O fim da floresta?

Publicado em 06/07/2018 por Amazônia Real

Maio pode ser considerado um mês de transição, na Amazônia, entre o período de muitas chuvas, de outubro a abril, e o seu declínio no rumo do verão, com as menores precipitações entre agosto e setembro. Em maio deste ano, 634 quilômetros quadrados (63 mil hectares) de florestas foram derrubados no mês passado, computadas apenas áreas com mais de 10 hectares. Em maio do ano passado, o desmatamento foi de 365 quilômetros quadrados (36 mil hectares).

Um hectare é uma área de 100 por 100 metros, ou 10 mil metros quadrados, referência mais compreensível para quem mora numa cidade. Seria como se três vezes e meia a área de Ananindeua, o segundo mais importante município da região metropolitana de Belém, no Pará, com quase 500 mil habitantes, tivesse sido desmatada num único mês.

O incremento na derrubada de florestas foi, assim, de 73% em maio deste ano, na comparação maio do ano passado, segundo dados do monitoramento realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, divulgados no mês passado.

O Sistema de Alerta de Desmatamento do instituto registrou ainda o crescimento na degradação da floresta, provocada por queimadas ou extração seletiva (e não o corte raso, que é mais visível) de árvores, principalmente no leste do Pará. O levantamento somou 130 quilômetros de florestas degradados, que foram empobrecidas ou desvalorizadas comercialmente.

Os dados caracterizam também o avanço do desmatamento sobre unidades de conservação, criadas com a missão de proteger a natureza. Atraiu a atenção do instituto a distribuição dos alertas no Pará, com uma concentração alta em áreas protegidas. O engenheiro ambiental Antônio Victor Fonseca, pesquisador do Imazon, montou um ranking do desmatamento nessas unidades.

No topo está a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, com 82 quilômetros quadrados perdidos. Em seguida, a reserva do Jamanxim, com a redução de 38 quilômetros quadrados, dentro da qual as áreas individuais foram de dimensões maiores.

O pesquisador não acha possível por enquanto avaliar as causas desse aumento na derrubada de florestas: as informações são recentes e os dados anuais do SAD ainda não foram fechados, já que o ciclo de monitoramento começa em agosto.

Desmatamento em Alta Floresta, no Mato Grosso (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 















Quase metade das florestas perdidas (48%) cobriam áreas no Pará. Mato Grosso (com 29%) e o Amazonas (15%) completam o ranking dos maiores desmatadores no mês passado. Embora menor, o índice do Amazonas preocupa muito. É que o desmatamento está se deslocando para o corredor do sul do Amazonas, que permanecia quase intocado até recentemente. Com essa nova frente, a destruição de florestas tem se concentrado nos últimos três anos num espaço contínuo de quatro Estados: Amazonas, Pará, Rondônia e Mato Grosso.

Fonseca ressalta que esse desmatamento não avançou para o interior do Amazonas graças a um cinturão de áreas protegidas no sul do Estado, como o Mosaico do Apuí, um conjunto de unidades de conservação que ocupa áreas nas divisas com Pará e Mato Grosso. Mas esse fato não chega a ser tranquilizador. Fonseca alerta para as pressões em curso que visam reduzir áreas protegidas nessa região.

Esta situação deverá se agravar com o avanço do verão, que está começando muito forte. O clima da natureza favorecerá as derrubadas e as queimadas, com decisiva ajuda do ambiente político de eleição, que estimula as práticas populistas dos políticos de troca de votos por apoio a iniciativas tidas por produtivas.

Essa combinação pode levar a um resultado desastroso, como o que provocou o desmatamento recorde de todos os tempos. Foi em 1987, quando, no clima da nova constituição, a possibilidade de ampliação das áreas de imóveis rurais privados passíveis de desapropriação, levou os fazendeiros a buscarem no desmatamento a imunização contra essa ameaça. Puseram abaixo muita floresta para tornar suas propriedades produtivas, ainda que de forma irracional, para evitar que elas pudessem ser desapropriadas por interesse social para fins de reforma agrária.

Assim, contra todas as recomendações da razão, a destruição da maior floresta tropical do planeta prosseguirá, afastando-se cada vez mais das tentativas de proteger esse patrimônio único e tão valioso. Os resultados apurados neste ano pelo Imazon delineiam mais um agravamento nas frentes de desmatamento e ameaçam retirar qualquer possibilidade de adoção do desejado desmatamento zero, ironizado e ridicularizado pelos agentes da destruição.

No entanto, Greenpeace, Instituto Centro de Vida, Imaflora, Imazon, Instituto Socioambiental, IPAM, TNC e WWF, organizações não-governamentais reunidas no Grupo de Trabalho pelo Desmatamento Zero produziram o relatório “Desmatamento zero na Amazônia: como e por que chegar lá”.

No documento, divulgado em Bonn, na Alemanha, no final do ano passado, o GT argumenta que não há mais justificativas para a destruição da vegetação nativa do Brasil. “Continuar desmatando resulta em desequilíbrio do clima, destrói a biodiversidade e os recursos hídricos, traz prejuízos à saúde humana e, ao contrário do que muitos acreditam, compromete a competitividade da produção agropecuária”, segundo a nota então divulgada.

O estudo observa que em 2016 o desmatamento na Amazônia, sozinho, foi responsável por 26% das emissões domésticas de gases do efeito estufa no Brasil. Zerar o desmatamento seria “a forma mais rápida e fácil de reduzir emissões e cumprir com o acordo de Paris”.

As ONGs reconhecem que o Brasil já conhece o caminho para o desmatamento zero e sabe como chegar lá. “As medidas implementadas nos últimos anos (2005-2012) derrubaram as taxas de desmatamento na Amazônia em cerca de 70% e indicam que os elementos necessários para atingir o desmatamento zero se encontram presentes”, destaca a publicação.

“O Brasil já sabe o caminho para chegar ao desmatamento zero, mas tem seguido na direção oposta. Temer e o Congresso vêm discutindo e aprovando medidas que incentivam ainda mais desmatamento, grilagem e violência no campo. Caso ações não sejam tomadas urgentemente, o cenário é de permanência de altas taxas de desmatamento na Amazônia”, comentou Cristiane Mazzetti, especialista em Amazônia do Greenpeace Brasil.

O relatório reforça, ainda, a importância da mobilização da sociedade contra as tentativas recentes de enfraquecer a proteção florestal, como a flexibilização do licenciamento ambiental, a redução da proteção de Unidades de Conservação, a paralisação dos processos de demarcação de Terras Indígenas e a anistia de grilagem de terras públicas – gerando um lucro de R$ 19 bilhões para grileiros.

As propostas colidem com a prática corrente dos que se empenham em pôr fim ao que mais caracteriza a Amazônia: a sua floresta.

Publicado originalmente por Amazônia Real