Sem verba, escolas de samba diminuem tamanho do desfile na Sapucaí

Publicado em 12/01/2018 por O Globo

Viradouro. A partir da esquerda, o diretor de harmonia, Mauro Amorim; o de carnaval, Alex Fab; e o carnavalesco Edson Pereira, em frente ao Arlequim do quarto carro - Agência O Globo

NITERÓI - No carnaval da crise, as escolas de samba da Série A se viram como podem. A menos de um mês da festa, a verba de incentivo à cultura da prefeitura do Rio, que teve corte de 50%, ainda não foi liberada. A subvenção das prefeituras de Niterói e São Gonçalo também não chegou a Unidos do Viradouro, Acadêmicos do Sossego, Acadêmicos do Cubango e Unidos do Porto da Pedra, agremiações da região. O jeito então é contar com a boa vontade dos fornecedores, que vendem a prazo, e das equipes responsáveis pela produção das alegorias e fantasias, que receberam apenas parte do salário. Algumas escolas também diminuíram o número de componentes e de carros alegóricos. Usar a criatividade, reutilizar materiais e optar pelos que são mais baratos deixaram de ser alternativas e viraram regras para cortar gastos e fazer bonito na avenida, sem perder o brilho.

A prefeitura do Rio prometeu liberar o repasse para as agremiações da Série A nesta segunda-feira. A de Niterói não informou data, mas disse que a verba destinada às três escolas da cidade será de R$ 1,36 milhão. Já a prefeitura de São Gonçalo não se comprometeu a ajudar a Unidos do Porto da Pedra; disse apenas que será formada uma comissão, até a próxima semana, para avaliar os detalhes e pedidos sobre o carnaval 2018.

Em débito com fornecedores e prestadores de serviços, a Porto da Pedra, para não acumular mais dívidas, havia cancelado seus ensaios técnicos, realizados há décadas no bairro do Paraíso. Como alternativa, a direção da escola chegou a tentar uma parceria com a prefeitura de Maricá para que os eventos ocorressem na cidade vizinha, mas conseguiu um patrocínio de última hora com uma empresa privada e, neste domingo, fará seu primeiro ensaio de rua.

- A população e os comerciantes estavam insatisfeitos porque os nossos ensaios são praticamente o único carnaval que tem em São Gonçalo. Fazemos uma festa para mais de dez mil pessoas, e elas esperam o ano inteiro por isso, mas sem dinheiro seria inviável - diz o diretor de carnaval da Porto da Pedra, Junior Ramos, o Junior Cabeça.

ORÇAMENTO DA CULTURA EM SÃO GONÇALO

Presidente da vermelho e branco de São Gonçalo, Fábio Montibelo afirma que já não conta mais com o repasse da prefeitura da cidade, mas adiantou que entrará com recurso no Ministério Público para apurar o destino do orçamento municipal para a cultura.

- O prefeito esteve na quadra várias vezes prometendo que nos ajudaria, e agora sequer nos recebe. Só vamos fazer nosso carnaval, tanto nas ruas quanto na avenida, porque estamos contando com o apoio da comunidade. Além de termos crédito com os fornecedores, todos os envolvidos com a escola estão fazendo desse drama um motivo para se dedicar mais e apresentar um carnaval digno da nossa escola - diz

Porto da Pedra. O diretor de carnaval, Junior Cabeça, com o Tigre, símbolo da escola: alegoria terá cinco metros - Agência O Globo

Em 2017, quase dois mil componentes desfilaram pela Porto da Pedra. Este ano serão cerca de 1.700. O número de alas também caiu: de 23 para 22. Mas, mesmo em meio à crise financeira, a escola que está há seis anos na Série A sonha em voltar ao Grupo Especial. Com o enredo "Rainhas do Rádio - Nas ondas da emoção, o Tigre coroa as divas da canção!", a agremiação levará para a Marquês de Sapucaí uma das maiores cabeças de tigre da sua história, com cinco metros de altura. Outro destaque será a boneca gigante de Emilinha Borba, uma das dez homenageadas pelo enredo. A escola diz que está com cerca de 70% do carnaval prontos.

Para driblar a crise, a Acadêmicos do Sossego, que desfila pela série A pelo segundo ano, reduziu o número de alegorias de quatro para três e tem usado materiais reciclados e de baixo custo. Além disso, funcionários da azul e branco estão sem receber.

