Empresas elétricas já se movimentam para leilão de distribuidoras

Publicado em 12/07/2018 por Valor Online

Empresas elétricas já se movimentam para leilão de distribuidoras

Por Camila Maia e Rodrigo Polito | De São Paulo e Rio

Ruy Baron/Valor

Evaldo Santana, da Abrace: mudanças no projeto de lei vão trazer uma conta muito grande para os consumidores

As principais companhias do setor de distribuição de energia do país estão se movimento para o leilão das seis distribuidoras da Eletrobras à venda, apurou o Valor. As duas empresas do Nordeste (Ceal, do Alagoas e Cepisa, do Piauí) são as mais atrativas, mas a expectativa é que, havendo segurança jurídica e legal, todas as seis concessionárias podem ser privatizadas.

A participação dos investidores no leilão depende ainda da aprovação pelo Senado e do sancionamento presidencial do projeto de lei (PL) 10.332, que viabiliza a venda das empresas do Norte, e também da derrubada de uma liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Levandowski que veta a venda da Ceal.

A Equatorial Energia estava avaliando todas as distribuidoras, mas deve concentrar seus esforços nas quatro localizadas no Norte: Eletroacre, Amazonas Energia, Ceron (Rondônia) e Boa Vista (Roraima).

A companhia é a preferida para ficar com a Amazonas Energia, a mais problemática das distribuidoras da Eletrobras, por sua experiência na recuperação da Celpa (Pará) e da Cemar (Maranhão).

Além da Equatorial, a Amazonas Energia também atraiu a atenção de uma companhia local do amazonas, a Oliveira Energia, que atua com locação e manutenção de geradores na região e arrematou três contratos como produtora independente de energia no último leilão de sistemas isolados do Amazonas. Segundo uma fonte, a empresa acessou o "data room" da distribuidora amazonense.

A gestora Vinci Partners é outra que está interessada nas companhias no Norte, e sua participação no leilão depende de conseguir levantar os recursos para isso. Segundo fontes, as prioridades da Vinci são Ceron e Eletroacre.

A Vinci Partners também teria interesse nas distribuidoras do Nordeste, mas a expectativa de que as duas atrairão grande competição deve afastar a gestora dos ativos, pela possibilidade de um desembolso muito elevado.

Para Ceal e Cepisa, as principais candidatas são Energisa e Neoenergia, apurou o Valor. As duas companhias têm concessões de distribuição na região e teriam ganhos expressivos com sinergias.

A derrota para a Enel na disputa pela Eletropaulo é outro fator que aumentou o interesse pelas distribuidoras, principalmente no caso da Neoenergia, que é controlada pela espanhola Iberdrola.

O Valor apurou que, após perder a disputa pela distribuidora de energia paulista, a Neoenergia tem trabalhado intensamente para arrematar a Ceal e a Cepisa, situadas em área de atividades da companhia, que já possui três distribuidoras no Nordeste - Coelba (BA), Celpe (PE) e Cosern (RN) -, além de empreendimentos de geração e transmissão de energia.

Devem ficar de fora, segundo fontes, CPFL Energia e Enel. A primeira, embora vá avaliar os ativos pelo seu dever com os acionistas, não deve fazer investimentos relevantes enquanto a oferta pública de aquisição de ações (OPA) da CPFL Renováveis não for resolvida.

Já a Enel está com "muita coisa no prato", segundo fontes, depois das aquisições da Eletropaulo e da Celg, duas concessões que exigem investimentos significativos.

Procurada, a Enel informou que "está atenta a oportunidades no setor elétrico brasileiro como um todo, mas não comenta sobre ativos específicos". Já a Neoenergia informou que aguarda a aprovação pelo Senado e a sanção presidencial do PL 10.332 para avaliar as condições e definir se participará ou não do leilão. Energisa e Vinci Partners não se manifestaram sobre o assunto. O Valor não conseguiu contato com a Equatorial.

No governo, o entendimento interno é de que a aprovação do PL é fundamental para a venda da Amazonas Energia e a Boa Vista Energia. Para essas duas empresas, o leilão pode ser adiado, caso o PL não seja aprovado até 26 de julho.

Sobre Ceal e Cepisa, a avaliação do Planalto é a de que as duas distribuidoras podem ser vendidas facilmente. O problema hoje é a liminar do STF que suspende especificamente a privatização da distribuidora alagoana. "É certo que algumas empresas irão à venda dia 26 de julho", disse uma fonte.

O governo tem adotado extrema cautela para evitar a ocorrência de um leilão vazio. Isso porque um resultado negativo no leilão poderia fortalecer o argumento da oposição de que o negócio é inviável de modo que deveria ser prestado por empresa estatal, com recursos subsidiados pelo consumidor.

A aprovação do PL na Câmara e aumentou as expectativas do mercado em relação ao sucesso das vendas. A ação ordinária (ON) da estatal subiu 2,19% ontem, a R$ 14,44, depois de ter subido mais de 7% durante o dia. As preferenciais classe B (PNB) subiram 2,17%, a R$ 16,92. Ao longo pregão, a PNB chegou a subir 4%.

Ao mesmo tempo em que o PL é fundamental para a Eletrobras e foi comemorado pelo mercado, as mudanças previstas devem trazer pressões tarifárias, alerta Evaldo Santana, presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace). Segundo ele, as medidas vão trazer uma conta muito grande para os consumidores.