O câmbio forte e as ações de bancos

Publicado em 11/07/2018 por Valor Online

O câmbio forte e as ações de bancos

As ações dos bancos têm caído sem parar neste ano. Uma das razões pelas quais esta tendência deve continuar é o fortalecimento do dólar. Enquanto o dólar se valoriza, o apetite dos bancos fora dos EUA pelo risco diminui e os preços das ações acabam penalizados.

Este fenômeno, que afeta as instituições de forma geral em todo o mundo à exceção dos Estados Unidos, tem sido documentado nos últimos anos por economistas do BIS (Banco de Compensações Internacionais).

Os investidores devem prestar atenção nesse cenário não apenas porque a tendência pode ajudar a explicar o motivo de as ações terem tido um fraco desempenho neste ano, mas porque a queda pode continuar.

Existem outras razões para o desempenho ruim do setor financeiro, como a perspectiva global mais fraca. Na Europa, pesa o fato de as expectativas para o início do aperto de juros apontarem bem mais para frente. Também é fácil identificar problemas específicos como a reestruturação do Deutsche Bank, a exposição de bancos espanhóis aos mercados emergentes e a instabilidade política no Reino Unido e Itália.

Ainda assim, o efeito do dólar importa e na Europa, na Ásia e em outros continentes as coisas parecem piorar. O forte crescimento da economia americana e um mercado de trabalho mais apertado devem significar mais aumentos de juros e, por sua vez, uma moeda mais forte. Porque é que isto afeta os bancos?

Em termos simples, através do valor dos colaterais - casas, edifícios e equipamentos que a maior parte dos devedores apresenta como garantia contra as dívidas. Muitas instituições financeiras utilizam dólares para empréstimos garantidos por bens em outras moedas. Quando o dólar sobe, o colateral cai em valor face ao empréstimo e, por isso, o crédito se torna mais arriscado. Isto é verdade mesmo que o empréstimo seja concedido a uma empresa que fatura em dólares, embora o problema seja maior se o negócio operar com moeda local.

Os bancos usam dólares em boa parte do crédito na Europa e nos mercados emergentes. Os melhores dados se referem a empréstimos transfronteiriços, que colapsaram com a crise. Mas, atualmente, os empréstimos em dólares a empresas não financeiras atingiram um recorde de US$ 6,6 bilhões no fim do ano passado, diz o BIS.

Os bancos fora dos EUA enfrentam agora um duplo problema de receitas e margens. Um dólar mais forte provavelmente significa menos empréstimos e, logo, menos receitas. Ao mesmo tempo, os "yields" (retornos) dos Treasuries de dez anos mais baixos estão estreitando muito a diferença entre as taxas a curto e de longo prazo - o que torna o crédito menos rentável para os bancos. E isto poderá afetar as economias, pois uma queda do crédito pode significar em muitos países um abrandamento da oferta de dinheiro, que já é a mais baixa desde 2009, de acordo com a Absolute Strategy Research.