões importantes de Minas", afirmou um petista envolvido na campanha. Ciente disto, Haddad já foi aconselhado a engolir todas as diferenças pessoais com Dilma. Outra decisão da campanha é deixar claro que o elo de Haddad é com Lula, não com Dilma. Ainda assim, é evidente a distância entre os dois e a falta de afinidades políticas.

Os adversários de Haddad têm consciência do constrangimento que a presença de Dilma na campanha representa para o candidato e já exploram a situação. "O Brasil não aguenta outra Dilma", vaticinou Ciro Gomes, o candidato do PDT e hoje a principal ameaça a Haddad na corrida pelo segundo turno. "O que ninguém aguenta mais é o Temer. Haddad é o homem de confiança do Lula. Não vamos entrar nisso. Deixa o Ciro morrer pela boca", resumiu um dirigente petista, minimizando o desgaste político e impopularidade de Dilma no resto do país quando perdeu o mandato por impeachment, em agosto de 2016.

A imagem fria de Dilma ao lado de Haddad no dia em que o PT finalmente oficializou que ele seria o candidato, em frente à carceragem da Polícia Federal de Curitiba, é autoexplicativa sobre o difícil relacionamento entre os dois. O ex-prefeito já fez críticas a decisões econômicas tomadas por Dilma Rousseff no segundo mandato, e não poderia ter deixado suas opiniões mais claras sobre o que pensa da ex-presidente em artigo que escreveu para a revista "Piauí", em junho de 2017. Haddad atribui à falta de sensibilidade política de Dilma as dificuldades financeiras que enfrentou no comando da Prefeitura de São Paulo. "Eu já havia insinuado à presidenta que entendia que o governo federal deveria tratar São Paulo de maneira singular, em função de sua importância. Ela então me olhou com um sorriso irônico, como quem diz 'não me venha querer levar vantagem'. Pensando em retrospecto, creio que a relação de Dilma com São Paulo nunca se resolveu completamente", escreveu.

A ironia do momento é que Haddad precisa levar vantagem do bom desempenho eleitoral de Dilma no Estado. Para evitar situações melindrosas, o PT quer que Haddad se escore no governador de Minas, Fernando Pimentel, que concorre à reeleição. Haddad tem uma boa relação com o governador. Pimentel está em segundo lugar nas pesquisas, atrás do tucano Antonio Anastasia. Mas a aposta petista é que ele irá para o segundo turno, o que é fundamental para a campanha federal.