Expectativas seguem otimistas para a renda variável

Publicado em 07/12/2017 por Valor Online

Apesar das incertezas de curto prazo em relação à aprovação da reforma da Previdência, um otimismo contido ainda impera hoje sobre os ativos brasileiros, o que obriga nós, gestores, a fazer uma reflexão diária para avaliar se os mercados estão precificando um cenário positivo e confiante demais ou se ainda temos um potencial de valorização adicional. Nós, particularmente, temos trabalhado com um cenário construtivo em relação aos ativos brasileiros, desde que a atual equipe econômica assumiu e passou a adotar, em conjunto com a administração federal e parte do Legislativo, uma série de medidas visando recuperar a confiança dos agentes econômicos e retomar um caminho de reformas macro e microeconômicas que podem nos dar sustentabilidade fiscal e nos recolocar numa trilha de recuperação de crescimento. E agora? O que esperar dos investimentos em renda variável no Brasil nos próximos meses, ainda mais com algumas incertezas importantes no horizonte, como as eleições do próximo ano? Acredito que teremos tanto do ponto de vista "top-down", a partir de uma análise macroeconômica mais geral, quanto do ponto de vista "bottom-up", analisando especificamente as perspectivas para as empresas brasileiras, razões para surpresas positivas ainda não corretamente precificadas em algumas das companhias que acompanhamos e fazem parte dos nossos portfólios. Depois de dois anos de forte recessão, a economia brasileira já começou a se recuperar. Os dados econômicos divulgados nos últimos meses consolidaram uma visão consensual no mercado de que o vale da atividade econômica ocorreu no primeiro semestre deste ano e vários indicadores apontam para uma recuperação mais robusta da economia, a partir do ano que vem, com possibilidade de termos um crescimento ao redor de 3%. Muitos dirão que esse percentual é ainda modesto, porém, cabe ressaltar que a incerteza em relação às eleições presidenciais de 2018 ainda traz um fraco dinamismo para um dos componentes mais importantes para a retomada mais sustentável do crescimento: o investimento. Ainda é cedo para visualizarmos com precisão a campanha eleitoral do próximo ano, mas, na medida em que as condições econômicas atuais se mantenham, com inflação sob controle, alguma recuperação no mercado de trabalho e aceleração do crescimento, a agenda econômica atual prevalecerá nos discursos. Esse sentimento de bem-estar econômico ajudará a empurrar candidaturas alinhadas ao atual modelo econômico, o que, sem dúvida, trará benefícios de médio prazo para a retomada dos investimentos. Pelo lado das empresas, deverá haver duas frentes de alavancagem muito poderosas que deverão surpreender os analistas e investidores em relação a suas expectativas de lucros dos próximos anos, principalmente para algumas companhias mais ligadas à demanda doméstica. O ajuste operacional que as companhias brasileiras implantaram e se fez necessário durante os difíceis anos da nossa recessão, na verdade, trará benefícios exponenciais nos lucros dessas empresas nos próximos anos. A margem líquida das companhias listadas em bolsa no Brasil vem diminuindo desde 2011, de um patamar próximo a 14% para algo ao redor de 5% em 2015. Essa deterioração de margens veio acompanhada também de um menor crescimento de receita e, em função disso, o lucro das companhias brasileiras ficou extremamente comprimido nos últimos anos. Com forte ajuste de produção e maior eficiência de custos, desde o ano passado já observamos um início de retomada das margens operacionais e líquidas de algumas das empresas brasileiras. A partir deste ano, com uma melhora também na linha de receitas, a resultante é que essa alavancagem operacional eleva de forma muito forte o lucro de tais empresas. Na prática, a maioria dos analistas continua perpetuando uma realidade que existiu nos últimos anos, sem levar em consideração essa nova estrutura operacional bem mais eficiente das empresas. É o velho hábito de propagar o passado recente para as projeções de longo prazo. A outra poderosa propulsão de resultados virá da menor alavancagem financeira das companhias brasileiras. Após atingir um pico próximo a 2,9 vezes a divisão da dívida líquida pelo Ebitda (lucro antes de juros, depreciação e amortização) em 2015, o conjunto das empresas brasileiras deverá migrar para uma relação mais próxima de 1,8 vez no ano que vem. Isso, claro, devido à forte queda da taxa Selic, para o patamar mínimo histórico, bem como ao início de recuperação da capacidade de geração de caixa dessas companhias. A esses fatores conjunturais pode-se adicionar outros prováveis impulsos a uma nova rodada de otimismo para a renda variável brasileira, tais como a baixíssima taxa de exposição a esse tipo de investimento de investidores institucionais brasileiros, pessoas físicas e investidores estrangeiros. Esse cenário não beneficiará de forma igualitária todo o universo de ações da Bovespa. Algumas empresas estão mais bem preparadas para enfrentar os desafios desse novo ciclo. Além disso, temas estratégicos como inovação, digitalização, inteligência artificial, automação, energia solar e mobilidade, entre outros, serão fundamentais para nós, gestores, ao avaliarmos as empresas e os negócios em que investimos. Alexandre Silverio é CIO da AZ Quest E-mail: faleconosco@azquest.com.br Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.