Corrida nuclear de Trump reaviva clima de Guerra Fria

Publicado em 10/02/2018 por O Globo

A vitória de Donald Trump nas eleições de 2016 causou perplexidade não só por sua imprevista chegada à Casa Branca, mas também pelas ideias não convencionais que defendeu como candidato. Algumas delas tão exóticas, que poucos acreditaram que de fato seriam implementadas. Porém, de olho em sua base eleitoral, o presidente americano vem adotando medidas que são um constante desafio ao sistema de pesos e contrapesos institucionais dos EUA, como a construção do muro na fronteira com o México; a proibição da entrada de estrangeiros de países de maioria muçulmana; o abandono de pactos multilaterais, como o Acordo do Clima de Paris, e comerciais, como a Parceria Transpacífica, para ficar em poucos exemplos.

Ainda na campanha eleitoral, muitos viam tais promessas como bravatas de um candidato tentado se diferenciar do mainstream político. Ou seja, acreditava-se então que tais medidas dificilmente seriam adotadas. Mas agora, passado pouco mais de um ano de sua gestão, ninguém ousa duvidar de suas intenções, por mais estapafúrdias que soem. Por isso, causa profunda apreensão o pedido de Trump ao Congresso para que autorize a recomposição do supostamente defasado arsenal nuclear americano.

A medida, que buscaria fazer frente ao avanço russo e chinês, trouxe de volta o clima tenso dos tempos da Guerra Fria. A diferença é que agora a renovação do arsenal não se dá na multiplicação dos artefatos, mas na modernização tecnológica dessas armas. A atual corrida nuclear com russos e chineses inverte totalmente a política de redução de ogivas adotada pelo ex-presidente Barack Obama, trazendo de volta o temor de um conflito nuclear.

Temor, diga-se, não de todo infundado. Pois se o diálogo belicoso que Trump trocou com Kim Jong-un, quando afirmou que seu "botão nuclear" era maior que o do ditador norte-coreano, foi tomado por alguns como uma anedota de mau gosto, a recente defesa do uso desse tipo de armamento em retaliação a iniciativas estrangeiras que desestabilizem os EUA, como, por exemplo, um ataque de hackers ou atos de terrorismo, apontam para uma ameaça deveras real.

Vários especialistas e consultores do setor concordam que os arsenais russo e chinês cresceram enquanto a capacidade americana diminuiu com as políticas de Obama. Os rivais também avançaram na área tecnológica, desenvolvendo armas mais "inteligentes", tornando o arsenal dos EUA menos efetivo.

Enquanto alguns argumentam que é preciso recompor essa defasagem, outros alertam que é preciso levar em conta também quem ocupa o papel de comandante-em-chefe da nação. E, nesse aspecto, considerando-se a personalidade belicosa de Trump, não deixa de ser assustador imaginar a tentação que novos brinquedos nucleares podem exercer sobre ele.