Peso cai na Argentina após assessor de Trump falar em dolarização

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Peso cai na Argentina após assessor de Trump falar em dolarização

O dólar voltou a disparar ontem em Buenos Aires, com a moeda americana superando os 40 pesos após um assessor do governo Trump falar em dolarização da Argentina. O governo argentino negou que esteja planejando isso.

No fechamento de ontem, a moeda americana era cotada a 40,22 pesos, uma alta de 2,92%, segundo a taxa média do Banco Central. Esta foi a quarta alta seguida do dólar. O Banco Central da Argentina interveio no mercado faltando apenas dez minutos de sessão, ofertando US$ 5 milhões a cotação de 39,75 pesos por dólar.

O movimento de queda do peso ganhou força ontem com as declarações do diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Larry Kudlow. Em entrevista à Fox News, ele afirmou que a Argentina deveria retomar o regime de conversibilidade do peso com o dólar para estabilizar sua economia.

Kudlow foi além e afirmou que o Tesouro americano "estava profundamente envolvido" no que acontece com a Argentina e com as negociações do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para repactuar os termos do empréstimo de US$ 50 bilhões.

"A única forma de sair do dilema da Argentina é estabelecer um 'currency board', vincular o peso ao dólar", afirmou. Dessa forma, "não há criação de dinheiro a menos que se tenha reservas em dólares", acrescentou. Kudlow lembrou ainda que isso "funcionou nos anos 1990, derrubou a inflação e manteve a prosperidade". "O pessoal do Departamento do Tesouro está nisso", afirmou o principal econômico de Donald Trump.

Economistas argentinos ouvidos pelo Valor, no entanto, acham improvável que uma negociação desse tipo esteja ocorrendo. Eles afirmam que dolarizar a economia hoje traria mais problemas do que vantagens para a Argentina.

"Para vincular a taxa de câmbio ao dólar é desejável que a economia seja tão produtiva e competitiva quanto outras que têm o dólar como moeda. Não é o caso. O custo Argentina é maior que o dos EUA e, com o tempo, a economia argentina perderia competitividade", diz Fausto Spotorno, da consultoria Orlando J. Ferreres & Associados.

Nos anos 1990, uma lei garantia a paridade entre o peso argentino e o dólar, mas, quando houve uma crise severa, modificou-se a lei, lembra Miguel Zielonka, da EconViews, de Buenos Aires.

"A vantagem da dolarização é questionável. Em uma crise, todos os contratos em dólar teriam de ser convertidos para peso, como ocorreu na crise de 2001", diz.

Para ele, o principal benefício de uma dolarização seria evitar a emissão de moeda para cobrir o déficit fiscal (5% do PIB), processo que acaba gerando inflação. "Um ponto ruim é que,com uma dolarização e o fim do peso, o Banco Central da Argentina deixaria de poder atuar em uma corrida bancária", argumenta.

Ramiro Castiñeira, diretor da Econométrica, diz que o problema da Argentina não é a moeda, mas um alto e persistente déficit fiscal. "A Argentina tem um déficit fiscal tão grande que, para financiá-lo, recorre a endividamento e emissão monetária", diz. "Não há receitas mágicas. A Argentina sempre teve déficit alto, gastando mais do que tem, e isso a levou ao default."

Depois da entrevista de Kudlow, o Ministério da Economia da Argentina negou que o governo esteja em negociações com os EUA para avançar rumo a uma dolarização ou uma nova conversibilidade do peso com o dólar.

"Desmentimos totalmente. Trata-se de uma opinião de Larry Kudlow, que não está negociando com a Argentina e o FMI", afirmou o porta-voz do Ministério da Fazenda ao jornal "El Cronista". O porta-voz do Banco Central da Argentina também negou as declarações de Kudlow.