Pendrive de delator indica pelo menos R$ 250 milhões pagos pela Fetranspor a políticos

Publicado em 07/12/2017 por O Globo

Os deputados Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi, do PMDB, deixam o Instituto Médico Legal após se entregarem na sede da PF no Rio - Marcio Alves / Arquivo O Globo

RIO - Apenas entre janeiro de 2013 e fevereiro de 2016, o esquema de "caixinha da Fetranspor", abastecido por 26 empresas de ônibus para pagar propina a políticos, movimentou mais de R$ 250 milhões de reais. A informação foi obtida em arquivos recuperados de um pendrive, entregue ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) pelos delatores Álvaro José Novis e Edimar Dantas, operadores financeiros do esquema.

A denúncia da operação Cadeia Velha, que levou à prisão os deputados Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi - todos do PMDB -, além de empresários do setor de ônibus, indica que o esquema de recolhimento de dinheiro de caixa dois nas garagens das empresas para pagamento de propinas a políticos existe, pelo menos, desde os anos 1990.

Em delação premiada, o doleiro Álvaro José Novis contou que em 1990 ou 1991 foi procurado pelo empresário José Carlos Lavouras, ex-conselheiro da Fetranspor, para ajudar no recolhimento dos valores, que era feito pelas transportadoras de valores Transegur (hoje chamada Prosegur) e TransExpert.

De acordo com Novis, "o dinheiro custodiado era utilizado para fazer pagamentos a políticos", e as ordens para pagamento de propina eram dadas por José Carlos Lavouras - sempre por meio de bilhetes de papel.

Novis contou que os pagamentos de propina tinham o objetivo de obter benefícios às empresas de ônibus e só foram suspensos quando a Polícia Federal (PF) realizou a operação Xepa, em março de 2016, na qual foram presos executivos da Odebrecht e o próprio Novis. Lavouras seria o responsável por organizar a arrecadação dos valores, pagos pelos empresários ligados à Fetranspor.

CONTAS NETUNO E SABI

De acordo com o colaborador, o dinheiro das empresas de ônibus era transferido para "contas centralizadoras" nas transportadoras de valores. Os nomes dessas contas seriam "Netuno" e "Sabi". Após a transferência, era feito o pagamento aos políticos.

"A primeira (Netuno) era para registro dos créditos gerados pela "caixinha" das empresas de ônibus que participavam do esquema, e a segunda (Sabi), para os débitos referentes à distribuição de dinheiro para as propinas destinadas a agentes públicos", diz a denúncia do MPF.

O Ministério Público diz que a conta Sabi, administrada por Álvaro José Novis e Edimar Dantas, "contava com a atuação coordenada de José Carlos Lavouras, Jacob Barata Filho, Marcelo Traça, Lélis Teixeira e João Augusto Monteiro". A Lavouras, como presidente do Conselho de Administração da Fetranspor, caberia articular as "contribuições" junto às empresas que participavam da "caixinha da propina" e repassar as ordens de distribuição a Novis.

No seu depoimento, admitiu ter feito pagamentos a Jorge Picciani e Paulo Melo por ordem de executivos da Odebrecht. A informação teria sido corroborada pelos executivos da empreiteira, Benedicto Júnior e Leandro Azevedo, que também se tornaram delatores do esquema.

Benedicto Júnior e Leandro Azevedo teriam justificado os valores "em razão da importância dos deputados no partido e no contexto político do estado (do Rio), o que poderia resultar em vantagens comerciais para a empresa", afirma a denúncia do MPF. Os pagamentos estão no sistema Drousys, utilizado pela Odebrecht para repassar propina a políticos.

O nome do deputado Edson Albertassi, líder do governo na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e preso em Benfica, Zona Norte do Rio, aparece depois, quando é celebrada a delação premiada do empresário do setor de ônibus Marcelo Traça, presidente do Setrerj (Sindicato de Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro) e vice-presidente do Conselho de Administração da Fetranspor.

"Trata-se de mais um agente político que recebeu propina da Fetranspor para defender os interesses dos empresários do setor de ônibus do Rio de Janeiro, no âmbito do legislativo estadual", afirma a denúncia do MPF sobre Edson Albertassi.


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