Todos os problemas do Brasil advêm da violência e da mobilidade social

Publicado em 13/01/2018 por Folha de S. Paulo Online

Somos genocidas. No Brasil, em 2017, foram mais de 60 mil assassinatos, entre inocentes, ladrões de galinha, bandidos e policiais. Isso significa 12% de todos os assassinatos em todo o planeta.

O Brasil só tem dois problemas principais: violência e mobilidade social. Todo o resto advém disso, do desemprego à desigualdade de renda, do corporativismo à baixa produtividade, da péssima elite política ao racismo e rentismo nosso de cada dia. Nosso Estado não entrega mínimas condições de as pessoas sobreviverem e investirem recursos (não só dinheiro) no seu futuro. É mais que falta de saúde e educação, é falta de esperança.

Diz a etiqueta que um novo colunista deve se apresentar, e aqui vai minha declaração de princípios: o de um economista que vê na injustiça social o maior entrave a sairmos da armadilha da classe média.

Hoje, sou professor da New York University Shanghai, da Fundação Dom Cabral e da Copenhagen Business School. Nesta coluna, quero trazer as melhores práticas mundiais e evidências científicas com um único objetivo: um novo contrato social de desenvolvimento de longo prazo que combina justiça social com proteção ao ambiente.

O termo-chave é longo prazo. O caminho vai ser longo e tortuoso. Não há saídas fáceis nem imediatas. Nossa próxima geração está a ponto de ser perdida e, mesmo que façamos tudo o mais rapidamente possível, ainda mataremos milhares de brasileiros nos próximos anos, além de mantermos alijados outras dezenas de milhões.

Parafraseando H.L. Mencken, grande pensador americano do início do século 20: "Para todo problema complexo existe uma solução simples. E errada".

A falta de esperança é mais aguda nos jovens que entram no mercado de trabalho. China e Dinamarca têm algo em comum hoje: os jovens sabem que por esforço e persistência podem alcançar uma vida melhor para suas famílias. Isso vale até para os cerca de 200 milhões de migrantes que vivem de forma semilegal no leste chinês.

Isso não existe no Brasil. Cresci parte da minha infância em Madureira, área pobre e violenta do Rio. Não conheço ninguém dessa época que tenha virado classe média alta ou rico.

Mas essa não é uma história de meritocracia, e sim quase um espelho do principal resultado de um dos melhores artigos de economia de 2017, de Raj Chetty e coautores, que mostra que crianças pobres em regiões mais ricas conseguem ascender muito mais facilmente.

No nosso caso, éramos classe média alta até minha mãe pedir o divórcio e levar os filhos para reconstruir a vida, custasse o que custasse. Mas, como ainda tínhamos família em áreas nobres do Rio, íamos para boas escolas. Isso mais as vantagens dos primeiros anos em ambiente rico, muita sorte e, sim, também esforço são os responsáveis pelo nosso sucesso.

Não houve meritocracia. Éramos da elite e, por caminhos tortos, com um pouco mais de esforço, voltamos ao nosso lugar. Que no Brasil é quase de direito.

Precisamos de políticas pró-mobilidade, que certamente reduziriam desigualdade. E que vão requerer esforço por parte de todos.

Muitas medidas são contraintuitivas. Abertura comercial unilateral e reformas que parecem intragáveis são fundamentais para os mais pobres. Outras são mais aceitas, como redesenho para expansão do Bolsa Família e sistemas de cotas. Economia com justiça social.

Nenhum país se desenvolveu em um piscar de olhos. Não é fácil e vai demorar, mas que tal tentarmos?