As doenças comuns da infância

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

As doenças comuns da infância

Olívio Lamas/Agência O Globo

Sarampo é a mais letal doença da infância: 89 mil óbitos globalmente em 2016

Já teve as doenças comuns da infância? Assim começava uma consulta de pediatria na década de 80. A mãe respondia: "Sim, doutor, já teve caxumba, rubéola e sarampo... e o irmãozinho está com uma febrinha em casa, deve ter pegado sarampo". O médico, com um sorriso cúmplice, como se parabenizasse a família, anotava a informação no prontuário e a consulta seguia em frente.

Assim eram ensinados os estudantes de medicina e enfermagem. A caxumba, a rubéola e o sarampo pareciam pertencer a um rito de passagem das crianças, que não despertava muita atenção. Na realidade são três doenças virais que podem evoluir com complicações sérias e morte.

A mais letal de todas é o sarampo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), foram 89 mil óbitos globalmente em 2016, a maioria crianças menores de 5 anos, principalmente na África e Ásia. Foi a primeira vez que esse número ficou abaixo de 100 mil óbitos anuais. Durante os anos 2000 a 2016 a vacinação preveniu mais de 20 milhões de mortes. Sarampo foi uma das doenças que dizimaram os povos centro e latino-americanos durante os primeiros contatos com europeus. Nenhuma outra doença que pode ser prevenida por vacina causa tantas mortes.

A maior complicação da caxumba é o desenvolvimento de meningite ou encefalite, que podem deixar sequelas neurológicas. A principal preocupação com a rubéola é seu aparecimento em gestantes, devido aos riscos para o feto, que incluem morte intraútero, microcefalia, surdez e cegueira congênita.

A vacinação preventiva já existia na década de 80, porém, devido a condições socioeconômicas e políticas do Brasil, não eram disponíveis no país. As vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola foram criadas na década de 60.

Em 1971 Maurice Hilleman, desenvolveu a vacina MMR ("measles", sarampo; "mumps", caxumba; "rubella", rubéola), que combinou as três vacinas anteriores em uma única aplicação, desde então adotada mundialmente.

Além das doenças citadas anteriormente, a poliomielite é outra doença viral, com prevenção, cuja sequela mais conhecida é a paralisia irreversível das pernas e a pior é a morte. As vacinas contra a poliomielite foram criadas na década de 50, por Jonas Salk e Albert Sabin.

Todas as vacinas citadas são altamente efetivas, com baixíssimo risco de complicações e promoveram a erradicação dessas doenças em diversos países, incluindo o Brasil. A pergunta do médico mudou hoje para "A carteira de vacinação está em dia?".

O país foi certificado como livre da poliomielite em 1994, rubéola em 2010 e sarampo em 2016. Dezenas de milhares de médicos e enfermeiros formados da década de 80 até hoje não viram um único caso de sarampo nas suas vidas profissionais. Pode-se dizer que qualquer avó de hoje é capaz de dar o diagnóstico de sarampo olhando as lesões de pele da criança com mais rapidez que os profissionais.

As certificações de erradicação de doença têm a mesma dinâmica que aquelas das agências de análise de risco econômico. São monitorados diversos indicadores; ao se atingir determinados parâmetros recebe-se o grau de investimento - no caso da saúde, certificação de país livre da doença.

O processo inverso também é o mesmo. Perde-se a certificação se os parâmetros de excelência são perdidos, no caso da saúde se se diagnostica maior número de casos da doença ou risco de surtos epidêmicos.

As mudanças de classificação não são abruptas. Os parâmetros são conhecidos; as tendências, monitoradas, e os países, notificados a tomar providências. Quando a nova classificação chega, não costuma pegar ninguém de surpresa.

Vide a febre amarela, virose declarada erradicada no Brasil em 1942 e que retornou em todo o país em 2017. A OMS mudou a classificação do país e, hoje, recomenda vacinação para todos estrangeiros e residentes que viajam para 19 Estados, incluindo regiões do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e todo o Distrito Federal.

A vacinação apresenta dois efeitos benéficos. No indivíduo, ela induz a formação de anticorpos contra o vírus ou a bactéria. Em termos populacionais, ela cria uma rede de proteção que dificulta o contágio de quem não é vacinado. O vírus ou a bactéria não passam de uma pessoa para a outra pois todos têm o anticorpo. Quem não é vacinado fica protegido por essa "barreira de vacinados".

O caso é que as viroses prevenidas pela vacina MMR estão aumentando no país, particularmente o sarampo. O Ministério da Saúde registra mais de mil casos até o início de agosto deste ano concentrados no Amazonas e em Roraima, mas também no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e em São Paulo. Em 2003 foram menos de 50 casos no país. Em seus informes técnicos, o ministério informa que a cobertura vacinal vem caindo. Para a poliomielite, a situação é semelhante.

O Brasil domina o ciclo de produção das vacinas. Seus quadros técnicos e centros de pesquisa são reconhecidos mundialmente, e a monitoração de novos casos é eficiente. Por que estamos retroagindo no tempo?

Aqui as opiniões vão divergir exaltadas pelas paixões políticas do momento, mas os fatos estão aí. Podemos tentar uma abordagem por aproximação, como um exercício.

Temos no Brasil grupos radicais antivacinação, organizados e atuantes nacionalmente? A resposta é não, então a população ser contra a vacinação não parece ser um problema.

Será que houve atuação e gestão competentes do Ministério da Saúde? Como os números pioraram, a resposta é não.

Há continuidade nas ações do ministério? Como nos aproximar dessa questão? Podemos perguntar quantos ministros da Saúde tivemos nos últimos 15 anos - a resposta é dez ministros. Isto é muito ou pouco? Tivemos, no mesmo período, 3 presidentes do Banco Central e 6 ministros da Fazenda. Talvez o cargo de ministro da Saúde não seja tão complexo em suas atribuições.

Será que o orçamento do ministério é suficiente? Apesar da Lei de Acesso à Informação, precisaríamos de especialistas para decifrar o orçamento. Vamos perguntar para a OMS, então. No seu último relatório, publicado em 17 de maio, está a informação de que o Brasil gasta 7,7% do seu orçamento com saúde - inferior à média mundial e um dos valores mais baixos das Américas, semelhante à média dos países africanos.

Bem, caro leitor, acabou o meu espaço, penso que com exercício realizado já temos o que perguntar aos nossos candidatos na próxima eleição.

Enquanto isso, se alguém na sua família aparecer com febre e manchas avermelhadas na pele, vá ao médico, mas envie uma foto para ver o que a avó da casa acha que é.

Iran Gonçalves Jr, médico, escreve neste espaço mensalmente