Rotina mais flexível atrai novos alunos

Publicado em 13/11/2017 por Valor Online

Andréa Aparecida de Almeida: "Como o curso é a distância, consigo estudar dentro de casa, nos horários possíveis" Todos os dias, o paulistano Rinaldo Luiz Cuco levanta-se antes de o sol nascer e passa de três a quatro horas em frente ao computador estudando: assiste a videoaulas, atualiza a leitura e participa de chats e fóruns on-line. Por volta de 8 horas, sai de casa para trabalhar e às 12 horas retorna para o almoço. Após a refeição, sai para a segunda jornada de trabalho numa escola estadual de São Paulo, onde leciona história e geografia. "O tempo é escasso e a rotina cansativa, mas vale a pena", conta o professor, que no primeiro semestre de 2018 concluirá a licenciatura em geografia num curso a distância. Cuco formou-se em estudos sociais em 1981 e, perto dos 60 anos, numa fase da vida em que as obrigações familiares aliviaram, decidiu retomar os estudos a fim de se aperfeiçoar. "O tempo passa, e a gente acaba ficando para trás. Voltei a estudar para atualizar o conteúdo de geografia." Cuco faz parte de um grupo que não para de crescer no Brasil: os estudantes que optam por fazer cursos a distância, seja em nível de graduação ou de pós-graduação, seja em cursos livres. Segundo o Censo da Educação Superior de 2016 do Ministério da Educação (MEC), o número de matrículas em cursos de graduação a distância aproxima-se de 1,5 milhão, o que corresponde a 18,6% dos 8,04 milhões de universitários no país. Somam-se a esse contingente cerca de 2,9 milhões de alunos dos cursos livres corporativos e não corporativos, conforme contabilizou o censo da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). Uma década atrás, a educação à distância (EAD) respondia por 4,2% dos graduandos brasileiros e os cursos presenciais concentravam 95,8% das matrículas. Apenas em um ano, de 2015 para 2016, a educação a distância assistiu ao aumento de 7,2% das matrículas, ao passo que a educação presencial teve queda de 1,2%. O MEC projeta que em cinco anos a educação a distância deverá responder por metade das matrículas na educação superior brasileira. "A educação a distância está atendendo pessoas que buscam todo tipo de objetivo: quem quer um diploma, quem quer se aperfeiçoar profissionalmente e quem tem motivações pessoais para estudar", analisa Betina von Staa, consultora em inovação educacional e coordenadora técnica do censo da Abed. Junto com a demanda, a oferta cresce. Segundo o censo da Abed, o número de novas instituições que oferecem EAD aumentou em 22%, entre os que oferecem educação em geral, o avanço foi de 4%. O negócio está concentrado nas mãos de grandes grupos privados, com capacidade de investimento para implantar os polos e investir em tecnologia, materiais e conteúdos. "Vinte anos atrás, a educação a distância era uma inovação. Hoje, a EAD é natural, sobretudo para os mais jovens", afirma João Vianney, consultor da Abed e da Hoper Educacional. Além disso, a tecnologia permite levar a educação para quem não tem outra opção. "No interior e em regiões como a Amazônia, muitas vezes a única alternativa para quem quer estudar é o ensino a distância", afirma Betina. Foi a solução para Andréa Aparecida de Almeida. Ela mora em Taiaçupeba, distrito na zona rural de Mogi das Cruzes (SP), e cursa o primeiro semestre de pedagogia a distância na Universidade do Norte do Paraná (Unopar). Casada e mãe de dois filhos, Andréa trabalha como monitora numa reserva florestal da Suzano Papel e Celulose. "Minha rotina exige muito deslocamento. Dependendo da época do ano e da demanda de visitação, passo o dia no parque atendendo estudantes e professores", diz. Sua formação original foi em radiologia. Mas no contato com a reserva decidiu virar educadora ambiental. "Como o curso é a distância, consigo estudar dentro de casa, nos horários possíveis", explica. "Pensei em fazer biologia, mas escolhi pedagogia porque sentia necessidade de aprofundar o meu lado educadora", diz Andréa. "Quero trabalhar com educação e com crianças de uma maneira aberta, sem os limites de uma sala de aula." A flexibilidade da tecnologia e das metodologias dos cursos a distância não significa, necessariamente, uma rotina de estudos leve. Pelo contrário. O sucesso do aluno depende essencialmente de organização e disciplina. Por isso, a motivação interna para se aperfeiçoar é fundamental, analisa Ivete Palange, conselheira da Abed. Para evitar a falta de estímulo e a sensação de isolamento, em decorrência da ausência de contato físico com os colegas de turma, a recomendação é criar uma rotina de estudos, com dias, horários e tempo de dedicação definidos. E segui-la rigorosamente. "A rotina evita o abandono do curso", diz. Os cursos a distância também podem ser úteis para o desenvolvimento pessoal, independentemente de alguma aplicação imediata na carreira. Foi o que descobriu a advogada Daniela Stump. mestre em direito ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e sócia de um grande escritório de advocacia em São Paulo, ela está fazendo um curso livre de oito semanas ofertado pela Universidade Berkeley (EUA), chamado "A ciência da felicidade" na plataforma edX, que reúne algumas das mais renomadas instituições americanas. "Troquei o Netflix pela edX." "Dá vontade de sentar-se ao computador para assistir a videoaulas e participar dos chats, mesmo que seja entre as 22 horas e a meia-noite, quando os filhos estão na cama e depois de um dia de trabalho", conta, ao descrever sua rotina. "Estou aprendendo muito sobre mim mesma e sobre as pessoas de maneira geral." Daniela diz que graças ao curso está compreendendo a origem de seu interesse por temas como diversidade e inclusão. Hoje ela atua num projeto voltado para ampliar a participação de minorias no escritório. "Já existem estudos de neurociência e psicologia que mostram que a felicidade está ligada a quanto nos dedicamos aos outros. Isso me fez entender por que gosto tanto do projeto." Mudanças recentes na legislação sobre educação a distância prometem romper as fronteiras que ainda restam. O novo marco legal acaba com exigências do MEC para o credenciamento de instituições e abertura de cursos. Isso favorece a entrada de instituições de pequeno e médio portes num mercado hoje dominado por grandes grupos educacionais. Até então, era preciso esperar até dois ou três anos para ter um pedido limitado de abertura de polos com a tramitação concluída pelo MEC. Agora, a instituição pode abrir certo número de polos todo ano. A diversidade de opções deve se multiplicar. Voltar a estudar ficará cada vez mais irresistível.