Sangue novo na política

Publicado em 14/09/2018 por IstoÉ

Sangue novo na política

Ao contrário do que se imaginava, os escândalos de corrupção não desencorajaram os jovens a participar das eleições. São quase 1,5 mil candidatos

Desde a Lava Jato a política brasileira ficou ainda mais desacreditada como um caminho para se conquistar direitos sociais. Apesar disso, muitos jovens resolveram andar na contramão e entrar para a política, justamente por acreditar que essa é a única maneira de melhorar o País. Para as próximas eleições, 1497 jovens de 21 a 29 anos estão pleiteando uma vaga na Câmara dos Deputados ou nas Assembleias Legislativas. Eles carregam na sua própria idade o símbolo de renovação e esperança de um País melhor.

É o caso de Gabriel Kanner, 28 anos, candidato a deputado federal (PRB-SP). No começo do ano, ele deixou a carreira nas Lojas Riachuelo, empresa fundada por seu avô, para se dedicar a política. Desde os 18, Gabriel é voluntário na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, mas o ingresso na política começou junto com seu tio, o empresário Flávio Rocha, quando ambos se filiaram ao PRB. Flávio, que já foi presidente da Riachuelo, foi pré-candidato à presidência da República até julho. Quando desistiu, o sobrinho ficou a noite inteira sem dormir e então resolveu se candidatar a deputado. Caso eleito, Gabriel pretende levar ao Congresso o Brasil 200, grupo de grandes empresários que visa "Menos estado, menos corrupção". "Quando você chega com uma pauta de desenvolvimento econômico, muita gente quer se juntar porque há um ganho político. Todo mundo quer se aproximar dos empresários", diz ele, que pretende melhorar o ambiente de negócios no País.

A candidata a deputada federal (PDT-SP) Tábata Amaral é outro exemplo. Ela cresceu em um bairro da periferia em São Paulo e, por meio de bolsas de estudo se formou em Ciência Política e Astrofísica em Harvard. Apesar das oportunidades nos EUA, quis voltar ao Brasil para melhorar a educação pública. Depois de fundar a ONG Mapa Educação, resolveu entrar para a política. "A campanha está sendo a experiência de maior aprendizado que já tive. Na rua, a gente aprende muito", diz ela. Na campanha, Tábata viu que a política pode ter um efeito reverso e afastar as pessoas do poder público. "As pessoas vendem seus votos não pela necessidade, mas porque é a forma que encontraram de receber algo da política, já que não tiveram nada nos últimos anos", diz ela.

Novas práticas políticas

Foi com as práticas dessa mesma "velha política" que se deparou a jovem Débora Souza, de 24 anos, candidata a deputada federal (Solidariedade-RN). "As pessoas me pedem dinheiro, emprego, meia dúzia de tijolos em troca de apoio. A gente tem de parar a campanha para fazer conscientização e explicar a importância do voto", diz ela. Formada em Direito, Débora iniciou o engajamento político através de movimentos estudantis, tendo sido presidente de grêmios e movimentos feministas. Se eleita, quer lutar pela educação e pela causa da mulher.

Outro jovem é Danilo Dias, de 22 anos, estudante de Direito e candidato a deputado federal (DEM-MG). Apesar da pouca idade, Danilo está em campanha pela segunda vez, já que em 2016 concorreu a vereador. Ele não ganhou o cargo, mas a percepção de que 2018 é um ano de divisão de águas para o Brasil. "Há uma revolta da população com a política, com os partidos, com as estruturas de poder", diz ele. "Quanto mais jovens se interessarem e se engajarem na política, trazendo um pensamento novo e uma visão nova, melhor", diz ele.

Para o cientista político Humberto Dantas, a principal vantagem dos jovens candidatos ao Legislativo é a representação de novas ideias. Mas ele alerta que o eleitor deve ficar atento ao histórico desses candidatos. "Tem muito pilantra se aproveitando da pouca idade para se dizer ficha-limpa", diz ele. Para o especialista, uma boa régua é verificar quando ocorreu a filiação dos candidatos aos partidos, pois isso revela se a opção ocorreu por identificação ideológica ou apenas para facilitar a conquista de votos. "Muitos jovens fizeram isso. Essa é a política no seu estado mais antigo, porque eles sabem que estão entrando em um jogo que tem um pragmatismo nocivo, aos quais muitas vezes são críticos", diz ele. De fato, ver apenas a idade não basta. O eleitor precisa analisar as reais intenções dos jovens para votar naqueles que efetivamente representam novas práticas na política.