A coerência da mudança

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

A coerência da mudança

Encontrei em Portugal um livro que cairia como uma luva no cenário brasileiro pré-eleições. "Um Candidato Idóneo" (Antígona) reúne crônicas de Mark Twain sobre o processo eleitoral nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX. São textos cheios de humor que satirizam, sobretudo, as práticas e comportamentos políticos, o papel da imprensa de inventar passados para os candidatos e a submissão a um partido ou a uma figura heróica, que se sobrepõe ao bem da nação. Ou seja, poderia ter sido escrito hoje, com pequenas atualizações.

Autor de clássicos da literatura, como "As Aventuras de Tom Sawyer" e "As Aventuras de Huckleberry Finn", Mark Twain, pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens, se aventurou por profissões inesperadas antes de se tornar jornalista e escritor: foi piloto de barcos a vapor no rio Mississipi e mineiro na extração de prata, experiências que virariam matéria de seus livros. Sua passagem pelo serviço do governo e sua experiência de participação em campanhas políticas, quer como candidato, quer como apoiador de outros candidatos, resultariam, por sua vez, numa visão perspicaz acerca do funcionalismo público e da carreira política, evidente nas crônicas dessa edição. Por não poupar nem mesmo o papel da imprensa na luta partidária entre republicanos e democratas, Twain se viu muitas vezes em maus lençóis. Manifestar seu ponto de vista sem papas na língua tinha um preço a ser pago.

As duas primeiras crônicas, "Um Candidato à Presidência" e "A Minha Candidatura a Governador", parodiam falhas éticas e morais forjadas pela imprensa para destruir um candidato. Hoje, esse papel cabe mais às "fake news" que circulam pela internet, muitas vezes inventadas por adversários ou seus apoiadores. Publicada pela primeira vez no "Evening Post", de Nova York, em 09 de junho de 1879, com o título "Mark Twain As Presidential Candidate", a primeira crônica apresenta o próprio escritor como candidato. Antecipando-se ao trabalho sujo da imprensa, que tem como hábito devassar o passado dos candidatos para encontrar um pormenor sórdido que os possa comprometer, Twain faz de sua vida um livro aberto. Afinal, "se, à partida, se souber o pior acerca de um candidato, todas as tentativas de o surpreender serão derrotadas".

A partir de então, ele elenca inúmeros atos hilários e debochados, que diz ter cometido. Admite ter forçado seu avô reumático a subir numa árvore no inverno de 1850; ter fugido durante a Batalha de Gettysburg, uma das mais decisivas e sangrentas da Guerra de Secessão, e ter enterrado a tia debaixo da sua videira. Diz ele: "A vinha precisava de adubo, a tia precisava de ser enterrada, e eu consagrei-a a este nobre propósito. Tornar-me-á isso indigno da Presidência? A Constituição não o refere". Em seguida, conclui que são esses os piores feitos de seu currículo e, com eles, se apresenta ao país: "recomendo-me como homem idóneo que sou - um homem que tem por base a depravação total e que se propõe ser demoníaco até o fim".

Em "A Minha Candidatura a Governador", escrita logo após as eleições para governador de Nova York em 1870, Twain descreve as calúnias de que teria sido vítima por parte da imprensa enquanto candidato independente. Diz, por exemplo, ter sido acusado de usurpar uma exígua plantação de bananas-da-terra em Wakawak, na Cochinchina. Acontece que não só nunca esteve por lá, como "não saberia distinguir uma plantação de bananas-da-terra de um canguru!" Todas as acusações que, hipoteticamente, lhe teriam sido feitas são amplamente demonstradas - e confirmadas pelo seu silêncio, que atesta a sua culpa. Twain diz ter cada vez mais receio de abrir as páginas de um jornal, pois no fim já é chamado de Infame Perjuro, Ladrão de Montana, Enxovalha-Defuntos, Delirium Tremens, Corrupto Imoral e Peiteiro Repugnante. Não há aposto que chegue a esse candidato independente. Por fim, depois de ser chamado de "Pai" por nove criancinhas, "de todas as cores e cada uma mais esfarrapada do que a outra", desiste da candidatura. Depõe as armas e se rende.

