Tesouro dos EUA faz leilão recorde de bônus

Publicado em 09/08/2018 por Valor Online

Tesouro dos EUA faz leilão recorde de bônus

Investidores arremataram ontem um recorde de US$ 26 bilhões em bônus de dez anos do Tesouro, mostrando que a oferta crescente de títulos do governo dos Estados Unidos ainda não pressiona os custos da dívida de longo prazo do país.

A venda de títulos com vencimento em 2028 foi US$ 1 bilhão maior que a oferta do Tesouro em maio, o que igualou o recorde anterior, de 2009. Mas uma medida da demanda foi superior à média dos leilões de refinanciamento nos últimos quatro trimestres. Os bônus foram colocados a uma taxa de retorno de 2,96%, em linha com o que o novo título estava sendo negociado minutos antes do leilão, indicando que o apetite dos investidores para o nível de cerca de 3% continua.

O tamanho sem precedentes do leilão ocorre num momento em que a perspectiva fiscal em deterioração e o inchaço da dívida chegam ao radar dos investidores. Os leilões de refinanciamento desta semana, que incluem a venda de notas de três anos de terça-feira e uma oferta de 30 anos na quinta-feira, somarão US$ 78 bilhões. É o maior quantia em novas ofertas para um trimestre desde 2010.

"A demanda está bem alinhada com leilões anteriores", disse Subadra Rajappa, chefe de estratégia de juros dos EUA do Société Générale. "O fato de ter sido o maior leilão da história na verdade não fez muita diferença. Os investidores começam a chegar e comprar, com taxas de retorno que se aproximam do nível de 3%."

A perspectiva para o déficit dos EUA, que já tinha uma projeção de piora entre o aumento dos custos do serviço da dívida e dos gastos com pagamento de benefícios, tornou-se mais sombria com os cortes de impostos do presidente Donald Trump e os novos desembolsos federais. O Escritório de Orçamento do Congresso prevê que o déficit chegará a US$ 1 trilhão em 2020. O Tesouro americano também está aumentando as vendas para compensar as reduções de compras de bônus pelo Federal Reserve (Fed, o BC do país), à medida que a autoridade monetária enxuga seu balanço patrimonial.

Logo antes do leilão, alguns operadores do mercado de derivativos usaram opções para apostar em um cupom de 3%, que teria sido o maior desde 2011. Mas as taxas de retorno caíram de seus picos durante as negociações da manhã e o cupom ficou em 2,875%, o mesmo que em meses recentes.

O leilão sólido se seguiu ao resultado morno do leilão de notas de três anos realizado na terça, no qual a taxa de retorno ficou mais alta que nos leilões anteriores e a demanda, abaixo da média. A combinação está dentro da tendência deste ano no sentido de uma curva de juros mais achatada.

Com o Fed elevando as taxas de juro e o Tesouro desviando sua oferta crescente para prazos de maturação médios a curtos, a curva se achatou mais. O intervalo entre as taxas de retorno de dois anos e de dez anos escorregou para abaixo de 24 pontos-base no mês passado, o menor desde 2007, antes de se recuperar para 29 pontos-base.

Essa tendência levou vários dirigentes do Fed a advertirem que uma inversão da curva poderia sinalizar uma recessão. Para John Herrmann, estrategista da MUFG Securities Americas, o apetite por prazos de maturação mais longos mostra expectativas de uma desaceleração econômica nos próximos anos. "Isso e as expectativas de que o Fed manterá seu ajuste nos próximos 18 a 24 meses mantêm a curva presa a essa trajetória de achatamento", afirma.