Reitor e professores da UFMG são levados a depor pela PF

Publicado em 07/12/2017 por Valor Online

O reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jaime Ramirez, e professores da instituição, foram conduzidas ontem de forma coercitiva por agentes da Polícia Federal para prestar esclarecimentos em relação a um inquérito sobre supostos desvios de recursos públicos. O objeto da investigação é uma obra inacabada em Belo Horizonte do Memorial da Anistia Política do Brasil. A universidade é responsável pelo projeto. A operação da Polícia Federal, chamada de "Esperança Equilibrista" suscitou críticas de políticos, acadêmicos, estudantes e entidade sindicais. "É uma ação que assume feições muito semelhantes à ação que ocorreu na universidade de Santa Catarina e que resultou na morte do reitor", disse o professor e cientista político da UFMG Fábio Wanderley Reis. "Isso me parece uma manifestação a mais de excesso." No início de outubro, Luiz Carlos Cancellier foi encontrado morto após se atirar no vão central de um shopping de Florianópolis. Ele, que era reitor da UFSC, e outras pessoas haviam ficado presos por um dia em setembro em uma operação da Polícia Federal que também investigava desvios de verbas na universidade. Cancellier foi afastado com a operação. Um bilhete encontrado junto a seu corpo dizia que sua morte fora decretada quando ele foi banido da instituição. A investigação na UFMG corre em sigilo na Justiça Federal de Minas. A autorização para que a polícia realizasse as conduções coercitivas foi dada pela juíza da 9ª Vara Federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima. A PF afirmou que cerca de R$ 19 milhões teriam sido gastos no projeto do memorial, "mas o único produto aparente é um dos prédios anexos, ainda inacabado." Disse ainda que do total repassado à UFMG "quase R$ 4 milhões teriam sido desviados por meio de fraudes em pagamentos realizados pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), contratada para pesquisas de conteúdo e produção de material para a exposição de longa duração." Segundo a polícia, desvios teriam ocorrido em pagamentos a fornecedores que não tinham relação com o projeto e em bolsas de estágio e de extensão. "Por se tratar de apuração que tramita em sigilo, a Universidade não pode se manifestar sobre os fatos que motivam a investigação em curso", disse a universidade mineira por meio de nota. "Entretanto, dada a transparência com que lida com as questões de natureza institucional, a UFMG torna público que contribuirá, como é sua tradição, para a correta, rápida e efetiva apuração do caso específico." Foi a coordenadora do Sindifes, sindicato que reúne trabalhadores de instituições federais de ensino, Cristina Del Papa, quem afirmou a jornalistas ter visto o reitor da UFMG na sede da PF em Belo Horizonte e que a vice-reitora - eleita para ser a próxima reitora - Sandra Goulart também foi levada para depor. De acordo com ela, outras duas professoras e um professor teriam sido levados e ouvidos pela PF, assim como uma funcionária administrativa. As assessorias da polícia e da universidade não deram os nomes dos alvos dos mandados. Ninguém foi preso. O memorial é um projeto que foi lançado há 12 anos. A ideia é abrigar acervo de documentos sobre a anistia dos militantes que combateram o regime militar. Mas as obras não ficaram prontas até hoje. Segundo funcionários da UFMG, o velho imóvel no bairro Santo Antônio escolhido para abrigar o espaço tem problemas estruturais e parte do prédio quase desabou durante as obras. "O dinheiro não foi suficiente e a obra não foi concluída, mas não tem nada de irregularidade" disse ao Valor o ex-reitor da UFMG Clélio Campolina, que deixou o posto há quatro anos e que logo depois tornou-se ministro da Ciência e Tecnologia do governo Dilma Rousseff (PT).