"Militares não podem ficar escondidos, precisam se apresentar"

Publicado em 10/08/2018 por Valor Online

Naian Meneghetti/Brazil Photo Press

Mourão: vice de Bolsonaro faz elogios ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), comandante do DOI CODI, com quem trabalhou por dois anos

Vice de Jair Bolsonaro (PSL), o general da reserva Antonio Hamilton Mourão (PRTB), afirma ao Valor que os militares devem participar mais da vida política. "Nós não podemos ficar escondidos na nossa redoma. Temos também que nos apresentar".

Mourão, um gaúcho prestes a completar 65 anos, diz que as Forças Armadas devem intervir quando há "distúrbios de rua e desobediência civil" e afirma que a greve dos caminhoneiros em maio quase chegou "ao limite". Para o vice de Bolsonaro, a tentativa de o PT impor a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril, justificaria uma ação militar, se houvesse uma "revolta popular"

Mourão diz que a imagem hoje da chapa puro sangue militar é de que, se eleita, representá um "apocalipse" e um "arrasa-quarteirão". No entanto, defende que o candidato não mude seu discurso. A seguir trechos da entrevista ao Valor:

Valor: O senhor, quando estava na ativa, defendeu a intervenção militar para resolver a crise política. Em que casos pode ter intervenção?

Hamilton Mourão: A missão das Forças Armadas é a defesa da pátria, a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem. É manter um ambiente de estabilidade para que os três Poderes possam cumprir a sua tarefa. Se essa capacidade de um dos Poderes estiver ameaçada, as Forças Armadas devem garantir que possam trabalhar. Se isso for afetado por distúrbios de rua, por desobediência civil, as Forças Armadas [devem] manter a ordem. Se a lei e a Justiça não conseguem cumprir o seu papel, perderemos o controle da situação.

Valor: O senhor poderia ser mais específico?

Mourão: Distúrbio de rua é quando as pessoas atacam a polícia, atacam quartéis, atiram coquetéis molotov,... Não é meia dúzia de gato pingado queimando pneu. É algo que paralise o país.

Valor: A greve dos caminhoneiros justificaria a intervenção?

Mourão: A manifestações dos caminhoneiros chegou quase no limite. As Forças Armadas tiveram que ser empregadas para desobstruir as rodovias e foi um trabalho feito de forma contencioso. Não tivemos quase nenhum incidente [O caminhoneiro José Batistela morreu durante a greve, depois de levar uma pedrada]. O governo demorou a reconhecer o problema.

Valor: Em que caso justificaria?

Mourão: Os casos mais prementes são de leis, da Ficha Limpa, o PT tentando impor de todas as formas a candidatura [de Lula] que pode ensejar em razão das leis existentes... Se por acaso uma coisa dessas levar a uma revolta popular, é necessário que haja controle disso aí, senão vamos para a barbárie.

Valor: O senhor está dizendo que se a candidatura Lula vingar vai levar o país a uma situação de caos?

Mourão: Nem raciocino com a candidatura Lula. Essa é uma questão interna do PT. Lula candidato é uma coisa que está correndo nas redes sociais. Se Lula pode ser candidato, então Fernandinho Beira-Mar pode, Marcola pode... Ressalvadas as devidas diferenças.

Valor: Se o PT ganhar a eleição, como vê a situação do país?

Mourão: Se ganhar, vai ser Haddad e Manuela. Vai ter que governar o país. É responsabilidade dele. Não vejo uma comoção nacional. Acho muito ruim eleger essa dupla.

Valor: Bolsonaro disse que quer um vice que meta o pé na porta e que, ao mesmo tempo, garanta a governabilidade. Como conciliar isso?

Mourão: A minha visão do vice é aquele que fica na sombra, um auxiliar do presidente. Na linguagem militar, ele é o comandante e eu, o subcomandante.

Valor: Bolsonaro disse que pretende colocar militares em metade dos ministérios. Concorda?

Mourão: Precisamos de gerentes eficazes, não só de gente que vá para os ministérios para extrair o máximo que puder. Gerentes temos tanto no meio civil quanto no militar. Hoje temos dois ministros do meio militar, um que está na Defesa [Joaquim Luna e Silva] e do [Sérgio] Etchegoyen [ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional]. Se ele quiser botar um oficial no Ministério dos Transportes vai pegar um oficial com capacidade, conhecimento da área. A gente não pode estigmatizar. Nós, integrantes das Forças Armadas, não podemos ficar escondidos na nossa redoma. Tem também que se apresentar.

Valor: Por que têm de participar?

Mourão: Nós, militares, temos nosso conhecimento específico e pode auxiliar na governabilidade dele. Precisa de alguém sério, correto, honesto, que entenda as necessidades do país e faça a distribuição dos recursos sem olhar os benefícios políticos.

Valor: O senhor acha que militares são menos corrompíveis?

Mourão: O problema são os civis escolhidos. No nosso presidencialismo de coalizão, o presidente entrega o ministério para o partido, que coloca lá dentro alguém com a tarefa de tirar dinheiro para o partido. Pessoas honestas existem tanto no meio militar quanto no civil.

Valor: E como pensa a governabilidade sem distribuir cargos?

Mourão: Bolsonaro tem dito que tem mais de 100 deputados com ele. Não é o número ideal. Você pode pensar que minha visão é ingênua, idílica, mas gira em torno de ideias e programas.

