Após eleição, Trump demite secretário de Justiça dos EUA

Publicado em 08/11/2018 por Valor Online

Após eleição, Trump demite secretário de Justiça dos EUA

Pablo Martinez Monsivais/AP

O secretário de Justiça, Jeff Sessions, era frequentemente criticado por Trump

O secretário de Justiça dos EUA, Jeff Sessions, deixou ontem o cargo a pedido do presidente Donald Trump, segundo uma carta encaminhada à Casa Branca. Trump vinha recriminando Sessions abertamente por este ter se declarado impedido de supervisionar uma investigação sobre um suposto conluio do presidente com a Rússia nas eleições de 2016.

Trump nomeou Matt Whitaker, chefe de Gabinete do Departamento de Justiça, como secretário em exercício e o encarregou da investigação sobre o caso envolvendo a Rússia, que é liderada pelo promotor especial Robert Mueller, segundo informou uma autoridade do governo americano. Whitaker, que vinha criticando o andamento da investigação sobre a Rússia, agora terá poder para demitir Mueller ou frear a sua investigação sobre a interferência russa na campanha para as eleições presidenciais de 2016.

Trump disse que nomeará o sucessor definitivo de Sessions em mais adiante. Obter a confirmação do Senado poderá ficar mais fácil porque os republicanos ganharam mais assentos nas eleições legislativas de terça-feira.

Os democratas alertaram para interferência na investigação. Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, afirmou que "proteger Mueller e sua investigação é da maior importância". Mueller não quis fazer comentários sobre o assunto, segundo o seu porta-voz.

Antes de Trump conceder uma entrevista coletiva ontem, o chefe de Gabinete da Casa Branca, John Kelly, chamou Sessions e disse a ele que o presidente o queria fora, informou a fonte. Trump disse na entrevista que quer o fim da investigação de Mueller, classificando-a de "muito injusta". "Ela deveria acabar porque é muito ruim para o nosso país", afirmou.

O subsecretário de Justiça, Rod Rosenstein, que nomeou Mueller e vem supervisionando sua investigação desde o começo, permanecerá no cargo, segundo a fonte.

Whitaker, um ex-procurador de Iowa, era chefe de Gabinete de Sessions desde setembro de 2017. Antes, ele foi um comentarista jurídico conservador que criticou o alcance da investigação conduzida de Mueller.

Em julho de 2017, ele disse numa entrevista à rede de TV CNN que podia vislumbrar um cenário em que um secretário de Justiça interino não demitiria Mueller, mas sim "reduziria tanto o seu orçamento que sua investigação seria praticamente paralisada".

No mês seguinte, Whitaker escreveu de artigo de opinião publicado no site da CNN, no qual afirmava que a investigação de Mueller parecia estar indo longe demais e poderia constituir uma "caça às bruxas", repetindo uma das descrições favoritas de Trump para criticar e desacreditar a investigação.

O deputado democrata Jerrold Nadler, que está prestes a se tornar o presidente da Comissão de Justiça da Câmara, o que deverá ocorrer em janeiro, postou no Twitter: "Por que o presidente está fazendo essa mudança e quem tem autoridade sobre a investigação do promotor especial Mueller? Vamos responsabilizar pessoas por isso".

Republicanos alertaram Trump no ano passado contra a substituição de Sessions, mas parte dessa resistência parece ter desaparecido no fim de agosto, quando vários senadores republicanos sinalizaram ao presidente que ele poderia indicar um novo secretário de Justiça após as eleições legislativas.

"O presidente tem direito a ter um secretário de Justiça em quem ele confia, alguém qualificado pra o cargo, e acho que chegará a hora, mais cedo do que tarde, de ter um rosto novo e uma nova voz no Departamento de Justiça", disse em agosto o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, que poderá chefiar a Comissão de Justiça do Senado no ano que vem. "Está claro que o secretário Sessions não tem a confiança do presidente."

Sessions, de 71 anos, ex-senador republicano pelo Estado do Alabama, foi o primeiro senador a apoiar a insurgente campanha presidencial de Trump. Mas, com o tempo, ele passou de um dos mais próximos assessores de campanha de Trump a um secretário pária.

Sessions manteve o cargo de principal autoridade de aplicação da lei dos EUA, apesar das frequentes críticas públicas de Trump contra ele. "Estou desapontado com o secretário de Justiça por várias razões", disse Trump a jornalistas em setembro.

O presidente atacou Sessions por ele se declarar impedido de supervisionar a investigação federal sobre a interferência russa nas eleições, iniciativa que o presidente regularmente classifica de "fake news" e "caça à bruxas".

Sessions se declarou impedido em março de 2017, mesmo depois de Trump ter enviado o advogado da Casa Branca para convencê-lo a não fazer isso, segundo informou uma fonte a par do assunto. Com isso, Rosenstein passou a supervisionar a investigação e nomeou Mueller como promotor especial.