Varejo frustra em julho e incerteza pode minar 3º trimestre

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Varejo frustra em julho e incerteza pode minar 3º trimestre

Por Bruno Villas Bôas e Hugo Passarelli | Do Rio e de São Paulo

Divulgação

Isabella Nunes: "Percepção de consumidores vem se deteriorando. Consumidores estão cautelosos nos gastos"

Passados os efeitos da greve dos caminhoneiros, as vendas do varejo brasileiro continuaram pressionadas em julho pela incerteza dos consumidores com a economia e a política. E devem seguir assim nos próximos meses, com a lenta recuperação do mercado de trabalho e a indefinição eleitoral, segundo analistas.

Conforme divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas do varejo restrito - que exclui comércio de automóveis e material de construção - recuaram 0,5% em julho, na comparação com junho, pior do que o esperado pela média do mercado, de alta de 0,2%. Foi o terceiro mês seguido de baixa, período em que acumulou queda de 3,2%.

De junho para julho, os destaques negativos do varejo foram as vendas de móveis e eletrodomésticos (-4,8%) e produtos de uso pessoal e doméstico (-2,5%). São atividades que cresceram em junho, embaladas pela venda de televisores para a Copa do Mundo e que, portanto, teriam sofrido com o fim do evento. Mas não foi só.

Segundo Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as atividades que mais dependem de crédito foram exatamente as mais afetadas de julho. Ele citou também a queda de 2,7% de material para escritório, informática e comunicação na passagem de junho para julho pela pesquisa do IBGE.

"Outros segmentos que dependem do crédito também micaram, capturando a maior aversão do consumidor ao momento. Dólar sobe, taxa de desemprego recua lentamente. Os juros ao consumidor até recuaram, mas o cenário eleitoral complica o segundo semestre. Todo ano eleitoral é assim", disse o economista.

As vendas de hiper e supermercados até cresceram 1,7% em julho, recuperando parte das perdas do mês anterior (-3,6%), quando foram afetadas pela greve dos caminhoneiros. O resultado compensou, no entanto, apenas uma parte da quedas das outras atividades ao longo do mês.

Segundo Isabella Nunes, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE, o varejo perdeu ritmo de recuperação por qualquer base de comparação. Frente a julho do ano passado, o varejo restrito recuou 1%, a primeira queda em 15 meses. A média móvel trimestral intensificou a queda de junho (-0,2%) para julho (-0,8%).

"Essa perda de ritmo é evidente quando se entende que os estoques foram normalizados [após a o fim da greve], mas a percepção de consumidores vem se deteriorando, com índices baixos de confiança. É uma percepção de recuperação lenta. Consumidores estão cautelosos nos seus gastos", reforçou a técnica.

Segundo parte dos analistas consultados, indicadores coincidentes disponíveis - como sondagens do comércio e do consumidor, índice do varejo do Serasa, consultas ao SCPC - apontam a quarta queda seguida das vendas para agosto. A MCM Consultores prevê recuo de 0,8% do varejo restrito; o Itaú estima baixa de 0,1%.

Para a MCM, a reversão dessa perda de fôlego do varejo depende de sinais mais claros de retomada do emprego e do arrefecimento da incerteza política. "Dois meses após a greve, as vendas sinalizam um ritmo de recuperação errático e lento, muito aquém daquele que prevalecia no início do segundo trimestre", avaliou Sarah Bretones, analista da MCM. Para o banco MUFG, a melhora do ritmo depende da geração de empregos com carteira assinada, o que estaria ligado ao resultado das eleições.

Menos pessimista, a consultoria Tendências, o varejo restrito deve ter pequeno crescimento em agosto, apoiado na liberação de recursos do PIS/Pasep, iniciada no dia 4 do mês, e por menor base de comparação, após três meses consecutivos de queda do setor, período em que acumulou baixa de 2,3%.

"O ritmo seguirá bem gradual, nada animador. Assim, o varejo deve fechar o ano com um crescimento de 2,5% tanto pelo conceito restrito quanto pelo conceito ampliado, que inclui as vendas de automóveis e materiais", disse Isabela Tavares, analista da Tendências Consultoria, que ainda não chegou a um número para agosto.

Pelo varejo ampliado, que inclui o comércio de automóveis e material de construção - atividades também influenciadas pelo desempenho do atacado -, as vendas recuaram 0,4% em julho, frente ao mês anterior. Para esse recorte do comércio, porém, as previsões são positivas: o Itaú prevê alta de 1,6% em agosto, e a MCM, de 4,4%.

Neste caso, o cenário está baseado no desempenho das vendas de veículos. De acordo com o balanço da Fenabrave, 248.638 veículos foram vendidos em agosto (incluindo na conta automóveis, ônibus e caminhões), 14,3% acima do verificado no mês anterior (217.486). Em relação ao mesmo mês do ano passado, a alta foi de 14,8%.