Por onde começar a reforma da casa?

Publicado em 16/05/2018 por Folha de S. Paulo Online

INGRID FAGUNDEZ
DE SÃO PAULO

29/03/2015 01h55

Fazer reforma é sinônimo de surpresa: uma marretada às vezes revela um cano ou uma viga. Mais do que dor de cabeça, essas descobertas podem representar danos à estrutura do prédio e gastos para o proprietário. Por isso, é preciso planejamento antes de deixar as coisas do seu jeito.

A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) publicou no ano passado uma norma para orientar reformas em casas e apartamentos.

De acordo com as regras, quem quiser fazer modificações estruturais deve ter um plano de reforma, elaborado por um arquiteto ou engenheiro, e entregá-lo ao síndico.

Além de mostrar como os espaços vão ficar depois da transformação, o projeto requer estudos das plantas do condomínio para identificar canos, fios e vigas e decidir o que pode ser feito sem maiores estragos.

A obra fica a cargo do profissional contratado, que assina um certificado de responsabilidade técnica. É ele que vai responder em caso de danos e deverá encontrar soluções.

A arquiteta Nyrlei Dias diz que mudanças nos sistemas hidráulico e elétrico e demolições exigem mais atenção e pedem um profissional que se responsabilize por elas.

"Tenho que saber, por exemplo, se a capacidade elétrica de um apartamento dá conta do que vai ser ligado ali. Nos anos 1950, a capacidade era só para uma geladeira, uma TV e um fogão. Um eletricista até sabe te dizer isso, mas não tem responsabilidade sobre o que for feito."

O termo de compromisso tira do síndico, representante legal do edifício, e do proprietário a obrigação de resolver problemas da obra.

O vice-presidente da Seam (sociedade de engenheiros e arquitetos municipais de SP), João D'Amaro, explica que é comum as pessoas contratarem um empreiteiro por conta própria, sem projeto prévio, e acabarem danificando alguma estrutura.

Em alguns casos, como no método de alvenaria estrutural (a parede de baixo segura a laje de cima), os riscos são ainda maiores.

"Se houver incidentes, o síndico, que não exigiu a apresentação do projeto, será totalmente responsabilizado, até criminalmente."

Apesar de não ser lei, a norma é levada em conta pelo Poder Judiciário. Processos abertos a partir de abril de 2014, quando a regra entrou em vigor, e que precisem de provas de perícia vão usar a norma da ABNT como parâmetro.

Para cumprir a exigência, muitas pessoas procuram arquitetos e engenheiros que entreguem um certificado assinado, sem que eles acompanhem a reforma.

"Tem gente que liga pedindo só para assinar a obra, e eu nunca assino, digo que preciso fazer o serviço completo. Tenho que fiscalizar ou fazer o gerenciamento inteiro. E é por isso que vou me responsabilizar", diz o arquiteto Gabriel Mazorra, Da Ajuri Arquitetura.

AO GOSTO DO CLIENTE

Como explica Mazorra, os serviços oferecidos vão da elaboração do projeto e fiscalização de uma obra tocada pelo proprietário até a coordenação de todo o processo.

O último caso inclui desde a compra do material até a contratação da mão de obra e a escolha dos móveis. As opções são negociadas pelos clientes, que escolhem a ajuda desejada. "Se a pessoa quiser, compramos até estofados, cortinas."

O diretor de negócios André Barretto, 38, foi com o arquiteto Rodrigo Calabró escolher os materiais para as obras em seu apartamento, em Moema (zona sul). Ao todo, a reforma demorou seis meses. Ele conhecia alguns fornecedores, mas ainda faltavam contatos.

"Quando eu não tinha as referências, ele me indicava uma empresa. Paguei algumas à vista e consegui descontos. Se estivesse sozinho, não pagaria à vista. Eram pessoas de confiança, que ele conhecia."

O arquiteto também acompanhou a entrega dos materiais e estabeleceu um cronograma, seguido à risca. Barretto já havia passado por outras reformas traumáticas e não queria atrasos ou surpresas. Uma obra anterior deveria ter demorado 40 dias, mas durou quatro meses.

"A gente chamou um empreiteiro qualquer e foi um desastre total. Reflete no bolso e pode gerar um problema maior lá na frente."

Para evitar estender o prazo da reforma, a educadora física Ana Carolina Ferreira, 35, fez todo o projeto, incluindo a escolha de móveis, antes de começar o quebra-quebra.

"A Nyrlei [Dias, arquiteta] fez a parte de engenharia e depois pensamos na decoração. Quando estava pronto, começamos a demolição e contratamos um engenheiro."

Mesmo com a planta do edifício em mãos, Ana só descobriu depois que a tubulação central do prédio passava pelo box do banheiro.

Em vez de repensar a organização da casa, correu para a arquiteta em busca de soluções. "Ela fez uma coluna vazada para colocar objetos. Nem parecia que tinha um cano ali."

Dada a tranquilidade com que tocou as mudanças, Ana diz que nem parecia uma reforma grande.

"Deu certo, por incrível que pareça. Se pudesse dar dicas, diria para fazer o projeto e estabelecer cronograma e preços com profissionais."

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A ORDEM DAS COISAS
Veja o que você deve fazer primeiro

Demolição
Quebra-se tudo o que precisa ser quebrado. É preciso ter o projeto da reforma quando a obra começa

Limpeza
O entulho é recolhido e descartado

Tubulações
São feitos "rasgos" na parede para realizar as mudanças nas tubulações hidráulica e elétrica.

Tapa-buracos
Momento de fechar os buracos para deixar a parede como nova

Revestimentos
Piso novo e as pastilhas nas paredes são colocados. Se o piso for de cerâmica, vai primeiro. Se for de madeira, vai depois

Pinturas
Hora de abrir as latas de tinta

Peças
Peças hidráulicas, como vasos sanitários, e de iluminação são instaladas. Há nova limpeza

Decoração
Móveis são posicionados. O papel de parede entra nesta parte

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NOVAS REGRAS
Norma técnica recomenda a contratação de profissionais

Termo de responsabilidade
Reformas devem ter um responsável técnico (engenheiro ou arquiteto), que assine um termo se comprometendo com a obra.

Síndico
Antes do início da reforma, o síndico deverá ter em mãos o plano de reforma. Ele deve analisá-lo para autorizar ou rejeitar a obra. Em caso de danos gerados pelo descumprimento da norma, síndico e/ou condômino podem ser responsabilizados até criminalmente.

Validade
Não é lei. Mas, em ação judicial, o descumprimento da norma pode ser considerado um agravante.