Agora olímpico, caratê vai bancar 100% das viagens de seus atletas

Publicado em 11/02/2018 por O Globo

O brasileiro Douglas Brose, campeão nos Jogos Pan-americanos de Toronto-2015, disputa a segunda decisão de um torneio em 2018 - SERGIO DUTTI/EXEMPLUS/COB

Ao lado do surfe e do skate, esportes que estreiam nos Jogos de Tóquio, em 2020, o caratê está na lista de prioridade do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Isso porque, assim como os radicais, que contam com Pedro Barros e Gabriel Medina, o caratê também tem suas estrelas. Hoje, três caratecas estão entre os três melhores do mundo no kumitê (luta), segundo ranking da Federação Internacional de Karatê (WKF). Douglas Brose, 32, é o líder da categoria -60kg, Vinícius Figueira, 26, o segundo melhor do mundo com -67kg, e Valéria Kumizaki, 32, terceira na lista de -55kg. O Brasil é o quarto colocado no ranking, atrás de Japão, Irã e Austrália.

Na primeira competição do ano, a Premier League, etapa de Paris, em janeiro, Douglas, bicampeão mundial em 2010 e 2014, conquistou a medalha de prata. O Brasil teve sete atletas, incluindo Valéria, campeã mundial em 2005 e do World Games em 2017, e Vinícius, campeão da Premier League em 2016. Eles foram eliminados nas oitavas-de-final.

- Se a Olimpíada fosse hoje, apostaria em três medalhas, com Valéria, Douglas, que hoje está na frente do Vinícius (as categorias serão unificadas) e Hernani (Veríssimo) - diz William Cardoso, diretor técnico da Confederação Brasileira de Karatê (CBK), citando ainda o novato Hernani, 22, 13.º na lista dos -75kg. - Ele estreou no adulto há apenas dois anos e não viajou para eventos da circuito mundial. Está nessa posição apenas com os títulos sul-americano e pan-americanos de caratê. Chegou, chegando.

É que os caratecas precisam pagar parte das despesas nas viagens internacionais. E os circuitos mais importantes, a Premier League e a Série A, tem mais competições na Europa. A CBK arca com a inscrição e a hospedagem dos 24 atletas da seleção, mas as passagens e os gastos, não. Em 2017, alguns tiveram apoio do COB.

Segundo o presidente da CBK, Luiz Carlos Cardoso, a verba proveniente da Lei Agnelo Piva, R$ 720/ano, poderá ser usada para bancar 100% das viagens dos atletas, além dos técnicos (que não são contratados, ganham diária). Principalmente no segundo semestre, quando começará a contar pontos no ranking olímpico, principal caminho para Tóquio.

- A ideia é levar os treinadores a mais viagens. E esse valor, apesar de bem-vindo, não é o suficiente para a nova demanda - lamenta Cardoso, que trabalha com orçamento de R$ 2 milhões/ano (pequenos parceiros, cursos, taxas, eventos, etc). - Estudaremos a melhor forma de utilização. Porque a meta é ter medalha em Tóquio. Não vamos a passeio.

Bem estruturada, com cinco medalhistas no Pan-americano de Toronto-2015 (três ouros, com Valéria, Douglas e Natalia Brozulatto), a CBK possui 2.085 associações/clubes filiados, com 250 mil praticantes ligados à entidade por meio de 27 federações estaduais. De acordo com a WKF, há mais de 100 milhões de praticantes de caratê pelo mundo.

Raio-x do caratê olímpico
10 atletas
Medalhas
Atletas
O caratê
Cada categoria terá 10
distribuirá
atletas, sendo que cada
4 medalhas por
país só pode classificar
categoria em
um por categoria
Tóquio
Equipamentos de segurança
Protetor Bucal
Fabricados com
material não tóxico,
concede proteção
máxima para a arcada
dentária superior
Colete
Proteção para o tórax
Protetor para mão
Região de contato com
o rival tem cerca de
4cm de espuma para
evitar contato brusco
Proteção para tíbia e pé
Fica por baixo do kimono
bicampeão mundial (-60kg)
Categorias olímpicas
Shiai Kata
O competidor apresenta uma
sequência de técnicas
pré-determinadas; os árbitros
apontarão a melhor
performance (dois atletas por
disputa)
Masculino
Categorias
Feminino
Shiai Kumite
Luta propriamente dita,
dividida por categoria de
peso, como no judô e
taekwondo
Golpes
Ippon
Wazari
Yuko
Chute controlado no rosto ou
Chute na altura do tronco:
Qualquer técnica de braço,
ashi barai (rasteira) seguido de
no rosto ou tronco:
2 pontos
técnica de soco ou chute após
1 ponto
o adversário estar no chão:
3 pontos
Luta:
vencedor é o que mais pontuar em 3 minutos de luta para os homens e 2 minutos para as
mulheres ou quando um atleta colocar 8 pontos de diferença no placar
Classi?cação
4
3
ATLETAS POR
ATLETAS POR
EVENTO CLASSIFICATÓRIO,
RANKING
CATEGORIA
CATEGORIA
MUNDIAL
EM PARIS, EM MAIO DE 2020
2
1
ATLETAS POR
ATLETA POR
RANKING
PAÍS-SEDE
CATEGORIA
CATEGORIA
CONTINENTAL
Fonte: Confederação Brasileira de Karatê (CBK)
Raio-x do caratê olímpico
Medalhas
O caratê distribuirá 4 medalhas
por categoria em Tóquio
Atletas
10 atletas
Cada categoria terá
10 atletas, sendo
que cada país só
pode classificar um
por categoria
Categorias olímpicas
Shiai Kata
O competidor apresenta uma
sequência de técnicas
pré-determinadas; os árbitros
apontarão a melhor performance (dois
atletas por disputa)
Masculino
Categorias
Feminino
Shiai Kumite
Luta propriamente dita, dividida por
categoria de peso, como no judô e
taekwondo
Golpes
Ippon
Chute controlado no rosto ou
ashi barai (rasteira) seguido de
técnica de soco ou chute após
o adversário estar no chão:
3 pontos
Wazari
Chute na altura do tronco:
2 pontos
Yuko
Qualquer técnica de braço,
no rosto ou tronco:
1 ponto
Luta:
vencedor é o que mais pontuar em 3
minutos de luta para os homens e 2
minutos para as mulheres ou quando
um atleta colocar 8 pontos de diferença
no placar
Classi?cação
4
ATLETAS POR
RANKING
CATEGORIA
MUNDIAL
EVENTO CLASSIFICATÓRIO,
EM PARIS, EM MAIO DE 2020
3
ATLETAS POR CATEGORIA
2
ATLETAS POR
RANKING
PAÍS SEDE
CATEGORIA
CONTINENTAL
1
ATLETA POR
PAÍS-SEDE
CATEGORIA
Fonte: Confederação Brasileira de Karatê (CBK)

