É fácil e indolor matar ao longe

Publicado em 11/01/2018 por Outras Palavras

Novo livro narra rotina macabra dos operadores de drones, homens suaves que eliminam os “inimigos” dos EUA. Mais de 6.300 já foram assassinados — centenas de crianças. Mas, não sendo brancos, serão humanos?

Vamos relatar isto com um ambiente feliz, misturado com torradas, de uma família dos EUA, como naqueles filmes com uma estética dos anos 50, em que o marido está impecavelmente vestido e às crianças é servida, pela solícita e loura mulher da família, a mais importante refeição do dia. Vamos esclarecer um pequeno ponto prévio: aqui, quando falamos em europeus, não incluímos as pessoas de várias cores que vivem do Atlântico aos Urais, mas, regra geral, falamos dos brancos, vivam na Áustria ou na Austrália, nos EUA ou até em Israel, porque, aqui, europeus são os descendentes da cultura e dos povos que habitaram o Velho Continente desde meados da Idade Média, excluindo os árabes que andaram pela península Ibérica.

Mas voltemos ao café da manhã: ovos, café, suco de laranja. Finda a feliz refeição no lar, seguem-se as despedidas consagradas pelo sagrado matrimônio e pela paternidade; a esposa vai levar as crianças à escola de carro; e o marido segue responsavelmente, de carro, para o trabalho.Passa por uma cancela eletrônica, entra num edifício em que se identifica com um cartão e uma espécie de relógio de ponto com impressões digitais. Muda de roupa no vestiário das instalações, guarda o terno e a gravata no respectivo armário. Dirige-se, agora com sua farda militar, para o turno de trabalho, numa espécie de contêiner junto ao edifício principal. É um orgulhoso membro da força aérea dos EUA, um piloto com centenas de missões, feitas em turnos de meia dúzia de horas, e milhares de “inimigos” dos EUA abatidos. Nunca voou, ele próprio, para fora do seu país, mas as suas missões são executadas em todo o globo terrestre.

A conversa que se segue é oficial, está gravada e registada pelos próprios militares para uma avaliação contínua da sua performance. O conteúdo faz parte da introdução do livro Theorie du drone, do filósofo francês Grégoire Chamayou. É uma descrição de vários operadores de um desses aparelhos. Por uma questão de economia de texto – dura um capítulo inteiro –, vou resumir o que é dito, mas sem alterar um substantivo sequer de seu conteúdo.


180110-DroneEra de noite no Afeganistão e, antes que o sol se levantasse para o dia começar, os drones tinham observado um comportamento “anormal” no terreno. A noite acabava e um grupo de pessoas preparava-se para viajar num conjunto de veículos. “Dá pra fazer um zoom para se ver melhor?”, pedia o oficial. “São pelo menos quatro que estão entrando na picape”, diz um deles; “repare que um deles, que está mais ao norte, parece pressionar alguma coisa contra o peito”, acrescenta outro. “É o que ultimamente eles andam a fazer: metem a merda das armas dentro da roupa, para que não possamos fazer uma identificação positiva.” O piloto e o operador vigiam a cena num monitor, estão vestidos com uma farda militar cáqui, têm sobre os ombros o símbolo da sua unidade, usam fones, estão sentados lado a lado diante de painéis onde se observam várias luzes de aparelhos eletrônicos, mas não estão exatamente no cockpit de um avião. As imagens captadas no Afeganistão pelo drone armado (um aparelho voador não tripulado) são enviadas via satélite para a base de Creech, não muito distante de Indian Springs, no Estado norte-americano de Nevada.

Esta base é descrita, com orgulho, pelos próprios militares, como “a casa dos caçadores”.

O trabalho é normalmente entediante, noites inteiras de vigilância para alguns momentos de ação, entre  uma barra de chocolate e outra; até que serão rendidos na manhã seguinte por um outro turno de homens.

Encerrado o expediente, o piloto e o operador voltarão de carro para as suas famílias e casas nos arredores de Las Vegas, depois de uma viagem de 45 minutos. Neste dia e neste momento registrados no livro de Chamayou, têm de tomar uma decisão. Os passageiros dos três veículos, que partiram há poucos minutos da pequena aldeia da província afegã de Daikundi, não sabem que estão sob observação aérea. Para a decisão da sua eliminação estarão presentes, não só o piloto e o operador, mas um coordenador de missão, um “observador de segurança”, uma equipe de analistas de vídeo e “um comandante das forças terrestres”, que dará a luz verde ao morticínio. Pelo caminho vão comentando: “Não consigo identificar armas, mas devem estar escondidas.” “O caminhão vai dar um excelente alvo, é um Chevy Suburban”, diz descontraidamente o observador, com o assentimento do piloto. O coordenador da operação repara que pode haver “pelo menos uma criança, perto da viatura”. “Merda”, exclama o operador, “não me pareceu ver alguma coisa assim tão pequena, não será um adolescente?” “Temos de verificar”, anota com enfado o coordenador. “Estão a rezar. Parecem adolescentes”, nota um.

