Choque de visões de mundo alimenta Bolsonaro, mas sua viabilidade é baixa

Publicado em 11/10/2017 por Folha de S. Paulo Online

Há três tipos básicos de avaliação sobre a candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSC, talvez Patriotas ou algo assim) na praça, fora obviamente aquela do campo de seus apoiadores.

A primeira o vê como uma ameaça histriônica à democracia que precisa ser combatida em seus termos. A segunda avalia sua presença no cenário da mesma forma, mas descarta o embate por acreditar que ele está mais para um espantalho útil que irá se desfazer com os ventos de 2018. A terceira faz o mesmo diagnóstico dos primeiros, mas vê potencial de estabilização de seu nome à medida em que ele se mostrar mais convencional.

Os primeiros estão fadados ao fracasso. Não adianta o relativismo moral típico da esquerda "Fora, Temer" contra Bolsonaro. Isso só alimenta sua retórica belicista, além de deixar nus os rede-socialistas da Vila Madalena, Leblon e afins. É uma batalha perdida, independentemente do quão grotescas sejam as posições do deputado -e, na minha opinião, elas são.

Os segundos estão mais próximos do que tudo indica ser o quadro real. Parece haver maior possibilidade de um nome da centro-direita ocupar esse vazio entre os extremos radicalizados da vida política nacional -Bolsonaro e o candidato do PT, seja Lula ou um preposto. Segundo essa lógica, os votos que o deputado hoje toma do PSDB voltariam ao ninho tucano ou ao de algum candidato viável nessa savana.

Sobre os terceiros, há um realismo cínico típico de mercado financeiro. O vácuo no centro está deixando o pessoal nervoso, não menos porque a opção mais galvanizante para eles que vinha se formando, o prefeito paulistano, João Doria (PSDB), passa por um duro inferno astral.

Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meirelles (PSD), nomes que agradam ao setor, não empolgaram ainda na corrida. Mas daí a enxergar Bolsonaro como um "player" respeitável porque decorou duas ou três palavras mágicas, isso é demais.

O movimento da turma, que se guia pelo sangue na água, não é de todo modo desprezível. E ele coloca em evidência outra questão, que o primeiro grupo (os "Fora, Temer") se recusa a admitir: quando você tira os arroubos bizarros (culto à ditadura e torturadores, uma versão direitosa do chavismo, a homofobia virulenta), Bolsonaro representa também uma boa franja da reação ao politicamente correto.

Ele e seus apoiadores mesmo já disseram isso, ao apontar o dedo para o "nós contra eles" instituído por Lula e pelo PT. Remova a ironia, já que Bolsonaro nada mais do que a mesma coisa com sinal trocado, é um fato colocado.

Episódios como o do Queermuseu em Porto Alegre ou do MAM paulistano explicitam o fosso entre as visões de mundo dos bem-pensantes e do proverbial povão.

É a fricção entre essas placas tectônicas que gera a energia a alimentar o fenômeno Bolsonaro. Mas parece ser um desaguadouro provisório. Claro, há um percentual da população que passou 30 anos quieto e de fato gostaria de ver a intervenção militar ou a volta da ditadura, e é paradoxalmente democrático que eles possam se exprimir.

Mas eles não são nem de longe maioria entre os 15%-20% que apoiam hoje Bolsonaro -se eu pudesse chutar, diria que é o estrato mais rico de seus eleitores que tem os instintos mais radicais. No geral, aqui encontramos o típico conservador brasileiro, pagador de imposto, oprimido pelo noticiário da corrupção e pela desesperança na política.

Como pescá-lo mantendo um discurso reformista, já que esse mesmo eleitor rejeita a esquerda mas também que mexam na Previdência, é o desafio para quem quer que seja a dominar o campo conservador em 2018. Fácil não será, mas continuo duvidando de que a tarefa caberá a Bolsonaro.

Muita gente séria acha que ele pode manter sua intenção atual e chegar ao segundo turno. Se for para isso, será para eleger qualquer um que estiver contra ele, seria nossa Marine Le Pen. Ainda acho que ele não estará lá. Sua inconsistência programática e econômica, e duvido que ele ache um Armínio Fraga para chamar de seu, a exposição crua de seu radicalismo em campanha e a insuficiência de costura político-partidária teoricamente o abaterão.

Teoricamente, porque estamos no Brasil.