"Cenário político depende de Lula ser ou não candidato", diz Pastore

Publicado em 14/11/2017 por Valor Online

No Brasil há, sim, uma inusitada antecipação do debate eleitoral, que vem concentrando grande parte das preocupações de empresários e investidores. O debate eleitoral, trazido a valor presente, tem dupla justificativa: o desalento com o governo Temer e a ansiedade com a disparidade de cenários que podem emergir das eleições de 2018, avalia o ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore, sócio fundador da A.C.Pastore & Associados, em análise sobre o cenário político publicada no relatório Fotografia da Economia Brasileira - Edição de Outubro. O desalento com o atual governo foi flagrado para muito além do mercado financeiro pela pesquisa Ibope - de escopo nacional - para quem apenas 3% da população brasileira classificou o governo Temer de bom ou ótimo. Pastore avalia que Temer vem perdendo a capacidade de ver aprovadas no Congresso as reformas necessárias para reverter a dramática situação fiscal do país. O ex-BC entende que notícias de que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, poderá se candidatar à Presidência da República em 2018 também não ajudam as negociações entre Executivo e Legislativo. "Depois das louváveis aprovações do teto para os gastos públicos, da Taxa de Longo Prazo (TLP) e das mudanças no Fies, o Congresso, enredado na defesa de interesses pessoais, vem cobrando elevado preço (fiscal) para manter o apoio às propostas do Executivo", afirma. Para Affonso Celso Pastore, no foco das preocupações de empresários e investidores está a pergunta: "Quem governará o país a partir de 2019? Contudo, não há resposta pronta para essa questão. "A definição do quadro depende de saber se Lula será ou não candidato. Quanto mais acuado, seja pela fragilidade das provas apresentadas em juízo, seja pelo efeito devastador da carta-manifesto de desfiliação de Antônio Palocci, cuja delação parece encontrar-se em estágio avançado, mais radical se torna o discurso de Lula", pondera o economista. Ele lembra que, há dias, correligionários do ex-presidente lançaram um movimento de "desobediência civil" defendendo que ele seja candidato independentemente da sua condenação pela Justiça. Pastore afirma que a proposta em si é um exemplo eloquente do grau de radicalismo e desapreço ao Estado Democrático de Direito que, espera o economista, seja contido pelas circunstâncias. "Ainda assim", acrescenta Pastore, "o cenário de incerteza política continuará a reduzir o entusiasmo de investidores, nacionais ou estrangeiros, que tendem a aguardar a definição dos rumos para aumentar seus investimentos no país".