- Estamos tirando da cabeça porque do bolso não tem. Então o jeito é usar a criatividade - diz o presidente da escola, Wallace Palhares, garantindo que também está com 70% dos trabalhos concluídos, mesmo com os funcionários sem receber.

Com o enredo "Ritualis", desenvolvido pelo carnavalesco Petterson Alves, a escola fará uma viagem por cerimônias religiosas e promete levar para a avenida um grito contra a intolerância, não só religiosa, mas de todo tipo. Uma das atrações da escola será a transsexual Chitara de la Kosta, que além de ter enfrentando casos de homofobia, sofre preconceito por ser do candomblé. Chitara estará no segundo carro da Sossego, que representará o período de caça às bruxas.

A Acadêmicos do Cubango investiu fortemente em materiais alternativos para não precisar abrir mão de alegorias nem reduzir o número de integrantes. Com o enredo "O rei que bordou o mundo", uma homenagem ao artista plástico Arthur Bispo do Rosário, os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora se inspiraram no próprio bispo, que produzia arte com objetos descartados. A verde e branco continua com quatro carros alegóricos, 20 alas e aproximadamente 1.800 componentes. De acordo com Haddad, uma das suas apostas é o terceiro carro, que será um tabuleiro de xadrez que representa o lugar onde Bispo vivia, que é hoje o Museu Bispo do Rosário, em Jacarepaguá.

- O carro tem muitos itens como sapatos e outros objetos pessoais que estamos ganhando de uma empresa de reciclagem. As madeiras do espaço são feitas de papel kraft pintado, os talheres e outros itens são de plástico. Também estamos reutilizando materiais do almoxarifado da escola em acabamentos e fantasias. Não foi viável produzir 100% do projeto, mas estamos nos esforçando muito para apresentar um carnaval bonito e contribuir para que mais pessoas conheçam esse artista negro brasileiro que realizou um trabalho tão importante - detalha Haddad.

NA VIRADOURA, SHOWS PARA FINANCIAR A FESTA

A Unidos da Viradouro, por sua vez, começou os preparativos assim que o carnaval de 2017 terminou e, por isso, é uma das escolas da região com menos problemas financeiros. Ela manteve os 1.600 integrantes, que serão divididos em 22 alas e quatro alegorias. De acordo com o presidente da agremiação, Marcelinho Calil, uma das táticas para arrecadar verba foi a promoção de shows com vendas de ingresso na quadra da escola:

- Este ano, mesmo com o corte no repasse do município do Rio, conseguimos nos planejar e nos preparar para a produção do carnaval e já temos 85% dos preparativos prontos.

A Unidos do Viradouro levará para a Marquês de Sapucaí o enredo "Vira a cabeça, pira o coração: loucos gênios da criação". O enredo traça um paralelo entre a genialidade e a loucura levando em consideração as invenções ao longo da História, sejam científicas ou artísticas, internacionais e, principalmente, nacionais. Com um desfile cuja concepção é não cronológica, a Viradouro exalta a inventividade, a genialidade e a loucura, rendendo homenagens às grandes criações e a seus criadores. A ala das baianas e o quarto carro, um grande laboratório, são as apostas do carnavalesco Edson Pereira:

- Será um carnaval interativo, no qual o paralelo entre genialidade e loucura se dá de uma forma aberta, considerando os diferentes matizes que tanto a ideia de loucura comporta quanto o conceito de gênio tem, que é entendido no enredo a partir do viés de criadores que pensaram além do comum, conseguindo vislumbrar novas realidades e criá-las, culminando na própria invenção do carnaval, em que se destaca o louco amor pela Viradouro.

Ensaios técnicos

Acadêmicos do Cubango.Domingos (14 e 21), às 19h, na Avenida Amaral Peixoto; e dia 28, às 19h, na quadra da escola (Rua Noronha Torrezão 560).

Acadêmicos do Sossego.Quartas (17 e 24), às 20h, no Largo da Batalha; e dia 28, às 19h, na Avenida Amaral Peixoto.

Unidos do porto da pedra.Domingos (14, 21 e 28), às 19h, na Rua Francisco Portela, Paraíso. Quartas ( 17, 24 e 31), às 20h, na quadra da escola (Travessa João Silva 84).

unidos do viradouro.Domingos (14 e 28), às 19h, na Avenida Amaral Peixoto; Domingo (21), às 19h, no Craveiro Lopes, Barreto. E na quadra da escola (Praça do Barreto), às 19h, dias 16, 26, 30 e 6/2.

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