O que desperta nossa solidariedade?

Publicado em 03/12/2018 por Folha de S. Paulo Online

O que faz com que tenhamos vontade de ajudar alguém que não conhecemos, de doar dinheiro para organizações sociais ou dedicar horas para um trabalho voluntário? Faz nove anos que a Charities Aid Foundation (CAF), uma organização britânica de promoção à filantropia, mede o nível de solidariedade dos países, de acordo com o percentual de suas populações que faz alguma dessas atividades.

Cerca de 150 países são classificados anualmente e, infelizmente, nós, os brasileiros, não temos muito do que nos orgulhar. Nossa melhor posição nessa lista foi a de 68ª, em 2015, um pouco acima da metade, mas, de lá para cá, despencamos mais de 50 degraus. Na última edição do World Giving Index (WGI), como é chamado o índice, divulgada no fim de outubro, o Brasil consta em 122º lugar.

Crise, crise e mais crise, podem alegar os defensores da pátria, mas a verdade que outros países, com crises mais profundas do que as nossas, estão bem acima na tabela, entre eles, Haiti (14º colocado), Libéria (19º) e Serra Leoa (20º). Até mesmo nossa vizinha Venezuela demonstrou mais solidariedade do que nós no ano passado e conquistou a posição 107ª. Aliás, o Brasil é o lanterninha absoluto da América do Sul.

Talvez o mais adequado seja perguntar: o que bloqueia a nossa solidariedade? Por que vivendo em um país tão desigual, que atravessa um período tão difícil, não nos tornamos mais solidários? A reposta pode estar em alguns dados levantados pela única pesquisa de abrangência nacional sobre doação que já foi feita, a Pesquisa Doação Brasil, realizada pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), com apoio de muitos parceiros, e lançada em 2016, ano no qual nosso WGI não estava tão mal.

De acordo com a pesquisa, três fatores funcionam como inibidores da doação. O primeiro, e o mais óbvio deles, é que as pessoas não confiam nas organizações sociais. Esse fenômeno não é exclusividade nossa. No mundo inteiro a confiança nas instituições está caindo, mas o problema brasileiro é que aqui ela caiu sem nem antes ter conseguido ficar de pé.

A segunda dificuldade tem origem cultural e é bem curiosa: nós não falamos de doação. Talvez para não parecer que estamos nos gabando, ninguém chega no cafezinho e conta "encontrei uma organização fantástica para doar!" ou "estou feliz porque doo para uma organização que está fazendo um excelente trabalho!". Parece que doação não é para ser mencionada. E assim criamos um cinturão de silêncio que não ajuda a disseminar, a incentivar, a criar vontade, nem a estabelecer modelos.

E a última barreira à doação é que nós, brasileiros, não temos noção do poder transformador que o indivíduo e a comunidade têm. Não refletimos sobre o que queremos mudar, sobre qual é a nossa causa. E, portanto, não nos comprometemos com a mudança. Não estabelecemos vínculo com uma causa ou organização. Não assumimos nossa responsabilidade pela solução dos problemas.

E quando entramos em períodos de crise, de insegurança, esses obstáculos ganham força e abrem espaço para o velho ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro". Só que cada um, com seu punhadinho de farinha, não vai fazer nada. E é com essa mudança que o Idis está comprometido.

Para isso, vamos lançar, ainda em 2018, uma grande Campanha por uma Cultura de Doação, que ajude cada um a descobrir sua causa, a descobrir a transformação que quer provocar no mundo. Para que todos saibam que, sozinhos talvez não consigam, mas se juntarem as forças com os demais que também sonham com essa mudança, a solução vai chegar muito mais rápido.

E essa campanha vai ficar no ar por muito tempo, pelo tempo que for necessário para elevar nossa posição no World Giving Index, para colocarmos o nome do Brasil lá no alto e para que possamos nos reconhecer como uma população solidária, que constrói o futuro juntos!