ELITE RESPRESENTA SANTA CATARINA

Valéria, Vinícius e Douglas são a elite do caratê brasileiro. Os três representam Santa Catarina, o estado com o maior número de atletas de alto rendimento. Eles contam com auxílio do Bolsa Atleta e do programa de incentivo do Exército. É com a soma dessas parcerias que eles conseguem bancar suas despesas.

- E como viajamos sozinhos, um ajuda o outro - explica Valéria, que namora Vinícius. - Fico fora do tatame o incentivando. E ele faz o mesmo comigo. Conhecemos em detalhes um a categoria do outro. Depois das lutas, a gente conversa sobre o que precisa ser feito, o que pode ser melhorado.

Valéria, que após a morte de seu técnico, num acidente de trânsito, em 2014, nunca mais teve outro, conta que após a competição na Espanha viajará para novos torneios nos Emirados Árabes, Áustria, Turquia e Holanda. Nestes últimos três países não terá ajuda alguma. Pagará tudo, até a hospedagem e os treinamentos:

- Para crescer, tenho de estar entre os melhores. Foi o que sempre pensei. Por isso, gasto todo o meu dinheiro com o caratê. Para mim, não é um gasto. É um investimento. Mas, claro que agora espero ter apoio para chegar a Tóquio. Será a minha primeira e última chance olímpica. Pretendo encerrar a carreira com chave de ouro - espera Valéria, natural de Presidente Prudente (SP), formada em Educação Física.

Valeria Kumizaki é a terceira melhor do ranking mundial de atletas com -55kg - SERGIO DUTTI/EXEMPLUS/COB / SERGIO DUTTI/EXEMPLUS/COB

O casal é muito próximo de Douglas. Todos são amigos. Mas Vinícius e Douglas não disputarão os Jogos de Tóquio juntos. Ou vai um ou vai outro. É que o COI juntou oito categorias de peso, duas a duas, do feminino e do masculino. E na Olimpíada haverá limite de um atleta por país e por categoria.

- Na verdade, ele não é meu maior rival. O confronto será com outros da minha categoria. Se os dois forem líderes em seus pesos, na hora da junção, o que decidirá serão os pontos. Ou seja, vai a Tóquio quem tiver feito o melhor trabalho - pondera Douglas, nascido em Cruz Alta (RS) e formado em Educação Física. - Não acho que a junção seja um problema. Esse é um começo mesmo. Em 2024, o caratê pode crescer (a modalidade ainda não está garantida em 2024).

DEDICAÇÃO EXCLUSIVA

Douglas, casado com sua treinadora, Lucélia de Carvalho, ex-atleta e recordista em medalhas no Pan-Americano, quatro ouros, além de um bronze no Mundial, começou no caratê aos 7 anos porque gostava de filmes de lutas. Já adulto, passou a praticar o kitesurf. É o seu hobby.

Hoje, sua fonte de renda vem do caratê. Ele representa uma famosa marca de artigos esportivos especializados na modalidade. Vende protetor bucal a quimono.

- Eu mesmo me patrocino - brinca ele, que afirma que para este ciclo olímpico não mudará nada em sua preparação. - Sempre me dediquei ao esporte como se fosse olímpico. Dei o meu melhor, fui no limite. Se não, teria me enganado nos últimos 25 anos? Eu não me enganei. O que mudou foi a motivação.

Para Vinícius, não é hora de pensar na concorrência com o amigo Douglas.

- São etapas, não dá para pensar apenas no resultado final. Serão muitas competições a partir de setembro (início do ranking olímpico). É como uma escada. Tenho de subir degrau por degrau - desconversa o carateca de Londrina, formado em Agronomia, com pós-graduação em Nutrição de Plantas e Fertilidade de Solos. - O Douglas é o meu maior parceiro. Treinamos juntos na seleção. Penso nos pontos que precisarei na minha categoria.