Repórter vive dia de gari e fala da dificuldade da profissão

Publicado em 16/05/2018 por A Tarde - BA

Repórter exerceu a função de gari no bairro de Valéria - Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Repórter exerceu a função de gari no bairro de Valéria

Técnica, força e postura. Estes são os três elementos fundamentais para exercer a função de gari. Não é simples. É muito mais do que varrer. E minha atuação começou justamente varrendo as ruas do bairro de Valéria, em Salvador. 

Logo ouvi das meninas que precisaria corrigir a posição do corpo para não sentir dores. Após a varredura, chegou a hora de cortar os matinhos das quinas com o sacho. Depois de não obter muito sucesso, ouvi de Tânia Ribeiro, aos risos: "Olha, ele fez um 'sacheiro' danado". 

A labuta continuou, mas na hora do despejo, a decepção: sacos com lixos jogados no chão, bem ao lado dos containers disponibilizados para o descarte. Vale ter mais consciência!

Nesta quarta-feira, 16, é celebrado o Dia do Gari. Com uma vassoura na mão e um sorriso no rosto, esses profissionais exercem um papel importante para a sociedade.

A data lembra o dia da publicação da lei que instituiu a categoria, em 1962. O termo "gari" surgiu em homenagem ao francês Pedro Aleixo Gary, que ficou conhecido por ser o fundador da primeira empresa de coleta de lixo nas ruas do Rio de Janeiro, em 1876.

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Tem quem discrimina e diz que a gente ganha bem, que tem que jogar lixo no chão mesmo para a gente ter dinheiro no final do mês. Mas morrer para ajudar o coveiro ninguém quer

Iraildes França, 56 anos, gari há 13 anos

Valéria

A jornada foi dividida com alguns garis que atuam no bairro de Valéria. Por coincidência, todas mulheres. A animada Iraildes França, 56 anos, foi a porta-voz do grupo. Ela está há 13 anos na profissão, oito deles em Valéria. 

Devido a esse longo período em uma localidade, ela conta que já estabeleceu uma relação cordial com os moradores, mas que o preconceito de alguns ainda existe.

"Tem quem discrimina e diz que a gente ganha bem, que tem que jogar lixo no chão mesmo para a gente ter dinheiro no final do mês. Mas morrer para ajudar o coveiro ninguém quer", disse Iraildes, que fez questão de ressaltar que a maioria do bairro trata os garis muito bem.

Apesar de todas as dificuldades, elas sentem orgulho do que fazem, como relata Jane dos Anjos. "São mais de 10 anos atuando como gari. Tenho duas filhas e um neto. Conquistei muita coisa com eles devido a minha profissão", comemora.

Direitos garantidos

Segundo a coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza Pública da Bahia (Sindilimp), Ana Angélica Rabello, a categoria conseguiu bastante avanços nos últimos anos, como os direitos trabalhistas dos funcionários sendo cumpridos. "As empresas de limpeza urbana cumprem direitinho o acordo. Salário diferenciado, cesta básica, etc", afirma.

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Merecemos porque somos uma classe muito desvalorizada. Até parece que os lixos saem da rua por si só

 Ana Angélica Rabello, coordenadora do Sindilimp

No momento, o sindicato está em campanha por aumento salarial, mas, após duas reuniões com os representantes das empresas, Ana Angélica considera que já houve um avanço nas negociações pela garantia da data base para uma correção salarial e a discussão e revisão das condições de trabalho fixadas em acordo. 

"Merecemos porque somos uma classe muito desvalorizada. Até parece que os lixos saem da rua por si sÔ, reflete a sindicalista. 

Trabalho incluiu varrer a rua, recolher lixo e arrancar grama | Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Trabalho incluiu varrer a rua, recolher lixo e arrancar grama | Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Repórter diz que é necessário ter
Repórter diz que é necessário ter "técnica, força e postura" para exercer função | Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Iraildes, Joselita, Jane e Tânia ensinaram ofício para repórter | Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Iraildes, Joselita, Jane e Tânia ensinaram ofício para repórter | Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE