Proposta quer flexibilizar a formação de engenheiro

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Proposta quer flexibilizar a formação de engenheiro

Silvia Costanti / Valor

No Instituto Mauá de Tecnologia, grupos de alunos de cursos diferentes compartilham projetos em laboratórios como o de automotiva, afirma Marcello Nitz

A formação de engenheiros está em discussão no Brasil. Uma proposta de mudança nas diretrizes curriculares das graduações em engenharia quer flexibilizar os cursos e colocar um foco maior na formação por competências. Instituições de ensino contestam, no entanto, a retirada do conteúdo curricular mínimo, por medo de que a medida resulte na precarização dos cursos. Diversas universidades já vêm, entretanto, promovendo mudanças para deixar os alunos menos em salas de aulas convencionais e aumentar a participação em projetos e equipes multidisciplinares.

A proposta foi apresentada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), do Ministério da Educação, em agosto. Uma das mudanças está na própria lógica da formulação dos currículos: no lugar de listar o conteúdo básico que deve fazer parte do curso, as diretrizes apresentam competências que o engenheiro deve ter e dá as faculdades a liberdade para montar currículos que alcancem esses objetivos.

Em novembro, um grupo de instituições de ensino criou um fórum para discutir as mudanças e se posicionar contra alguns pontos da proposta. A principal reclamação é a retirada do conteúdo curricular mínimo. Nas diretrizes que estão em vigência atualmente, aprovadas em 2002, são listados 15 tópicos sobre os quais as disciplinas do núcleo básico deverão ser baseadas - entre eles matemática, física e comunicação - além de 53 tópicos para a carga profissionalizante dos cursos. Na proposta do CNE, são apresentadas oito competências descritas de forma mais ampla, como "analisar e compreender os fenômenos físicos e químicos por meio de modelos matemáticos, computacionais ou físicos, validados por experimentação".

Para Cláudia Morgado, diretora da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a mudança cria uma brecha para que cursos de tecnólogo ou com currículo mais básico adotem o rótulo de engenharia a fim de atrair alunos, mas acabem formando profissionais sem conteúdo mínimo de cálculo e física.

Há preocupação com o ponto que coloca a carga horária mínima de 3.600 horas como "referencial", e não obrigatória. "A gente se preocupa com a sociedade ter um derrame de diplomas de engenharia de cursos que não são engenharia", diz. A proposta também aumenta o tempo de estágio obrigatório de 160 para 300 horas. Para Cláudia, alunos de instituições em regiões com poucas empresas terão dificuldade de cumprir a exigência.

Para pressionar pela revisão das mudanças, a professora está liderando a criação do Fórum Nacional de Dirigentes de Instituições de Ensino em Engenharia, que conta com assinatura de 19 instituições, entre elas universidades públicas, como o ITA e a Universidade Federal do Ceará, e grupos de ensino privado como Mackenzie e Estácio.

As instituições destacam que o processo aconteceu de forma muito rápida - as diretrizes foram apresentadas com parecer favorável pelo CNE em 24 de agosto, com uma proposta de consulta pública até setembro. Entidades assinaram uma carta aberta questionando o prazo e pedindo mais tempo para discutir as regras, o que levou ao agendamento de uma audiência pública em 21 de novembro, no Clube de Engenharia (CE), no Rio.

Antônio Freitas, relator da comissão que propôs as novas diretrizes, afirma que ainda vai consolidar as contribuições da audiência para estudar alterações na proposta. Por ora, Freitas diz não achar razoável que a carga horária do curso seja diminuída e considera "imprudente" exigir 300 horas de estágio. Para ele, diretrizes que não permitem novos formatos podem atrapalhar melhorias. "Há uma falsa ideia de que conteúdos distribuídos em uma grade estanque são capazes de formar o engenheiro que a sociedade necessita hoje", afirma.

Pedro Celestino, presidente do CE, associação civil fundada em 1880 por profissionais da área, diz que há pontos positivos na proposta, mas critica a velocidade com que o processo foi conduzido e considera "de gravidade enorme" a retirada do conteúdo mínimo e o ponto que torna a carga horária referencial. Para ele, isso responde a uma pressão da indústria e de instituições privadas de ensino, e pode levar à precarização dos cursos. "Você pode mudar em tudo mas não o que é básico. Sem essa base ninguém pode inovar", diz.

Na última década, o número de profissionais que se formam em engenharia todos os anos triplicou no Brasil

As diretrizes são baseadas em uma proposta formulada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), entregue ao CNE em março. No documento, as entidades defendem o foco no desenvolvimento de competências e na adoção de metodologias orientadas à prática, e criticam a "matriz conteudista" dos currículos atuais. O material foi incluído também entre as propostas aos presidenciáveis divulgadas em julho pela CNI. "A capacitação de profissionais para a inovação é fundamental. Se a gente continuar ensinando engenharia como ensinava há décadas, não vai avançar", diz Gianna Sagazio, diretora de inovação da CNI.

Entre os pontos que acadêmicos destacam como positivos nas novas diretrizes está um destaque maior a trabalhos em grupo, multidisciplinares e por projeto e à capacitação dos docentes, bem como a inclusão de processos de gestão de aprendizagem e a criação de programas de acolhimento e nivelamento de novos alunos, para combater a evasão.