Valor: No Exército o senhor foi acusado de beneficiar uma empresa espanhola em um suposto esquema de corrupção. A denúncia é investigada pelo TCU. Como justifica?

Mourão: Esse caso foi levado por denúncia anônima, pelo coronel [Rubens] Pierrotti, que é um camarada meio desequilibrado. Foi investigado exaustivamente pelo Ministério Público Militar, que considerou a denúncia improcedente e arquivou. O TCU continua analisando. Tenho a consciência tranquila. Se não fosse o trabalho que realizamos teríamos causado um prejuízo à Nação de 6,5 milhões de euros.

Valor: A denúncia aponta que houve direcionamento na licitação e que o sr atuou para destravar o projeto.

Mourão: A licitação não estava ao meu cargo. Entrei na metade do projeto para tentar conclui-lo.

Valor: A dificuldade política de Bolsonaro ficou explícita na escolha do vice, com três recusas. O senhor já disse que ele tem dificuldade de ouvir as pessoas. Como governar?

Mourão: Todos os candidatos que estão ai tiveram dificuldade para escolher o vice. Sempre fui opção para Bolsonaro, mas fiquei na reserva. Até me filiei a um partido para ficar na reserva, senão não teria me filiado.

Valor: O senhor já disse que há um radicalismo, até boçal dos apoiadores dele, e afirmou que a campanha era amadora

Mourão: Nós, uma vez eleitos, temos que governar para todo o país, não só para aqueles que são fanaticamentes favoráveis à nossa maneira de pensar. O PT sempre procurou dividir o país. Não podemos embarcar nessa canoa. Quando falo que é amadora, não falo no sentido desprestigiar a campanha. É amadora porque não tem todos recursos que grandes partidos têm. Nossa campanha não tem dinheiro. Está sendo feita na vontade dos apoiadores.Amador porque é coisa nova, de um cara que nunca fez campanha para presidente.

Valor: O sr e Bolsonaro têm perfis semelhantes. Não atrapalhará na busca de um outro eleitorado?

Mourão: Sempre julguei que o melhor para ele seria ter outro político de peso ao lado dele, para ter essa diversidade. Pela conjuntura que vivemos, não foi possível. Então tenho que buscar chegar em outros segmentos da sociedade que estão indecisos e romper determinadas barreiras. Tem aquele estigma de que o general é um cara fechado, autoritário... Tem que desmistificar. As pessoas temem que a gente ganhe. Devem achar que é apocalipse. Se eles vencerem haverá um arrasa-quarteirão no país, vamos prender todo mundo. Bolsonaro jamais falou isso.

Valor: Quando o candidato defende dar mais respaldo aos policiais atirarem não abre brecha para outra interpretação?

Mourão: A atuação da polícia está dentro da lei. A lei não muda, mas tem que ser aplicada. Temos que ter política de tolerância zero nessa questão da segurança. As penas no Brasil são muito brandas. O presídio não pode ser nova escola de bandido.

Valor: O que o senhor levaria para o governo como referência da ditadura, na segurança?

Mourão: Na época do regime militar essa questão da segurança era muito light. Polícia era polícia, bandido era bandido. A coisa era muito bem definida. Hoje tem mistura das coisas. Às vezes a polícia se envolve em crime, a questão das milícias. Mas o momento é totalmente distinto do que foi em épocas passadas.

Valor: Quem contestava a ditadura era preso

Mourão: A contestação do regime era uma coisa. Outra era pegar em armas e atentar contra o Estado. Aqueles que pegaram em armas ou apoiaram as organizações que pegaram em armas esses sofreram nas formas da lei. Independente se houve tortura ou não. Sou contra a tortura. Não acho que é um método interrogatório válido. Mas quem pegou em armas foi tratado como inimigo do Estado. Todos foram anistiados a posteriori e estão todos felizes da vida, desfrutando de suas indenizações.

Valor: O senhor diz que é contra tortura, mas elogia Brilhante Ustra (1932-2015), reconhecido pela Justiça como torturador

Mourão: Quem acusou Ustra como torturador não apresentou nenhuma prova. Ele comandou o DOI de São Paulo, principal elemento do desbaratamento das organizações subversivas. Ustra foi meu comandante quando eu era tenente, por dois anos. Me ensinou muito no começo da minha vida militar. É um homem justo, um líder, estava presente em todas as atividades no nosso quartel. É um dos homens que tenho como exemplo para a vida. Ele passou quase 30 anos sendo atacado. Costumo dizer que Ustra é a "Geni". Quando está tudo calmo aí, arruma alguma coisa do Ustra e ataca pedra nele.

Valor: O senhor disse que o país herdou a indolência dos índios e a malandragem dos africanos

Mourão: [interrompe] Mas ninguém diz que falei dos privilégios dos brancos. Errei. A formação da nossa nacionalidade é um amálgama dessas três raças, cada uma com suas coisas boas e suas coisas não tão boas. Quem estudou a formação da nacionalidade brasileira sabe disso. O problema é que a partir do momento em que me coloquei na política, essas coisas não podem ser ditas abertamente. Construímos um país miscigenado.

Valor: Bolsonaro deve moderar o discurso?

Mourão: Bolsonaro não pode deixar de ser ele. Se deixar de ser ele perde substância e passa a ser político igual a outros.