Título longo entra no radar de investidor atraído por taxa alta

Publicado em 14/11/2017 por Valor Online

Atraídos por taxas de retorno melhores, investidores têm mostrado mais interesse por títulos públicos de prazos maiores. Nos primeiros dez dias de novembro, a quantidade de negócios envolvendo NTN-Fs com vencimentos em 2023 e 2027 - dois dos títulos prefixados emitidos pelo Tesouro Nacional mais longos - já responde por mais da metade do movimentado em outubro. Considerando os dois prazos, foram 17,868 milhões de papéis negociados no mercado secundário no período em questão. Esse número equivale ainda a 24,1% do total de títulos prefixados que trocaram de mãos entre os dias 1º e 10 de novembro, incluindo NTN-F e LTN, que também paga uma taxa prefixada. A participação supera a fatia de 16,7% de outubro e os 10% de setembro. Essa movimentação sugere que os investidores - principalmente fundos de previdência - estão operando de maneira mais ativa em busca de rendimentos maiores no começo deste mês, a fim de aproveitar a recente alta dos juros mais longos no mercado, de acordo com profissionais de instituições bastante atuantes no segmento. "Olhando o volume recente, de setembro para cá aumentou o interesse dos fundos em alongar posição por causa do aumento do juro mais longo", ressalta um profissional. Hoje, a NTN-F para 2023 paga uma taxa de cerca de 9,80% ao ano, ante 9,25% do começo de outubro. Já o juro da NTN-F com vencimento em 2027 saiu de 9,70% para 10,20%, na mesma base de comparação. Esse aumento do juro pago pelos títulos públicos acompanha a evolução das taxas futuras no mercado, que servem de referência para a formação de preço desses papéis. Mas, como a demanda pelos títulos do Tesouro cresceu, o que se observa também é uma redução no prêmio que o investidor exige para levar o papel. As NTN-Fs usualmente são negociadas com um desconto em relação ao DI, porque o título público oferece ao detentor o pagamento de um cupom semestral, o que não acontece com o contrato futuro. Mas essa diferença vem aumentando, o que é mais um indicativo de que a demanda pelo papel cresceu. Ontem, as taxas pagas pelas NTN-Fs estavam 0,495 ponto percentual abaixo dos juros dos respectivos vencimentos no mercado de DI futuro, ante menos 0,385 ponto do início do mês passado. Para 2023, o desconto era de 0,345 ponto ontem, ante menos 0,240 ponto dos primeiros dias de outubro. Além dos preços mais atrativos dos títulos longos, há ainda a indicação de que os agentes financeiros estão se antecipando ao fim do ciclo de corte de juros e a percepção de que as taxas devem, a partir de então, residir num patamar mais baixo que o atual. "Estão enxergando prêmio, apesar de momentos de nervosismo, porque a percepção é de melhora no médio prazo", afirma outro profissional. O fato de o Tesouro ter reforçado recentemente as ofertas desses títulos no mercado primário em seus leilões semanais naturalmente reforça o estoque no mercado secundário. Mas, como aponta um dos especialistas, "essas colocações expressivas normalmente ocorrem exatamente quando há demanda pelo papel". O que tem contribuído para elevar as taxas de juro de prazo mais longo no mercado doméstico é, principalmente, uma correção global de preços de ativos. O mercado vem se antecipando a uma futura redução de liquidez oferecida pelas economias desenvolvidas, principalmente pelo Federal Reserve, o banco central americano. Com isso, os juros globais operam em níveis mais elevados, enquanto as moedas de emergentes têm sido alvo de vendas. Aqui, o futuro da reforma da Previdência e a eleição de 2018 são elementos de incerteza que justificam um prêmio de risco mais elevado. Diante desse quadro tão vago, profissionais de mercado observam que não há caminho claro para a demanda por títulos longos. A despeito disso, o movimento recente no mercado de títulos públicos mostra que, ao menos neste momento, mais investidores têm aceitado alongar suas posições. Para um dos especialistas consultados, a movimentação por ora parece mais atrelada a uma oportunidade, por causa de preço, e não necessariamente a uma aposta firme numa melhora do ambiente econômico.