Com queda do PIB neste ano, RJ será o último a sair da crise

Publicado em 14/11/2017 por Valor Online

Jair Pinto, dono do CouveFlor, restaurante por quilo do Rio: crise e falta de segurança provocaram dois anos de prejuízo e o fechamento de unidade na zona sul Sob impacto de uma combinação de crises econômica, política e fiscal, o Estado do Rio de Janeiro vai ser um dos últimos Estados a sair da crise. O Produto Interno Bruto (PIB) fluminense ainda vai encolher neste ano - enquanto o Brasil como um todo voltará a crescer - e somente vai retomar os níveis anteriores à recessão em 2021, um ano após a recuperação da atividade na média nacional. Cálculos da 4E Consultoria apontam que o PIB fluminense deverá chegar a R$ 677,5 bilhões em 2021, pouco acima dos R$ 671,2 bilhões de 2014. Os valores são corrigidos pela inflação. Neste ano, o PIB estadual deve recuar de 1,1% a 1,4%, segundo estimativas da 4E e do Santander, respectivamente. Nos anos seguintes, a atividade econômica voltará a crescer, mas abaixo da média nacional. "O Rio vai demorar mais para se recuperar, porque a queda acumulada em três anos de recessão foi de 8,3%. O PIB brasileiro, por sua vez, teve dois anos de recessão, queda de 7,2%. O Rio tem grande dependência de petróleo, incapacidade fiscal do governo estadual, dificuldade para atrair investimento privado", resume Alejandro Padrón, economista da 4E. O PIB de alguns Estados brasileiro deve cair pouco mais de 2% este ano, como Sergipe, Roraima e Paraíba. São economias, porém, com peso menor para a atividade econômica nacional em comparação ao Rio de Janeiro. São Paulo deve crescer 0,8%, mesmo ritmo da média nacional, e deve recuperar seu patamar anterior à crise em 2020, com PIB de R$ 1,9 trilhão (a preços de 2014). Um dos principais responsáveis pelo desempenho do Rio abaixo da média nacional é o setor de serviços, que representa pouco mais de dois terços da atividade econômica fluminense. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE mostra queda de 10,1% do setor neste ano até agosto, frente ao mesmo período de 2016. É uma queda duas vezes mais rápida que a média nacional, de 3,8% no período. É no mercado de trabalho, porém, que a crise do Rio ganha contornos mais nítidos e dramáticos. De janeiro a setembro, foram 81.528 postos de trabalho fechados (saldo de vagas fechadas e abertas). É o pior resultado do país. Nesse período, o país como um todo gerou 208.874 vagas. "O Rio de Janeiro chegou à marca de meio milhão de empregos formais perdidos ao longo da crise", disse Bruno Ottoni, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). "Inicialmente, o Rio tinha desempenho melhor que os demais Estados graças aos eventos esportivos, como a Olimpíada. Depois, mergulhou e foi além da média nacional." Dos postos de trabalho fechados no Estado, 61% foram na capital. Somente o setor de serviços carioca encerrou 21.972 vagas este ano. O comércio na cidade foi responsável pelo corte de mais 13.546 postos. Além da capital, outras quatro cidades fluminenses têm perdas relevantes de emprego: Duque de Caxias (-7.188), Macaé (- 7.801), Niterói (-4.706) e Nova Iguaçu (-4.034). A perda de empregos e renda reduziu a massa salarial em circulação no Estado em R$ 1 bilhão desde o segundo trimestre de 2016, período que marca o fim das obras para a Olimpíada. Além do setor de serviços, isso afetou o volume de vendas do varejo, com queda de 2,6% neste ano até agosto no Estado, segundo dados da pesquisa do comércio do IBGE. "Duas em cada dez lojas que fecham no país fica no Estado do Rio. Dois anos atrás, a proporção era de uma para dez. O comércio no Rio piorou de forma muito acelerada. É um quadro um pouco assustador", disse Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC). "Estou falando do fechamento líquido de 3,5 mil lojas no Estado no primeiro semestre." Um dos primeiros restaurantes por quilo da cidade, o CouveFlor fechou sua tradicional unidade no Horto, na zona sul, em setembro. Ele se juntou a outros 150 restaurantes e bares fechados na capital fluminense neste ano. O proprietário Jair Pinto, de 82 anos, culpa a crise e a falta de segurança pelos dois anos de prejuízo. "Não se pode viver assim", diz o comerciante. A lista de restaurante fechados pela baixa frequência vai dos mais simples e aos mais sofisticados. Para ficar com alguns exemplos, fecharam as portas o Atrium, no Paço Imperial; a churrascaria Estrela do Sul e o espanhol Entretapas, em Botafogo; a hamburgueria PJ Clarke's, na Barra da Tijuca e no Leblon; Petisco da Vila, de Vila Isabel. Dono da rede de restaurante Gula Gula e presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes, Pedro de Lamare diz que o atraso nos pagamentos dos salários dos servidores é um dos fatores por trás da crise em restaurantes. Além disso, o crescimento da violência tem afetado a atividade. "Eu moro perto da Rocinha e ouço tiro todo dia. Isso fez nosso delivery crescer 20%", explica. O fim do ciclo de grandes eventos esportivos deixou um legado no transporte da cidade. Houve expansão do metrô pela zona sul carioca até a Barra da Tijuca, na zona oeste. Novas linhas de BRT (corredores expressos de ônibus) foram construídas. Para Mauro Rochlim, professor dos MBAs da FGV, o legado olímpico, contudo, não foi muito além disso. "O legado da Olimpíada se mostrou um tanto quanto inexistente. Houve melhora de mobilidade urbana, mas perdeu-se a oportunidade de alçar a cidade a outro patamar no turismo. O Rio poderia ter se tornado referência em esportes, com estádio de atletismo, velódromo. A cidade tem equipamento, mas faltou planejamento. Com a crescente violência, isso será cada vez mais difícil", disse ele. O Rio é afetado pela crise nacional, de origem fiscal e política. A situação local ficou ainda pior, contudo, diante da calamidade financeira do governo fluminense. Mesmo com o plano de recuperação fiscal, o Estado do Rio só deve atingir o nível de superávit considerado ideal para garantir a sustentabilidade das contas (10% da receita) em 2029, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan). De acordo com Jonathas Goulart Costa, coordenador da divisão de estudos econômicos da entidade, 72% da receita do Estado do Rio é destinada ao pagamento da folha de pessoal e inativos. Ele lembra que mesmo com o empréstimo do BNP Paribas e a futura venda da Cedae, a receita de R$ 2,9 bilhões obtida com a operação não resolve os problemas do governo fluminense. "A operação vai ajudar a reduzir o problema de estoque, com a redução do tamanho da dívida. Mas não vai resolver o problema de fluxo, que são os déficits sucessivos. Por exemplo, o Estado do Rio não vai conseguir pagar integralmente juros e amortização da dívida até 2038. Até lá, a receita não será suficiente. E a Cedae não resolve isso", diz o economista. Essa crise de financeira do governo fluminense teve inúmeras consequências, como o atraso no pagamento de salários e 13º de servidores. Em novembro, a governo do Estado do Rio buscava quitar os salários de 15.375 servidores referentes ao mês de agosto. O empréstimo com o BNP Paribas deve permitir que os pagamentos pendentes sejam quitados este ano. Esse quadro ruim foi ainda potencializado pela crise política. O ex-governador Sérgio Cabral está preso cumprindo penas que somam 72 anos. Pesquisa Datafolha divulgada no mês passado mostra que o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) tem 3% de aprovação e 81% de reprovação por parte da população. A saída para o Rio está no equacionamento da crise fiscal, diz Paula Yamaguti, economista do Itaú Unibanco. "Sem resolver, não vamos ver investimentos públicos no Estado. E um dos motivos da situação fiscal do Rio estar pior é o setor de petróleo, que representa 21% da indústria local e sofreu forte queda de investimentos", diz Paula.