Vidas em vigas: a história do Dique da Vila Gilda, em Santos

Publicado em 12/02/2018 por Carta Capital

Cresci e vivi em Santos a maior parte da minha vida. Meu pai foi estivador, sindicalista e um dos fundadores do Partido Comunista da cidade. Desde cedo, eu me vi envolvida em manifestações, atos contra a privatização do porto, reuniões políticas.

Santos já foi considerada a "cidade vermelha", por conta de abrigar muitos comunistas, assim como existem remanescentes de quilombos e muita história de luta. Após sucessivas gestões reacionárias, a cidade, que passa por um processo de gentrificação, tornou-se um espaço cada vez mais segregado.

Apesar de a cidade de Santos ter sido considerada a melhor cidade para se viver, segundo pesquisa da consultoria Delta & Finance/Economia, em 2016, existe uma relação de desigualdade entre a orla e a região continental do município. Geralmente, a cidade é lembrada pelas praias, o maior jardim de orla do mundo, segundo o Guinness Book, o time de futebol, Pelé.

A cidade amarga, porém, um recorde nada positivo: possui a maior favela de palafitas do Brasil, o dique da Vila Gilda, com cerca de 20 mil habitantes, na zona noroeste. Palafitas são construções sobre plataformas sustentadas por estacas ou troncos. E existem mais moradias nessa situação no bairro. São milhares a viver em condições subumanas e em famílias chefiadas por mulheres. 

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No ano passado, entrevistei algumas mulheres que vivem sob essas condições para uma matéria no Caminho da União, no bairro do Jardim São Manoel, sobre suas vidas e as dificuldades que enfrentam diariamente. "Somos invisíveis", foi a expressão mais repetida pelas entrevistadas.

Para além desse ponto, os moradores reclamam da negligência em relação aos perigos diários enfrentados, como tábuas soltas e escorregadias que provocam acidentes sérios.

Várias mães relataram que seus filhos já caíram na maré, alguns se machucando gravemente. Não bastasse, temem chuvas e tempestades por conta de inundações e perdas de telhas das casas.

Algo comum entre as entrevistas foi o reconhecimento da união dos moradores. No dia em que fomos lá, um vizinho arrumava um cano a pedido de outra vizinha, as mulheres desempregadas ou donas de casa ajudam a olhar os filhos daquelas que trabalham. É o poder comunitário como resistência ao descaso.

Apesar das dificuldades, há resistência. O título desta coluna faz alusão à página Vidas em Vigas criada por Edmilson Almeida Duarte, o Didi, para denunciar a realidade precária dos moradores.

Didi, que vive no bairro São Manoel desde seu nascimento, utiliza o próprio aparelho celular para registrar o dia a dia da comunidade. "Mas não quero mostrar só a dureza. Minha página também serve para mostrar que a gente existe, mostrar o outro lado de quem vive aqui. Que existem trabalhadores, pessoas honestas."

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Desde 2015, a Fundação Settaport, instituição ligada ao Sindicato dos Trabalhadores Portuários de Santos, mantém um projeto esportivo educacional na região. O programa oferece a prática de futsal a 140 alunos de 5 a 14 anos. A fundação mantém mais outros cinco núcleos espalhados em áreas de vulnerabilidade social nas cidades de Santos e Guarujá.

Segundo Donald Veronico, gestor de projetos esportivos da fundação, existe parceria com as escolas das regiões e os alunos só podem participar do projeto se tiverem frequência escolar. O diferencial é que também existem vagas para meninas, que treinam e formam times juntamente com os meninos.

"É possível ver a transformação de meninos e meninas que frequentam os projetos esportivos. Aprendem as modalidades esportivas, aumentam a frequência escolar e o desempenho", diz Veronico.

Segundo o vereador e presidente da fundação, Francisco Nogueira, a Settaport tem uma forte parceria com a Associação de Moradores do Jardim São Manoel. "Para atender à comunidade, montamos os núcleos esportivo e de inclusão digital e também estamos oferecendo aulas de zumba."

Como vereador, Nogueira atua naquele bairro. "A população que mora nas palafitas é muito carente e só está ali por falta de melhor oportunidade. Por isso, temos tentado facilitar a construção de uma sede para a associação. O imóvel vai abrigar uma creche e salas para reuniões, eventos. Também serão desenvolvidas atividades para tirar as crianças da rua", anuncia.

Vista muitas vezes como somente lugar de férias ou para tomar banho de mar, é preciso enxergar Santos sob outros ângulos.