Artigo: Caminhos para o turismo

Publicado em 08/11/2018 por O Globo

Parece importante aproveitar o discurso do futuro presidente de que o município é uma célula inicial do desenvolvimento
 
O Brasil começa um novo momento de gestão em janeiro. Tudo indica que o Ministério do Turismo será extinto ou acoplado a uma área de  desenvolvimento econômico. Mais uma vez, faltaram nos programas de governo dos dois candidatos que foram ao segundo turno propostas objetivas para o setor. Houve um discurso genérico de que a atividade é importante, gera empregos,  ou afirmativas sem nenhuma profundidade. 
 

Assim, precisamos aproveitar o período de preparação do novo governo para fazer sugestões que possam tornar o setor  uma forma de desenvolvimento efetivo. Vamos começar com a revisão da Lei Geral do Turismo e seu modelo de gestão. Um plano nacional de turismo é fundamental também,  com metas estabelecidas e um grupo de técnicos buscando assessorar as politicas públicas, voltando ao projeto de municipalização do turismo, que deu muito certo.

Parece importante aproveitar o discurso do futuro presidente de que o município é uma célula inicial do desenvolvimento nacional. Ali devemos criar condições para a integração efetiva da população anfitriã com o setor produtivo e os visitantes. Incentivar a preservação  das características locais sempre e fazer com que o morador local entenda que o turismo pode ser uma ferramenta de mudança. 

Precisamos de um Conselho Nacional de Turismo, independente, sem que as associações ali presentes sejam contempladas com verbas,  e que consiga levar adiante, de forma objetiva e crítica,  a veracidade da imagem brasileira.

Para começar, faltam  um plano de sinalização turística em todo o país, um programa de promoção baseado em estatísticas e dados colhidos não só no Brasil, como nos mercados emissores,   uma reformulação dos escritórios no exterior e a participação em  eventos internacionais. No fundo, faltam dotação orçamentária e liberação de recursos. 

Vivemos uma época de notas plantadas em colunas sociais e jornais, que sempre vão mencionando projetos que nunca acontecem. As embaixadas e consulados no exterior são nossos verdadeiros escritórios de promoção e,  para  cada um deles (nos principais centros emissores de turista),  deve ser designado um diplomata com o objetivo de  cuidar da imagem do Brasil, com ações pontuais como workshops, fam tours ou ainda press trips. Temos que criar novas formas empreendedoras de promoção,  como os Embaixadores do Turismo brasileiro, a exemplo do projeto desenvolvido no Rio.

Uma menção especial para a capacitação e reciclagem de recursos humanos que trabalham na área. Não podemos continuar com um certo amadorismo ainda presente na prestação de serviço e pensar que os mandos gerenciais e diretivos são autossuficientes. Ledo engano. Faltam atualização dos gestores em novas técnicas de administração. Por outro lado, salários mais atrativos e concursos públicos nos órgãos oficiais. A quantidade de funcionários estranhos ao quadro que ocupam cargos em comissão cresce a cada governo, desmotivando os de carreira. As faculdades de Turismo, nomeadamente as particulares,  estão desaparecendo,  e os cursos de tecnólogos,  que deveriam substituí-las, não estão vingando. Um programa no sentido de capacitar aprendendo na pratica, como faz o Senac,  é a resposta mais efetiva.

A segurança turística vive uma ilusão de marketing nos estados e municípios onde foi implantada,  com raras exceções. Faltam  qualificação dos integrantes das forças de segurança e,  sobretudo,  motivação e investimentos na infraestrutura. Acredito que um plano nacional de segurança turística integrando todas as forças e retomando em cada estado ou município os Conselhos de Segurança Turística poderia minimizar uma serie de ocorrências e criar um clima de integração.

É sempre vital lembrar que o turismo passa por um processo democrático de integração e facilitação das minorias, como a população LGBT, os índios, os quilombolas,  para citar apenas alguns exemplos. Países turísticos se utilizam de ações de atendimento especial e acolhimento dos que os  visitam e mostram que aceitam a diversidade, como apregoa o Código de Ética Mundial do Turismo, da Organização Mundial do Turismo, da qual o Brasil é membro atuante.

São algumas sugestões que podem ser avaliadas ou apenas consideradas num momento de transição.

Bayard Do Coutto Boiteux é vice-presidente executivo da Associação dos Embaixadores de Turismo do Rio