Sinais divergentes da indústria e aceleração do comércio

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Sinais divergentes da indústria e aceleração do comércio

O resultado do PIB no trimestre mostra a continuidade da recuperação paulatina da economia brasileira após um segundo trimestre marcado pelas perdas causadas pela greve dos caminhoneiros. O segmento de transporte e a indústria de transformação, que registraram os piores desempenhos no segundo trimestre (quedas de 1,6% e 0,6%, respectivamente), tiveram desempenho acima da média no período subsequente (altas de 2,6% e 0,83%). Apesar disso, a abertura mensal, por meio dos dados da Pesquisa Industrial Mensal Produção Física (PIM-PF), revela que o volume produzido apresentou queda nos três meses de julho a setembro.

Ainda que a indústria de transformação tenha começado o terceiro trimestre com um carregamento estatístico positivo, de 4,2%, terminou o período com um crescimento de 2,7% no indicador da PIM-PF. O que chama a atenção no desempenho desse segmento é que, enquanto os indicadores de confiança dos empresários (da FGV) dos demais setores apontam forte recuperação em novembro, a confiança da indústria apresentou apenas uma tímida melhora - a primeira desde maio. O segmento que foi um dos motores do crescimento nos quatro trimestres do ano passado parece ter perdido fôlego no período mais recente.

O comércio, segmento com o segundo melhor resultado do trimestre (crescimento de 1,1%), apresentou comportamento oposto ao da indústria de transformação nos dados mensais. O indicador da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) entrou no terceiro trimestre com carregamento estatístico nulo e fechou o período com alta de 2,1%. Já os indicadores de confiança dos empresários do comércio e dos consumidores mostraram forte crescimento em agosto e, especialmente, em setembro - praticamente deixando o pessimismo de lado no caso dos empresários. O emprego formal do segmento também apresenta melhora, com alta de 6,5% no trimestre.

Um dos segmentos mais prejudicados pela crise, a indústria de construção civil começa a esboçar uma recuperação, em linha com os indicadores de emprego formal e de confiança empresarial.

Pela ótica da demanda, há uma recuperação do consumo das famílias, que cresce pelo sétimo trimestre consecutivo, mesmo no cenário de grandes incertezas do período pré-eleições. A melhora da confiança no último trimestre indica que há uma tendência positiva para o consumo. Os investimentos, por sua vez, mostraram forte crescimento no terceiro trimestre (de 6,6%), mas parte desse aumento deve-se a importações fictas de plataformas de petróleo - questão apenas contábil.

Em síntese, a economia continua a crescer, porém ainda em ritmo lento e instável. Para que haja uma aceleração mais efetiva e duradoura, é preciso reduzir ainda mais as incertezas. Isso só será possível quando as propostas de reformas fiscais forem divulgadas e, principalmente, aprovadas. Apesar da política monetária expansionista e da grande ociosidade da economia, evidenciada pelo elevado hiato do produto, a recuperação cíclica está sendo claramente bloqueada pelos riscos relacionados ao desajuste fiscal estrutural.

Embora não tenhamos revisado as nossas projeções de crescimento, é possível dizer que a redução mais intensa do risco e a melhora mais consistente da confiança de empresários e consumidores podem ser determinantes para que o país cresça em 2019 o dobro do que deve crescer neste ano. Por outro lado, como evidenciado pelos cenários de longo prazo projetados pelo Ipea, a não realização de reformas fiscais que sejam capazes de reverter a trajetória explosiva da dívida pública poderia aumentar significativamente a percepção de risco dos investidores, com consequente elevação dos prêmios de risco e, até mesmo, com a possibilidade de ocorrência de uma nova crise econômica.

A resolução desses problemas fiscais, ainda que seja uma alavanca para uma retomada cíclica mais forte, não seria suficiente para acelerar o crescimento do país de forma duradoura. Para isso seria necessário melhorar significativamente o nosso ambiente de negócios; investir na melhoria da qualidade da educação; e abrir a economia para estimular o aumento da produtividade, que vem caindo quase 0,5% ao ano, em média, nas últimas décadas.

*Diretor de Macroeconomia do Ipea