“Adolescentes? Isso já se pode eliminar.”Passadas umas dezenas de minutos, monitorados e alimentados por dados do drone, tratados por um algoritmo que permite calcular percentagens de cenários, baseadas num conjunto de estereótipos que aponta decisões, é dada, depois da oração das vítimas, ordem de ataque. Nesta operação, porque está presente um único drone, este vai ser auxiliado por dois helicópteros de ataque. Quatro horas depois do início da observação e minutos depois da destruição dos três veículos, faz-se o balanço. Operador: “Quem são estes? Eles estavam no veículo do meio”. O coordenador: “São mulheres e crianças”. O observador: “Parece uma criança, aquele que agita uma bandeira”. O operador: “Neste momento não me sinto à vontade para disparar sobre ele.” “Não”, concorda o coordenador.

Para minorar estes pequenos enganos, as estatísticas militares dos EUA passaram a considerar combatentes de guerra toda pessoa do sexo masculino, esteja ou não armada, “reduzindo” assim em muito as baixas colaterais.

No entanto, de acordo com The Intercept, as estimativas oficiais em 2017 apontam para cerca de 3 mil mortes através de ataques conduzidos por aviões não tripulados (drones) em quatro países (Afeganistão, Iêmen, Paquistão e Somália). O Centro de Direitos Humanos da Columbia Law School (EUA) e o Centro de Estudos Estratégicos de Saná (Iêmen) denunciam a falta de transparência no que toca à divulgação do número de vítimas. As estimativas oficiais reconhecem apenas 2.935 vítimas mortais, enquanto The Bureau of Investigative Journalism (TBIJ), uma organização de jornalistas investigativos sem fins lucrativos, indica entre 6.382 e 9.240 mortos por ataques com drones desde 2004.O número de civis assassinados é estimado pelo TBIJ entre 739 e 1.407, a que se somam entre 240 e 308 crianças. De acordo com The Intercept, os dados podem esconder um número ainda maior de vítimas civis, já que os EUA têm conduzido ataques com drones sobre “homens em idade militar” nas zonas onde operam – inclusivamente durante “casamentos, funerais e outras ocasiões comunitárias”.

O mais interessante é que, embora haja organismos que aprovam e se responsabilizam por estas operações, muitas delas em países com os quais os EUA não estão oficialmente em guerra, nem os deputados norte-americanos foram chamados a pronunciar-se sobre estas agressões. Grande parte das decisões são tomadas por dados recolhidos pelos próprios drones e avaliados a partir de conclusões que os computadores dessas máquinas voadoras considerem “padrões mais prováveis”. Há gente assassinada devido ao “pensamento” e conclusões dos computadores de drones, que assassinam pessoas que, pelo visto, os europeus e os seus descendentes julgam não ser gente que pense o suficiente para merecer viver. 

Aliás, tecnicamente, já é possível programar essas máquinas para executarem diretamente pessoas, sem intervenção e decisão humana, apenas por uma tomada de decisão baseada na existência de determinados padrões que configurem a existência de uma “atividade terrorista”.

Do ponto de vista da escala de valores, teríamos em primeiro lugar os “europeus” capazes de pensar; em segundo lugar, as máquinas, criadas por eles, capazes de assumir a liquidação de “sub-humanos”; e, em terceiro lugar, todos os bípedes não brancos e não pertencentes às monarquias do Golfo. Nas cidades da Europa e dos EUA, a lógica repete-se: ser cidadão depende muito da cor da pele e do bairro onde se habita.Para isto acontecer com os drones, e como acontece no dia-a-dia em países como Israel, é preciso uma filosofia sobre o outro que o torne desumano. Só isso pode justificar que sejam presos menores e condenados a penas de dezenas de anos de cadeia. Isto só é possível porque há uma ideologia, não publicamente assumida, de que há humanos e que há outros bípedes que podem ser agredidos, detidos, torturados e mortos.

O caso da prisão da adolescente palestina Ahed Tamimi é um símbolo dessa ideia de uma raça superior que tem o direito de matar tudo o resto. A jovem de 16 anos tentou agredir soldados israelenses minutos depois de o seu primo de 15 anos ter recebido um tiro no rosto, à queima-roupa, de uma bala de borracha, ficando à beira da morte. Foi detida juntamente com os seus familiares e arrisca-se, segundo a imprensa local, uma pena de prisão que ultrapassa os dez anos. Não consta que o militar israelense que disparou contra o primo tenha qualquer problema em continuar a fazê-lo. A legislação de Israel prevê a prisão de crianças a partir dos 12 anos. O caso que acontece todos os dias na Palestina ocupada só teve um maior destaque porque as redes sociais viralizaram o sucedido e a jovem, que já se tinha oposto, com 12 anos, à derrubada da sua casa, é loura e tem os olhos azuis, como uma europeia.

A pergunta retirada de Hamid Dabashi “Os Não Europeus Pensam?” serve para nos esclarecer duas coisas: a base do massacre dos pobres e dos povos explorados deste mundo começa numa operação ideológica em que lhes é retirada a sua humanidade. E, bem vistas as coisas, é mais provável que os carrascos ditos europeus não pensem do que as suas vítimas não sejam humanas. O sofrimento é humano, a violência dos carrascos é inumana.

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