Sexo e puritanismo

Publicado em 11/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

"A Forma da Água", o filme de Guillermo del Toro que arrancou 13 indicações ao Oscar de 2018, dá uma boa medida de um certo estado mental da cultura dominante contemporânea que, a partir das matrizes de prestígio do mainstream, acaba chegando aos mais longínquos rincões da geografia e da inteligência para estabelecer padrões de repetição.

Ilustração coluna Crisovão Tezza
- Vânia Medeiros

Olhando de um certo modo, é apenas mais uma tolice simpática e edificante, uma fábula do bem contra o mal com as nuances e a complexidade moral à altura de crianças pequenas. Não há chavão politicamente correto que o filme não repita. Está tudo ali: a bondade metafísica da faxineira branca muda, a solidariedade da ativa colega negra, que sofre nas mãos da preguiça moral do marido, o artista, por acaso gay, sem espaço na sociedade capitalista, a monstruosa criatura marinha que se revela um doce, o vilão malvado, o loirinho racista e homofóbico etc.

Tudo bem: isso é cinema de massa, e seria rabugice enfrentá-lo criticamente com o mesmo olhar com que se assiste a um Bergman. Mas pode-se avaliá-lo como um sintoma de algo mais amplo.

Nesse sentido --se não estou sendo vítima de uma teoria da conspiração-- é impressionante como esse filme badalado expressa o estado de horror ao sexo do feroz puritanismo (vagamente feminista) contemporâneo. Praticamente todos os homens do filme são monstros, enquanto o réptil das águas, por ser "natural", representa um nirvana além do humano --naturalmente, só a ele a boa moça se entrega, praticando a zoofilia do bem. Na Renascença, animais e humanos em intercurso sexual eram cenas do Inferno, como se vê nas impressionantes imagens de Hieronymus Bosch.

Hoje, parece que sexo só se permite com a pureza metafórica dos animais do Éden, porque as pessoas reais estão em baixa total.

Entramos na era pós-Rousseau --o triunfo final da natureza que dispensa por completo a horrível condição humana.

Mas nem tudo está perdido. Sem badalação, "Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas", dirigido por Angela Robinson (que, entre outros filmes, assinou episódios da série "The L Word", sobre um grupo de lésbicas), é um filme que recria a história real, e incrível, do criador da Mulher-Maravilha.

O americano Willliam Moulton Marston (1893-1947) foi um psicólogo, PhD em Harvard, que, em suas pesquisas de comportamento, estudando a relação da pressão sanguínea com as emoções, inventou um precursor do detector de mentiras. Casado com Elizabeth Holloway, também pesquisadora, acabaram ambos por se apaixonar pela assistente, Olyve Byrne.

Como pano de fundo, estamos no curto período liberalizante do entreguerras, e os três se unem, formando uma revolucionária família heterodoxa (eles tiveram quatro filhos, dois de cada mulher). O que, é claro, em pouco tempo os levará à desgraça --ele será demitido da universidade onde dava aulas.

Para sobreviver, Marston cria --com a participação das esposas-- a figura da Mulher-Maravilha (cuja imagem é inspirada em Olive Byrne), história em quadrinhos que se torna um sucesso extraordinário, a ponto de chamar a atenção da célebre Liga da Decência, incomodada com o apelo sexual da personagem e seu suposto mau exemplo à juventude. No filme, vemos sessões de fogueiras públicas dos quadrinhos "degenerados".

Nas primeiras aventuras da Mulher-Maravilha, havia tintas sadomasoquistas e sugestões de bondage, amarrações eróticas das quais a personagem se livrava com seus superpoderes. Não era só para apimentar a personagem.

Na teoria psicológica de Marston, exposta no seu livro de 1928, "As Emoções das Pessoas Normais", a relação entre dominância e submissão teria um papel relevante no equilíbrio da vida humana.

Ele acreditava que a mulher era superior ao homem e detinha, de fato, o poder de controlar o espírito violento masculino. Bem, a Liga da Decência estava certa: ele realmente achava que, pela influência das histórias em quadrinhos, sua personagem poderia ter uma grande importância na educação emocional dos jovens.

Como se vê na história de Marston, que o filme trata com elegância, não é simples engavetar a vida real. Depois de sua morte, as duas mulheres continuaram juntas e felizes para sempre: Olive morreu em 1985, aos 81, e Elizabeth, em 1993, com 100 anos.