Efeitos tardios

Publicado em 14/02/2018 por O Estado do Maranhão

Efeitos tardios

Acontece sempre assim: quando as Bolsas sobem o dólar desce, e vice-versa; movimentos de compra e venda em massa, conhecidos como "de manada", também refletem agravantes aspectos conjunturais e acabam determinando busca de proteção.
A questão é que, entre todos os riscos, os de mercado não são passíveis de diversificação; investimento em ações, portanto, de retornos a longo prazo, induzem seus proprietários a trocar posições em carteira de renda variável, comprando ou vendendo, a fim de realizar lucros ou evitar prejuízos.
A queda na Bolsa de Valores de Nova York - NYSE, depois de altas consideradas exageradas em face de um cenário de aperto da política monetária, para elevação dos juros pelo Federal Reserve - FED, afetou o mercado de câmbio; como decorrência, o real teve o pior desempenho em relação a outras moedas.
As oscilações atuais principalmente em Wall Street remontam a 2008, quando do início da crise da "bolha": para evitar uma nova depressão, o Banco Central americano - o FED -, seguido por outros bancos centrais dos países desenvolvidos, adotou práticas heterodoxas em política monetária inundando o mercado de ampla liquidez, o chamado "quantitative easing" - QE.
Essa ampla liquidez proporcionou compras maciças de títulos públicos e privados por parte do FED, desafogando governos e empresas, mas endividando-os ainda mais; por outro lado, grande parte desses recursos não foram demandados e acabaram ficando no caixa dos bancos, sem tomadores.
A teoria econômica prega que esse aumento de liquidez sem contrapartida de produto, afetando o montante dos meios de pagamento, da base monetária e do seu multiplicador, deveria causar inflação; isso não aconteceu de saída pelas razões acima, que significou a diminuição na "velocidade de circulação da moeda".
Em linguagem de "economês", a Teoria Quantitativa da Moeda (MV = PT): ou seja, o volume de Moeda vezes sua Velocidade de circulação = quantidade de Produto vezes o volume de transações. No caso em questão, "V" teria diminuído.
Decorrido todo esse tempo e desde 2017, o FED e outros bancos centrais, considerando que as economias atingidas pela crise, inclusive a zona do euro, começam a voltar a crescer, procuram uma "porta de saída" para o QE, com a diminuição paulatina desse afrouxamento à liquidez, porém não está fácil.
Nos Estados Unidos, assim como na Europa, tendo à frente o Banco Central Europeu - BCE, com o FED sob nova direção, a economia recupera-se; há melhorias no mercado de trabalho e, por consequência, no crescimento dos salários que, se continuar, "isso pode ter um efeito na trajetória de elevação dos juros (...) impulsionada pelo aumento dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, que agora giram em torno de 2,8%".
Doravante, há sinais de inflação e, portanto, de subida da taxa de juros, efeitos tardios do que já deveria ter sido ocasionado pelo QE, que vai começar a pagar o seu preço e a repercutir nos países emergentes, como o Brasil, "que vem comprando tempo para as reformas com o cenário externo benigno".

Antônio Augusto Ribeiro Brandão
Economista, membro da Academia Caxiense de Letras, da Associação Internacional de Escritores - IWA e da Comunidade ELOS, fundador da Academia Ludovicense de Letras

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