Em seis meses, Macron faz reformas aceleradas e vê queda na aprovação

Publicado em 14/11/2017 por O Globo

Macron consola parentes de vítimas dos atentados de Paris de 2015, no segundo aniversário do massacre perpetrado pelo Estado Islâmico - POOL / REUTERS

PARIS - O presidente francês, Emmanuel Macron, teve uma curta lua de mel com os franceses. Em seus primeiros seis meses no poder, Macron vê sua popularidade cair à medida que realiza reformas em grande velocidade. Com um estilo considerado autoritário, ele apresentou uma lei sobre a moralização da vida política e impôs a reforma da legislação trabalhista, gerando diversos protestos nas ruas. O seu partido, República em Marcha, triunfou sobre os partidos tradicionais de esquerda e direita na frança, levando o presidente mais jovem da França, de 39 anos, a uma impressionante ascensão e vitória nas eleições legislativas de junho. As primeiras decisões do centrista em seu governo, fazem observadores considerarem que ele já pensa em uma possível reeleição em 2022.

- Ele mira um horizonte a muito longo prazo e não cede - resume uma fonte próxima.

A queda abrupta de popularidade de Macron - que em três meses chegou a 36%, segundo o You Gov - é inédita desde a instauração da Quinta República, em 1958, a exceção do presidente conservador Jacques Chirac, eleito em 1995. Até seu antecessor, o socialista François Holland, teve um queda menos brusca e com três meses de seu mandato tinha 56% de popularidade, segundo o Ifop, embora seja o presidente mais impopular dos últimos tempos.

De acordo com o cientista político do Ifop Jérôme Fourquet, uma parte dos franceses começa a ver Macron como um grande sedutor e um extraordinário comunicador para ocultar a política de austeridade. O presidente, um centrista pró-europeu de 39 anos, foi eleito no dia 7 de maio com 66% dos votos, após derrotar a líder da extrema-direita, Marine Le Pen.

Fourquet explicou que são diversas as razões da queda:

- É resultado de descontentamento e reclamações que emanam de categorias muito diferentes - explica.

A posse de Macron

  • Macron, durante sua posse: presidente de 39 anos terá desafios como combate ao terrorismo e ao desempregoFoto: Michel Euler / AP

  • Após reunir-se com Macron, François Hollande (à direita) deixa a presidência como um dos chefes de Estado mais impopulares do paísFoto: ERIC FEFERBERG / AFP

  • Em discurso de cerca de dez minutos, Emmanuel Macron disse que mundo precisa de França forteFoto: François Mori / REUTERS

  • Emmanuel e Brigitte Macron, no Palácio do Eliseu: ela chegou à cerimônia de posse dez minutos antes deleFoto: PHILIPPE WOJAZER / REUTERS

  • Em carro militar, Macron percorre a Avenida Champs-Elysees em direção ao Arco de TriunfoFoto: POOL / REUTERS

  • Bandeira da União Europeia se destaca entre outras francesas: Macron quer fortalecer blocoFoto: CHARLES PLATIAU / REUTERS

  • O presidente é saudado pela multidão próximo ao Arco do TriunfoFoto: Alain Jocard / AP

  • Macron deixa uma coroa de flores no Túmulo do Soldado Desconhecido, no Arco do TriunfoFoto: Alain Jocard / AP

Embora venha cumprindo várias das suas promessas de campanha, como o voto de uma lei de moralização da vida política após os escândalos que atingiram a campanha eleitoral, outras medidas, como as que querem limitar o déficit, indignaram os franceses. Macron ainda vem impulsionando reformas de auxílio desemprego, política habitacional, acesso à universidade, além de uma controversa lei antiterror, apesar da queda de 20 pontos em sua aprovação (atualmente em 42%). O presidente ainda prometeu reduzir o número de deputados e senadores e mirar na Justiça e nos regimes de aposentadoria, decidido a manter o ritmo acelerado nos próximos anos.

