Inteligência artificial e mercado de trabalho

Publicado em 12/01/2018 por Valor Online

As tecnologias de inteligência artificial (IA) impactam positivamente a economia ao incrementar a produtividade e ao reduzir os custos. Por outro lado, como indicam diversos estudos, pressiona o mercado de trabalho em variáveis como emprego e habilidades. Numa velocidade inédita, em consequência dos recentes avanços, as máquinas e algoritmos inteligentes assumem desde tarefas repetitivas e rotineiras até as cognitivas, conferindo ao tema visibilidade e urgência. Segundo pesquisa do mês passado da consultoria McKinsey em 46 países, 60% das ocupações têm pelo menos 30% de tarefas com potencial de automação e, na média, 15% das funções atuais serão substituídas ou eliminadas, com maior incidência em economias mais avançadas. Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne, pesquisadores da Universidade Oxford, alertam que 54% dos empregos nos EUA e 77% na China estão na categoria "alto risco" (empregos que podem ser automatizados na próxima década ou duas). A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), por sua vez, estima em 9% os empregos na mesma categoria. As divergências refletem as respectivas percepções sobre os impactos dos arcabouços sociais, legais e regulatórios. Na direção contrária, a consultoria Gartner prevê que até 2020 o número de novos empregos superará o número de empregos eliminados numa proporção de 2,3 para 1,8. O argumento é que alguns setores - saúde, educação, governo - terão aumento de demanda, e que as perdas nas posições de nível médio e baixo serão compensadas pelas novas funções de alta qualificação, o que causa estranheza: tradicionalmente, as tarefas menos sofisticadas são mais intensivas em mão de obra. Em 2014, a PewResearch entrevistou 1.896 especialistas: 52% apostam em impacto positivo ou neutro com base na tradição histórica (tecnologia tem sido um criador e não destruidor de emprego). Para a Deloitte "as máquinas assumirão tarefas mais repetitivas e laboriosas, mas não parecem mais perto de eliminar a necessidade de trabalho humano do que em qualquer momento nos últimos 150 anos". O futuro da IA não é dado, as máquinas de fato autônomas ainda não existem; é imprevisível o resultado da colaboração com a IA Os estudos têm um alto grau de incerteza, dado que as máquinas inteligentes estão em seus primórdios, em geral são indicadores de tendências e não previsões. No entanto, soa equivocado o argumento de que, desde a Revolução Industrial, no século XVIII, as tecnologias geraram mais empregos do que eliminaram, e por isso não há motivo para alarme. A inteligência artificial tem características distintas das tecnologias anteriores, não se trata de um processo gradativo, localizado geograficamente ou em uma determinada indústria. Os impactos estão acontecendo em todos os setores e rapidamente, e em larga escala, dificultando a adaptação dos indivíduos, instituições e governos. Os algoritmos de IA já realizam tarefas melhor do que os humanos pela maior capacidade e velocidade de processar enormes bases de dados. Além disso, o custo de reproduzir as máquinas inteligentes é significativamente menor do que treinar profissionais humanos para exercer as mesmas tarefas. A inteligência artificial não substitui apenas, ou não primordialmente, as funções mecânicas, substitui igualmente as funções cognitivas. Em 2014, a empresa de capital de risco japonesa Deep Knowledge nomeou o robô Vital para seu conselho de administração. Pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Mundial com 800 executivos revela que 45% afirmaram esperar que uma máquina de IA tenha assento no conselho de administração de suas empresas até 2025. A maior diferença, no entanto, está na própria natureza da IA: as tecnologias pré-IA produzem "máquinas especializadas" para uma determinada função (liquidificador, telefone, televisão etc.), com a IA estão em desenvolvimento máquinas "generalistas", com capacidade de substituir o humano em suas múltiplas tarefas. O potencial desemprego não é o único impacto no mercado de trabalho, é talvez o mais sensível socialmente. Há consenso de que o recente, e acelerado, avanço da IA transforma o local de trabalho, com potencial de alterar o conceito de trabalho. Há um déficit de profissionais habilitados a desempenhar as novas funções. As universidades e centros de formação, via de regra, capacitam profissionais para um mercado do século XX. Transformar o sistema de ensino é um processo lento, além de que não está claro o conteúdo das novas competências. Estudo da Deloitte indica que 65% das crianças que entraram na escola primária em 2016 quando se tornarem economicamente ativas (em 15 anos), desempenharão funções que não existem hoje. Em paralelo, em igual relevância, os profissionais de funções preservadas necessitam ser "treinados" para interagir com a IA, ou seja, adequar-se ao trabalho compartilhado homem-máquinas inteligentes. A estrutura salarial também é afetada em função da maior mobilidade; setores que até há bem pouco tempo não concorriam disputam os mesmos profissionais. Um especialista em IA pode ir do Google à uma montadora, passando pelo Uber, Netflix, Amazon ou por uma empresa tradicional. A dimensão e intensidade dos impactos dependem da região, do país, do grau de desenvolvimento da economia, do setor de atividade. Fatores como nível de renda, salários, demografia, grau de proteção ao trabalhador, assim por diante, implicam níveis e ritmos distintos de adoção da IA. No âmbito de cada empresa, deve-se considerar os custos de desenvolvimento e implantação, de alteração nos processos internos, de recrutamento e treinamento de funcionários. É essencial o papel de governos e agências internacionais. Esses elementos alteram o ritmo e vigor da substituição do trabalho humano por sistemas inteligentes. Especulando mais a longo prazo, a perspectiva entre vários pensadores é a formação de duas "espécies" humanas: a elite, com pleno acesso as vantagens da IA, e os com menos acesso, que não terão função produtiva na sociedade. Para esse contingente "não empregável" está proposta como alternativa uma renda mínima que garanta a sobrevivência (UBI = Universal Basic Income). A realidade neste início de ano é que o futuro da inteligência artificial não é dado, as máquinas de fato autônomas ainda não existem, bem como é imprevisível o resultado da colaboração homem-inteligência artificial. Não podemos, contudo, minimizar seus efeitos especialmente frente ao ritmo e intensidade dos avanços.