Saída de ministro traz alívio a mercado de câmbio e juros

Publicado em 14/11/2017 por Valor Online

Os mercados de juros e câmbio experimentaram um alívio na reta final dos negócios, após a notícia de que Bruno Araújo (PSDB) pediu demissão do Ministério das Cidades. A melhora se deu por causa da expectativa de que a saída de Araújo deflagre uma reforma ministerial que privilegie partidos do chamado Centrão - com número relevante de deputados que podem reforçar o apoio à agenda de reformas do governo, com foco na Previdência. O dólar futuro para dezembro zerou a alta, cotado a R$ 3,2860. No mercado à vista, o dólar subiu 0,58%, a R$ 3,2981. O juro com vencimento em janeiro de 2021 foi a 9,40% ao ano, a alguma distância da máxima de 9,47% marcada antes. O pedido de demissão de Araújo é um capítulo importante na posição de importantes membros do PSDB de não apoiar mais o governo Temer. Em carta, o ex-ministro diz não haver no PSDB apoio "no tamanho que permita seguir nessa tarefa". Não é de hoje que os tucanos mostram divergências internas sobre a participação da legenda na base aliada do governo. E com a escalada dos ruídos, o mercado passou a colocar nos preços um cenário de demora adicional na retomada das negociações pela reforma da Previdência. Mais recentemente, notícias sobre a possibilidade de o governo precisar enxugar mais o texto sob risco de não passar na Câmara dos Deputados emitiram o sinal de alerta entre investidores, que contam menos hoje com um cenário externo tranquilo. Prova disso é o juro extra cobrado por investidores para aplicar em renda fixa de prazo mais longo. Uma das medidas desse prêmio de risco é a chamada inclinação da curva - diferença entre taxas de DI de vencimentos longos e curtos. O spread entre os juros com vencimento em janeiro de 2023 e janeiro de 2019, por exemplo, flertou ontem com o patamar recorde de 300 pontos-base. Na máxima durante os negócios, bateu 296 pontos-base, pico histórico. Outra medida de inclinação - entre os DIs janeiro de 2021 e janeiro de 2019 - subiu a 214 pontos, nova máxima. A inclinação subiu ontem puxada por alta nos juros longos - aqueles mais associados a expectativas para a política fiscal. A variação dos juros desses vértices foi moderada, mas é a persistência da rota ascendente que tem chamado mais atenção. O chamado "steepening" da curva (expressão que designa a piora da inclinação) tem desafiado recomendações de grandes instituições financeiras - que veem prêmio excessivo na curva. Morgan Stanley, Nomura e BNP Paribas já recomendaram posições a favor da queda da inclinação, ou pelo menos das taxas mais longas. A velocidade de aumento da inclinação também tem surpreendido. A curva demorou seis meses antes de levar a inclinação de zero para 100 pontos-base. A subida para 200 pontos precisou de pouco mais de quatro meses. E a aproximação do patamar de 300 pontos-base já acontece num intervalo de apenas dois meses. O nível de risco do mercado brasileiro como um todo também está mais alto. Caesar Maasry, estrategista do Goldman Sachs, calculou que a medida associada aos mercados domésticos é das maiores no mundo emergente e representa o dobro da média histórica para o Brasil. A medida calculada pelo Goldman Sachs leva em conta a correlação entre os mercados domésticos de câmbio, crédito, juros e ações e "benchmarks" de mercados de países em desenvolvimento.