Um dia a casa cai

Publicado em 11/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

No começo de 1948, a Casa Branca, sede do Executivo e moradia do presidente americano, recebia convidados pela primeira vez desde o fim de 1941. A longa ausência de eventos era compreensível. No interregno, os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra e, pouco antes da vitória, em 1945, o recém-eleito presidente pela quarta vez, Franklin Delano Roosevelt, morrera inesperadamente.

Seu sucessor, o filho de fazendeiro Harry S. Truman, era disciplinado, simples, direto e, ocasionalmente, brusco. Ele e sua esposa, Bess, preferiam a vida familiar às cerimônias oficiais. Mas, tanto tempo depois do fim da guerra, a liturgia das recepções deveria ser retomada e coube a Bess receber a organização Filhas da Revolução Americana no belo salão azul, em que se destacava um impressionante candelabro de mais de meia tonelada.

No meio da recepção, o candelabro começou a tremer, revelando que havia um problema. Mais tarde, Bess comentou seu receio de que ele viesse a cair sobre as convidadas.

A manutenção deficiente da Casa Branca resultara em centenárias vigas de madeira fraturadas pelo tempo e pelas expansões, como o terceiro andar construído em 1927, e explicava a gravidade do problema. A mansão poderia cair. A reconstrução durou três anos. Essa inesperada, e quase trágica, história é deliciosamente contada por Robert Klara em "The Hidden White House" (em português, a Casa Branca oculta).

A infraestrutura, de casas ou de estradas, precisa de manutenção periódica. Intervenções cosméticas podem preservar o exterior enquanto apenas escondem a corrosão do tempo e das intempéries. O resultado pode ser o súbito colapso de obras que pareciam robustas ao olhar descuidado.

Na semana passada, desmoronou um trecho de um viaduto no Eixão, a principal via expressa de Brasília. A causa, segundo técnicos, foi a falta de manutenção. Uma autoridade justificou: não havia dinheiro para realizá-la em todas as vias urbanas e, por isso, tiveram que fazer escolhas.

Esse é mais um exemplo das consequências da crise fiscal nos Estados. A causa principal é o gasto com servidores ativos e aposentados que resulta na falta de recursos para serviços essenciais.

Poucos fizeram ajustes estruturais nos gastos públicos ou defenderam a reforma da Previdência dos servidores, incluindo professores e policiais militares. Em vez disso, optaram por medidas paliativas, como obter empréstimos com aval do Tesouro, vender antecipadamente royalties do petróleo ou utilizar depósitos judiciais, além de cortar gastos com infraestrutura.

Houve oportunismo à larga para compensar a falta de responsabilidade. A degradação de serviços essenciais, como segurança, mostra que um dia a casa cai.