O descontentamento com Macron afeta diversos grupos. Os funcionários públicos, por exemplo, não estão satisfeitos com a sua remuneração, enquanto os aposentados estão incomodados com um imposto que reduzirá a sua renda. As famílias mais modestas, que viram a redução a suas ajudas, também não concordam. Além disso, a renúncia do chefe do Estado-Maior do Exército depois do anúncio dos cortes orçamentários em Defesa tensionaram as relações com os militares.

Porém, a oposição não está se beneficiando com a queda da aprovação de Macron. Pelo contrário, os partidos adversários parecem cada vez mais enfraquecidos diante de sua imagem. Nem mesmo o movimento de esquerda radical França Insubmissa, os outros partidos tradicionais de esquerda e direita e os sindicatos franceses conseguiram para a reforma trabalhista. O Partido Socialista do ex-presidente François Hollande ainda não se recuperou da derrota avassaladora, enquanto o partido Os Republicanos se dividiu entre os que se uniram ao presidente, como o primeiro-ministro Edouard Philippe, e os que ainda são oposição. Já a Frente Nacional de Marine Le Pen, principal rival de Macron nas presidenciais, ainda tenta se reerguer após não vencer o segundo turno.

A vitória de Emmanuel Macron na França

  • Um dia após vitória nas eleições, presidente eleito francês, Emmanuel Macron, acompanha François Hollande em cerimônia que relembra a Segunda Guerra Mundial no Arco do TriunfoFoto: BENOIT TESSIER / REUTERS

  • Hollande comemorou a vitória do seu ex-ministro da Economia e prometeu se manter sempre próximo ao futuro presidente de 39 anosFoto: PHILIPPE WOJAZER / REUTERS

  • Emmanuel Macron, centrista, tem pouca experiência na vida pública, mas tem habilidades para criar equipes e fazer chegar a consensos Foto: BENOIT TESSIER / REUTERS

  • Macron faz discurso de vitória na frente da Pirâmide do Museu do Louvre, em Paris, a milhares de apoiadoresFoto: ERIC FEFERBERG / AFP

  • Futuros presidente e primeira-dama da França, Emmanuel e Brigitte Macron acenam a multidão; candidato centrista derrotou a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, com 66% dos votosFoto: PATRICK KOVARIK / AFP

  • Apoiadores de Macron celebram perto do Louvre quando resultados preliminares já indicavam vitória do ex-ministro da EconomiaFoto: CHRISTIAN HARTMANN / REUTERS

  • Após segundo turno, Paris teve noite de protestos violentos no distrito Menilmontant; quase 150 pessoas foram presasFoto: LARA PRIOLET / AFP

  • Manifestantes caminham por nuvens de gás lacrimogêneo lançada durante protestos após eleições em ParisFoto: JEAN-SEBASTIEN EVRARD / AFP

  • Manifestantes celebram vitória de Macron e protestam contra discurso agressivo de Marine Le Pen; cartazes dizem "França diz ao ódio: nunca mais!"Foto: PASCAL ROSSIGNOL / REUTERS

Após reduzir a contribuição a ser paga pelos mais ricos na reforma do imposto sobre fortunas, agora o presidente tem que combater o rótulo de "presidente dos ricos". O Palácio do Eliseu espera mudar esta imagem abolindo o imposto sobre a propriedade. Macron quer devolver à França o seu papel de destaque no cenário mundial após dois presidentes impopulares, François Holland e Nicolas Sarkozy. Enquanto tenta empurrar reformas ambiciosas na França, Macron também mira na União Europeia, tentando ganhar credibilidade com os líderes europeus para pressionar por mudanças também no bloco.

- Ele tem tempo - assinala o analista político Bruno Cautrès, lembrando que as próximas eleições são em 2019.

Porém, o casal atípico que forma com a sua esposa Brigitte, de 64 anos, ainda parece agradar muito os franceses, grande parte deles fascinados com a primeira-dama. Talvez, por isso, as camisetas "Brigitte", que uma marca de moda comercializa em sua homenagem, tenham sido mais vendidas do que a que trazem a estampa "Beyoncé".