Frente a Bolsonaro

Publicado em 02/11/2018 por El País

A eleição do ultradireitista Jair Bolsonaro como presidente do Brasil é um péssimo presságio para o maior país da América Latina e a oitava economia do mundo. Agora, o importante é que não se transforme em um desastre para o Brasil e para o resto do continente. Alçado pela crise econômica, a violência e a corrupção, que desbaratou a oposição, Bolsonaro, um militar reformado de 63 anos, chegou à chefia do Estado defendendo princípios incompatíveis com uma democracia como a brasileira. Por isso, é essencial que, por parte das instituições do Estado, mas, sobretudo da oposição política, se estabeleçam as barreiras necessárias para que não possa cumprir o prometido, nem tornar realidade seus discursos homofóbicos, xenófobos, favoráveis à ditadura, às armas, à tortura e ao encarceramento dos opositores.

Embora maltratado, o Partido dos Trabalhadores, que obteve 44% no segundo turno, continua sendo a principal formação da esquerda brasileira e tem um papel muito importante a desempenhar como porta corta-fogo frente aos excessos do ultradireitista, porque, queira ou não, este terá de passar pelo Congresso para levar a cabo suas principais políticas. Mas não será fácil: a Câmara brasileira está profundamente atomizada, com mais de 30 partidos representados; desprestigiada, porque foi o epicentro de algum dos escândalos de corrupção que acabaram danificando o PT; e os ultraconservadores têm muita influência. O Supremo Tribunal Federal, fiador da Constituição, também pode ser muito importante para frear as propostas do radical que sejam contrárias aos direitos humanos —como a impunidade para os policiais que matem em de serviço—, mas Bolsonaro obteve a vitória da política, e deve ser derrotado a partir da política.

Trata-se de uma oportunidade para que os partidos políticos tradicionais —a centro-esquerda, a direita democrática e o PT— procurem a unidade que não foram capazes de articular frente à ascensão de Bolsonaro, e não se enredem em brigas partidárias diante de um perigo indubitavelmente maior. O ex-militar não só ganhou as eleições com um discurso duro e retrógrado em direitos sociais como também, repetindo mil vezes mentiras até transformá-las em verdades, e comunicando-se diretamente com os eleitores através das redes sociais, foi capaz de convencer aos brasileiros de que representa a mudança e a renovação. Trata-se de uma bandeira que os partidos democráticos precisam recuperar e que não podem deixar nas mãos de um saudosista da ditadura militar, se não quiserem que os direitos dos brasileiros retrocedam várias décadas.

Como já vimos na Venezuela e na Nicarágua, um líder eleito nas urnas pode transformar uma democracia em ditadura corroendo pouco a pouco a estrutura do Estado. Dado o papel central do Brasil na economia e na política da América Latina (e de todo o mundo), um giro autoritário poderia ter consequências imprevisíveis sobre a estabilidade geral. Ao deixarem que Jair Bolsonaro aja desimpedido, não são só os brasileiros que estão colocando muita coisa em jogo, e sim todos os cidadãos de um mundo globalizado, que já viu o estrago que os Trumps e Orbáns podem fazer aos seus próprios países.

Conteúdo publicado originalmente por El País