Mortes: Autor da lei que tornou crime o racismo

Publicado em 12/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

Final da década de 1980, pouco após a Constituinte. Um homem chega atrasado para acompanhar uma reunião do deputado Caó no gabinete de Ulysses Guimarães.

Meio perdido, pergunta ao segurança se Caó tinha entrado ali. Um moreninho?, ouve. Não, um negão mesmo, respondeu. Doutor, não fala negão, não. Ele fez uma lei que prende todo mundo que chama de crioulo.

Ainda que o segurança corresse mais riscos com o eufemismo moreninho, a anedota serve para mostrar como Caó se notabilizou.

Em 1988, a Constituição estabelece o racismo como crime inafiançável e imprescritível. Responsável pela inclusão do inciso, Caó, criou a lei que no ano seguinte regulamenta tal texto.

Elegante nunca o vi sem gravata, diz outro amigo e de fala calma, Caó era um hábil negociador entre pessoas e grupos. Apesar do jeito discreto, era firme ideologicamente. Unia aparando arestas.

Nascido em Salvador, onde foi o líder estudantil conhecido como Betinho, o negro retinto a quem Caetano Veloso classificou como um jovem líder de que gostávamos muito foi para o Rio fugindo da repressão ao Partido Comunista.

Trabalhou como jornalista no Jornal do Brasil e na sucursal da Veja, e presidiu o sindicato da classe em tempos de repressão, ajudou a fundar o PDT e integrou o primeiro governo Brizola antes de se tornar um dos deputados da Assembleia Constituinte.

O que faz a lei pegar é a punição, disse certa vez.

Morreu no domingo (4), aos 76. Deixa dois filhos e um marco na luta contra o preconceito no Brasil. Caó, presente.

Carlos Alberto Oliveira dos Santos
Carlos Alberto Oliveira dos Santos (1941-2018) - Arquivo Pessoal

coluna.obituario@grupofolha.com.br


Veja os anúncios de mortes

Veja os anúncios de missas