Itaúsa deve receber R$ 6,6 bi para compras

Publicado em 14/02/2018 por Valor Online

A holding Itaúsa, que iniciou uma temporada de compras no ano passado, deve ficar com R$ 6,6 bilhões do dividendo recorde de R$ 17,5 bilhões que o banco Itaú anunciou que distribuirá aos acionistas referente ao lucro de 2017 - o maior valor absoluto já pago por uma companhia aberta brasileira aos acionistas, segundo levantamento da Economatica. A família Moreira Salles, que divide o controle da instituição financeira, terá direito a R$ 1,5 bilhão do total distribuído. O resultado do Itaú vai muito bem, obrigado. O lucro líquido de R$ 23,96 bilhões registrado pela instituição financeira no ano passado garantiu aos acionistas um retorno de quase 22% sobre o patrimônio líquido, mesmo em um ambiente de inadimplência empresarial elevada. Trata-se de uma rentabilidade atraente. O problema é que, segundo estimativa do próprio Itaú, a carteira de crédito deve ter um crescimento de apenas 4% a 7% este ano, o que significa não ultrapassar a variação da taxa Selic no exercício. No ano passado, o saldo de empréstimos já havia encolhido 3%. Esse cenário de lucro elevado e mercado de crédito que não cresce acaba gerando folga de patrimônio para o banco, que fechou o ano com capital principal equivalente a 15,5% dos ativos ponderados pelo risco, já sob os critérios de Basileia 3. Sem ver vantagem em reinvestir no banco os lucros gerados - o que levaria a uma redução do retorno sobre o capital ao longo do tempo -, o comando da instituição financeira, e seus controladores, optaram por distribuir uma parcela maior do lucro - de 70% ante uma faixa de 30% a 45% nos anos anteriores - e deixar os acionistas, Itaúsa inclusive, decidirem onde alocar melhor seu próprio dinheiro. Depois de anos com uma carteira de investimento que reunia basicamente Itaú, Duratex, Elekeiroz e Itautec (esta última praticamente sem operar), a Itaúsa anunciou duas aquisições relevantes no ano passado. Fez um investimento de R$ 1,37 bilhão em participação acionária de 7,65% e debêntures conversíveis da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), dona de malha de gasodutos vendida pela Petrobras para Brookfield. E comprou, junto com a holding que cuida dos investimentos da Moreira Salles, o controle da Alpargatas da J&F, com um desembolso de R$ 1,74 bilhão para cada. O retorno sobre o patrimônio estimado para a NTS em 2017 era de 37% e o da Alpargatas, de 21%, segundo apresentação da Itaúsa a investidores no fim de setembro do ano passado. Na mesma ocasião, a holding que reúne os membros das famílias Setubal e Villela já havia anunciado a disposição de diversificar o portfólio. E detalhou, inclusive, o que lhe interessa. São empresas brasileiras já estabelecidas (não há interesse por startups), com baixo risco regulatório, boa geração de caixa, resultados e retornos consistentes e, se possível, com marca forte. "Também há preferência por setores que tenham baixa correlação com o setor financeiro e transações com tíquete médio acima de R$ 1 bilhão/R$ 1,5 bilhão", disse a empresa em sua apresentação a investidores. Praticamente um anúncio de "procura-se". Pelos dados gerenciais de junho, a Itaúsa divulgava ter investimentos totais de R$ 51,6 bilhões, sendo 90% no setor financeiro - índice difícil de diminuir, apesar do desejo de diversificação, já que o banco ainda cresce. Quando a Petrobras cogitou a hipótese de vender uma participação relevante ou de controle na BR Distribuidora, por exemplo - antes de optar pela listagem da subsidiária na bolsa -, a Itaúsa chegou a dizer em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que considerava fazer uma proposta. A holding também é apontada como potencial candidata a disputar a NTN, uma segunda malha de transporte de gás que será vendida pela Petrobras, desta vez no Nordeste. Recentemente, houve uma troca na base de acionistas minoritários da Itaúsa. Saiu a Petros, que tinha 15% do capital votante, e entrou no lugar a Fundação Antonio e Helena Zerrener (FAHZ) - antiga controladora da Antarctica e sócia relevante da Ambev. A mudança também alcançou o conselho de administração, com a renúncia do representante indicado pelo fundo de previdência dos empregados da Petrobras e a nomeação de Victório De Marchi pela FAHZ, com larga experiência no ramo de bebidas.