Marcello Nitz, pró-reitor do Instituto Mauá de Tecnologia, que está entre as 19 instituições que defendem revisões nas proposta, diz que apesar das críticas ele considera que as novas diretrizes representam um amadurecimento por darem mais destaque à necessidade de cursos contemplarem múltiplas experiências de aprendizagem. "A discussão de ter ou não conteúdos explícitos está ultrapassando as virtudes das diretrizes. Acho que eles devem voltar atrás para não ofuscar essas qualidades", diz.

Há quatro anos, o Mauá iniciou um processo de mudança nos cursos, que já somou R$ 30 milhões em investimento em infraestrutura. Laboratórios foram construídos e deixaram de ser atrelados a uma disciplina, para incentivar o envolvimento de alunos de diferentes cursos - não só os nove de engenharia, mas os de administração e design oferecidos pela instituição - em projetos multidisciplinares.

As matérias tradicionais tiveram uma diminuição de 15% da carga horária e foram criados mais de 150 projetos e atividades conduzidas por professores da instituição e profissionais externos, que variam do desenvolvimento de produtos e aplicações de tecnologias a oficinas de filosofia ou gestão de carreira. Elas funcionam como disciplinas eletivas, com alunos de diferentes cursos e anos. Algumas são realizadas em parceria com empresas, que usam o contato com os alunos para recrutar, afirma Nitz. O pró-reitor diz que foi possível reduzir a carga horária em sala de aula cortando "gorduras" nas disciplinas, mantendo a adequação às diretrizes em vigor.

Na UFRJ, Cláudia diz que a Escola Politécnica hoje promove aprendizagem por projetos apenas pontualmente, e que está planejando mudanças para ampliar esse modelo nos currículos dos 13 cursos da engenharia. Ela também diz que começou projetos de acolhimento e de suporte para os alunos, que incluem aspectos de saúde mental, e destaca as equipes de competição formadas por iniciativa dos estudantes de diferentes cursos como forma de difundir o trabalho multidisciplinar. "Formalizar isso dentro do currículo é algo que estamos procurando fazer", afirma.

Quando o Insper começou a desenhar seus três cursos de engenharia, que foram lançados em 2015, a instituição pesquisou programas no Brasil e no mundo e acabou usando como inspiração o curso da americana Olin College, de Boston, nos EUA. Além de usar o modelo de aprendizado por projetos, a escola parte de competências para desenvolver o currículo, como propõem as novas diretrizes. Irineu Gianesi, diretor de assuntos acadêmicos do Insper, diz que as diretrizes de 2002 não têm impedimentos para esse tipo de curso, mas acabam dando foco muito grande ao conteúdo mínimo. "O problema é não induzir a mudança e a inovação no grande volume de instituições e cursos que existem hoje no Brasil", diz.

Tanto Gianesi quanto Nitz, do Instituto Mauá, acham que a energia maior deve estar na avaliação dos cursos, no lugar das exigências curriculares. "Quem quiser fazer uma coisa malfeita vai fazer independentemente do conteúdo ser obrigatório ou não", opina Nitz.

Na última década, o Brasil triplicou o número de engenheiros que são formados todos os anos, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Um levantamento feito pelo professor do departamento de política científica e tecnológica da Unicamp Renato Pedrosa aponta que entre 2007 e 2017 o número de formados por ano em cursos de engenharia subiu de 32 mil para 112 mil.

O número de ingressantes em cursos da área cresceu de 94 mil para 243 mil no mesmo período. O pico foi 2014, quando entraram 332 mil alunos nos programas - desde então o número de vagas se manteve estável em instituições públicas e caiu nas privadas. Em 2017, mais de 70% das vagas e dos graduados foram de instituições privadas.

A evasão nos cursos fica em torno de 40%, segundo estimativa calculada por Pedrosa. Ela teve forte alta nas instituições públicas nos últimos anos, período em que elas passaram a se assemelhar às taxas nas faculdades privadas. Para o professor, esse fenômeno não é exclusivo da engenharia e pode ser consequência da ampliação de vagas na educação pública.

Pedrosa diz se preocupar com a qualidade da formação dos profissionais e a sua capacidade de ser absorvido pelo mercado de trabalho. Um estudo do Ipea apontou que, em 2010, 59% dos profissionais formados em engenharia e áreas afins não trabalhavam em funções que exigiam o diploma da área. "O grande problema é a baixa qualidade da formação das pessoas no ensino médio, isso limita tremendamente a qualidade da formação no ensino superior", diz. Ele também considera, no entanto, os currículos muito densos e pouco flexíveis.

Dados da 6ª edição do Índice de Confiança da empresa de recrutamento Robert Half, que usam como base o Caged, apontam que engenheiros hoje lideram entre os profissionais qualificados que mais têm vagas fechadas. No terceiro trimestre de 2017, o saldo de vagas de engenharia fechadas foi de 1.862 e no quarto chegou a 2.842. Em 2018, até agora, o saldo continuou negativo, mas a diferença vem diminuindo. No segundo trimestre, foram 1.283 vagas fechadas e no quarto, 947.

Carolina Cabral, gerente sênior de engenharia na Robert Half, destaca que em 2017 a maioria das vagas trabalhadas pela empresa foram de substituição por causa de desempenho, enquanto em 2018 a recrutadora já passou a ver posições novas sendo abertas. A maior mudança, no entanto, está no perfil dos candidatos pedidos. "As empresas estão mais exigentes com o perfil, não só técnico mas também o comportamental", diz.