As crônicas seguintes abordam o exercício de cargos políticos parlamentares. Em "O Fim do Meu Cargo como Secretário do Senador", publicado em 1867, ele narra sua própria experiência, fracassada por conta da sua incapacidade de dar respostas vagas aos pedidos dos eleitores. O secretário responde às cartas dos eleitores da forma mais direta possível para que desistam de suas pretensões, prejudicando assim a reputação do senador. Suas respostas são de um humor impassível, revelando o que normalmente os políticos escondem, a verdade por trás de seus atos. Mas tanta sinceridade lhe custaria o emprego. "Não mais voltarei a ser secretário particular de um senador", diz ele. "É impossível agradar a esse tipo de gente. Não sabem absolutamente nada. Não valorizam o esforço de uma pessoa".

Em "Dos Fatos que Concernem à Minha Recente Demissão", Twain ridiculariza a contratação de funcionários públicos para tarefas ridículas e improdutivas, quando realizada através do tráfico de influências. Como na crônica anterior, o narrador se demite por ter sido sincero demais com os parlamentares. Sempre que o chefe do departamento estava prestes a tomar uma decisão errada, ele tentava corrigi-lo. Alerta, por exemplo, ao secretário da Marinha que o almirante Farragut "não tem feito mais que escaramuçar pela Europa fora, à guisa de piquenique", e sugere que passeios de lazer devem ser econômicos: "Por que não descer o Mississipi de jangada?" Assim se desenrola o texto, o narrador tentando fazer coisas em prol do país e, por isso mesmo, se metendo em confusão.

As três últimas crônicas abordam o sectarismo partidário: "Falsa Elegia a um Militante Defunto", "Vira-Casacas" e "Coerência". No primeiro, ele fala de um político escravo de um partido, que queria transformar sua nação de homens livres numa nação de escravos iguais a ele. Twain não poupa aqueles que fazem qualquer coisa pelo partido, em detrimento do bem do país. Esses textos se seguiram à sua decisão de, tendo apoiado o Partido Republicano durante anos, apoiar um candidato democrata. Acusado de vira-casacas, ele de demonstra indignado e afirma que a única deslealdade é se manter preso a um partido, quando o candidato fere seus princípios morais.

Esses textos parecem escritos para o Brasil de hoje, onde muitos eleitores insistem em repetir o que o partido ordena e muitas vezes se mantêm fiéis a partidos que não foram fiéis aos seus valores. Quando decidimos romper com um partido, muitas vezes somos acusados de incoerentes. O texto "Coerência", que encerra o volume, é uma preciosidade não só para o assunto político, mas para a vida em geral. É uma elegia à mudança. "Qual é então a verdadeira gênese da coerência?", pergunta-se ele. "A mudança. Que homem é realmente coerente? O homem que muda". No entanto, as mudanças na política não são aceitas, e qualquer um que mude de partido é logo acusado de traidor. Twain se pergunta: "Que coerência será a mais real e a mais correta? Ser coerente para com um embuste e leal a um conceito vazio, ou coerente para com a lei natural das coisas, que é a da mudança, e que neste caso requer que ele caminhe em frente e acompanhe o seu desenvolvimento intelectual e moral, e as suas convicções sobre o que está certo e o que está errado?"

O orgulho em ser imutável e impassível e a lealdade a opiniões petrificadas são o grilhão que prende o homem fiel a seu partido. Já os textos de Mark Twain são um sopro de liberdade de pensamento, no século XIX ou hoje. Dão-nos tanta alegria e estímulo quanto os debates eleitorais têm nos dado tristeza e descrença. Eles seriam um prato cheio para o humor sagaz de Twain. É tanto absurdo sendo dito que a crônica satírica se torna fácil. O que não falta é material para encher as nossas páginas. Infelizmente, quanto mais material temos para textos como os de Twain, menos temos para transformar o país.

Tatiana Salem Levy, doutora em letras e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente

E-mail: tatianalevy@gmail.com