Trump coloca em dúvida negociação com a China

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Trump coloca em dúvida negociação com a China

O presidente dos EUA, Donald Trump, reduziu as expectativas com relação a uma nova rodada de negociações comerciais com a China. Com isso, pôs em risco o esforço do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, de retomar um diálogo com Pequim.

Pelo Twitter, Trump - que ameaça levar adiante novas tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses - disse que os EUA "não se sentem pressionados a fechar um acordo". A China, disse ele, está sentindo toda pressão para suspender a guerra comercial.

"Nossos mercados estão bombando, os deles estão naufragando. Estaremos em breve arrecadando bilhões em tarifas & fazendo produtos em casa", tuitou o presidente ontem pela manhã.

Mnuchin fez um gesto de abertura para com a China ao propor negociações com Liu He, a autoridade econômica máxima da China, o que desarmaria tensões e impediria os EUA de levar à frente as novas tarifas, de acordo com pessoa familiarizada com as discussões entre Pequim e Washington.

O Ministério das Relações Exteriores e o Ministério de Comércio da China disseram ontem que Pequim recebeu bem a sondagem e que está coordenando os detalhes com os EUA.

Mas a intervenção de Trump se arrisca a desestabilizar as novas negociações mesmo antes de terem começado, ao tornar mais difícil para Pequim assumir um compromisso. O tuíte presidencial mais uma vez chama a atenção para um dos principais problemas enfrentados por Pequim na tentativa de negociar com o governo americano: qual seria a autoridade que estaria realmente falando em nome do presidente dos EUA.

Mnuchin e Larry Kudlow, o assessor econômico da Casa Branca, não são tão apaixonados por tarifas, enquanto Robert Lighthizer, o representante comercial dos EUA (USTR), e Peter Navarro, o assessor de comércio exterior da Casa Branca, são fortes defensores de exercer o maior grau de pressão possível sobre Pequim, ao calcularem uma rendição da China. Lighthizer e Navarro não opinaram sobre a perspectiva de novas negociações com a China, enquanto Kudlow as apoiou.

"Na maioria dos casos conversar é melhor do que não conversar, por isso encaro isso com positivo", disse Kudlow à Fox Business Network na quarta-feira.

A oportunidade de novas negociações ocorre após meses de impasse, durante os quais ambos os lados permaneceram aferrados a suas posições. Trump já impôs tarifas sobre US$ 50 bilhões em produtos importados da China, provocando uma retaliação de Pequim. O presidente dos EUA advertiu que está preparado para adotar tarifas sobre mais US$ 200 bilhões em produtos chineses e que poderá elevar o volume de artigos afetados pelas sobretaxas em mais US$ 267 bilhões.

A China conclamou Mnuchin no ano passado a se envolver mais nas negociações comerciais, em parte porque relutava em tratar com Lighhizer. As autoridades chinesas chegaram até a instar personalidades empresariais americanas a pressionar o secretário do Tesouro a aumentar seu grau de envolvimento.

Embora Mnuchin tenha assumido um papel muito mais relevante desde então, ele foi, por vezes, atropelado por Trump, o que levanta interrogações sobre se a China pode confiar em qualquer outra pessoa que não o próprio presidente. A União Europeia (UE) se viu enfrentando o mesmo dilema, temporariamente solucionado por Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, que se reuniu com Trump em Washington. Trump também podou o secretário de Comércio, Wilbur Ross, no ano passado, que tinha articulado um acordo com a China sobre o excesso de capacidade da indústria siderúrgica do país, ao repreendê-lo em reunião na Casa Branca.

"É difícil vislumbrar qual seria a visão do governo de um desfecho, a não ser a capitulação total da China a todas as exigências dos EUA", disse Eswar Prasad, professor de política de comércio exterior da Universidade Cornell. "Trump claramente se vê como o que detém todas as cartas na guerra comercial com a China, e parece pouco disposto a ceder um milímetro, o que torna difícil vislumbrar um caminho na direção de um acordo negociado." (Com Sherry Fei Ju e Archie Zhang, de Pequim)