Toyota prepara novo investimento no Brasil

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Toyota prepara novo investimento no Brasil

Divulgação

Bastos, diretor da Toyota: "Infelizmente, a parte tributária do híbrido está distante do que, a nosso ver, deveria ser"

Nos próximos dias a Toyota anunciará um novo investimento no Brasil. A decisão foi formalizada no Japão na madrugada de hoje (horário de Brasília) em reunião entre a direção da companhia e comitiva brasileira do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). A empresa ainda não forneceu nenhum detalhe. Mas o ministro da pasta, Marcos Jorge, tem grande expectativa. Em recente conversa com o Valor, ele e sua equipe disseram que o governo espera "um montante vultuoso" a ser aplicado na fábrica da montadora em Indaiatuba (SP). O ministro afirmou, ainda, que "muito provavelmente" o investimento seria voltada à produção de carros híbridos. A Toyota não confirma. Mas o roteiro da viagem da equipe do Mdic ao Japão, que inclui visita à Nissan, indica novo movimento da indústria para tentar mais reduções na carga tributária de veículos híbridos e elétricos.

Segundo o diretor de assuntos governamentais da Toyota no Brasil, Ricardo Bastos, é cedo para pensar na produção de híbridos no Brasil porque o atual volume de vendas não justifica a produção local. "Não existe um número mágico para começar a produção local, mas os atuais volumes de vendas no mercado brasileiro, que deverão somar 3,5 mil unidades neste ano, entre modelos híbridos e elétricos, são ainda baixos", destacou Bastos, que recebeu a comitiva do Mdic no Japão junto com o presidente da companhia na América Latina, Steve St. Angelo, e integrantes da direção mundial.

A direção da Toyota não esconde, no entanto, o interesse em produzir veículos eletrificados no Brasil. A montadora já vende o sedã híbrido Prius importado e está em fase adiantada de testes para uso de etanol no motor a combustão que, no sistema híbrido, funciona junto com outro elétrico. "Estamos analisando o mercado e a tributação", destaca Bastos. "Infelizmente, a parte tributária está distante do que, a nosso ver, deveria ser", afirma.

Ao anunciar o programa Rota 2030, em julho, o governo brasileiro também reduziu o IPI dos chamados modelos eletrificados. O cálculo das alíquotas leva em conta vários fatores, como peso do veículo, uma desvantagem nos que dependem de baterias ainda pesadas. No Prius, a redução do IPI foi de um ponto percentual, segundo a Toyota. Há três anos, o governo zerou o Imposto de Importação para esses veículos. Segundo Bastos a carga tributária nesses modelos hoje gira em torno de 30% ante cerca de 40% num modelo convencional produzido no Brasil.

Para tentar convencer o governo a reduzir mais a carga de impostos nos carros eletrificados, os fabricantes de veículos expõem projetos voltados ao desenvolvimento da tecnologia no Brasil. Além da Toyota, o roteiro da comitiva brasileira no Japão inclui encontros com executivos da Nissan, que apresentarão à equipe do Mdic o modelo Leaf, carro 100% elétrico, que começará a ser vendido no mercado brasileiro no próximo ano. O grupo vai também à Coreia, onde se reunirá com executivos da Hyundai e da Samsung.

O investimento a ser anunciado pela Toyota será o primeiro depois do lançamento do Rota 2030. Segundo o secretário de Desenvolvimento e Competitividade Industrial do Mdic, Igor Calvet, a companhia já vinha pensando em novo aporte. Mas o plano teria se concretizado após o lançamento do pacote de benefícios à indústria automobilística. "A empresa já tinha manifestado interesse em investir em energia renovável e em linha de produção no país. E o Rota 2030 foi um dos fatores que aparentemente permitiu isso", disse.

A expectativa dos integrantes do Mdic era que os detalhes do novo programa fossem revelados oficialmente durante a visita da comitiva brasileira à sede mundial da empresa. Marcos Jorge cancelou sua viagem ao Japão devido a um problema de saúde e Calvet assumiu o comando da missão.

O último programa de investimentos da Toyota no Brasil, de R$ 1 bilhão, anunciado em setembro, foi destinado, em grande parte, à fábrica de Sorocaba, no interior de São Paulo, para a produção do recém-lançado modelo Yaris.

Conhecer mais sobre a tecnologia de carros elétricos não foi, no entanto, o único motivo que levou a comitiva do Mdic a voar até a cidade da Toyota, que leva o mesmo nome da montadora. No encontro com Masahiro Inoue, executivo que vive no Japão e está no comando das operações da América Latina e Caribe, foi assinado um memorando no qual a montadora assume três compromissos. O novo investimento industrial e o plano de continuar a desenvolver a tecnologia híbrida são os dois primeiros itens do documento.

O terceiro e mais curioso compromisso é a montadora ajudar o Mdic a aplicar em sua própria estrutura de trabalho, o famoso conceito de produção enxuta da Toyota, criado para linhas de montagem há mais de 50 anos. Segundo Bastos, a Toyota Brasil já ajudou o Hospital Santa Cruz, em São Paulo, a utilizar o conceito de processo enxuto. O modelo, conhecido também como "lean", na expressão em inglês, já ajudou o hospital, segundo Bastos, a reduzir o tempo de espera no Pronto Socorro.