Crise na Venezuela já levou empresas brasileiras a interromperem exportações para o país vizinho

Publicado em 14/11/2017 por O Globo

Logo da PDVSA em um posto de gasolina em Caracas, Venezuela - Andres Martinez Casares / REUTERS

SÃO PAULO - A dificuldade de receber por suas vendas, desde que foi instalado o estado de emergência na Venezuela, em 2016, levou muitas empresas brasileiras a reduzir as exportações ao país vizinho, e até mesmo em muitos casos a encerrar esse fluxo comercial. O setor de aves, por exemplo, chegou a ter na Venezuela o quinto maior mercado comprador sete anos atrás. Mas desde 2014, o total embarcado, em toneladas, caiu quase oito vezes. Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram que entre janeiro e setembro deste ano foram embarcadas 20,5 mil toneladas de aves para a Venezuela. Em 2014, no mesmo período, o volume fora de 160,5 mil toneladas.

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-- Desde 2015, empresas do nosso setor começaram a registrar atrasos nos pagamentos dos produtos. E o maior comprador é o Ministério da Alimentação, mas nem ele tem a garantia do governo para pagar os produtos. Hoje, quem ainda continua vendendo para a Venezuela só faz negócios à vista -- diz Francisco Turra, presidente da ABPA.

Em relação a suínos, o país vizinho realizava uma importação "sazonal" todo ano, entre setembro e dezembro, para o consumo da carne no período das festas de fim de ano. Este ano, segundo a ABPA, a Venezuela sequer consta da lista de países importadores de carne suína brasileira a partir de setembro.

Grandes empresas do setor de aves, que vendiam regularmente para a Venezuela, chegaram a ter mais de US$ 50 milhões em pagamentos atrasados. Entre algumas que enfrentaram para receber, nos últimos anos, estão JBS, dona da marca Seara, e BRF, que possui as marcas Perdigão e Sadia. Procurada, a JBS informou que não poderia comentar o assunto devido ao período de silêncio que antecede a divulgação de seu balanço. Já a BRF informou que não exporta mais diretamente para a Venezuela desde 2014.

Companhias aéreas brasileiras, como a Gol e a Latam, também mantêm suspensos seus voos para o país desde 2016 devido às dificuldades para receber. Em nota, a Latam informou que por conta "do complexo cenário macroeconômico atual que enfrenta a Venezuela, o grupo e suas filiais suspenderam, desde 1º de agosto, suas operações no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Caracas, por tempo indeterminado. A Gol informou em nota que a companhia não opera mais voos para Venezuela desde fevereiro de 2016.

- Mesmo em 2009 no auge do preço do petróleo a US$ 120 o barril, principal fonte de receitas do país, os empresários brasileiros que faziam negócios com a Venezuela sabiam que em algum momento o país poderia entrar em colapso em relação ao pagamento de seus compromissos. Naquela época já existia déficit público - explica o coordenador do MBA de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, Oliver Stuenkel, um estudioso de Venezuela, citando também a escassez de dólares e os vários tipos de câmbio, tornando complicada a conversão, como fatores que dificultam o pagamento.

Ele confirma que o país vizinho já vinha deixando de pagar credores menores, como as empresas brasileiras. Agora, com a possibilidade de default de títulos da dívida soberana ou da PDVSA, a estatal de petróleo venezuelana, a coisa muda de figura, já que muitos desses papéis estão nas mãos de fundos de investimento que vêm financiando o país.

-- Se não receberem, estes fundos podem acionar cortes internacionais. Em tese, eles poderia reter navios de petróleo venezuelano que chegam aos seus destinos como garantia de recebimento. Acredito que o governo venezuelano vai tentar postergar ao máximo a decretação de default para evitar problemas com a venda de petróleo - diz Stuenkel, que acredita que um calote venezuelano afeta negativamente a percepção que os investidores têm da América do Sul, incluindo o Brasil.

O especialista da FGV afirma que é difícil saber qual é o tamanho do calote do governo venezuelano e de importadores privados com empresas brasileiras. Mas ele lembra que as companhias nacionais tinham ao menos US$ 6 bilhões a receber em contratos fechados em 2015 para os próximos anos, antes da entrada em vigor do estado de emergência.

O consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, afirma que, entre seus clientes, exportadores de alimentos e produtos de linha branca deixaram de vender para a Venezuela, nos últimos anos, por causa do risco de calote. Ele lembra que a Venezuela chegou a importar mais de US$ 5 bilhões anuais de produtos do Brasil. Mas a partir de 2013, quando a situção começou a se agravar com a queda do preço do petróleo e a reduçaõ das reserva sinternacionais, a venda se restrniu basicamente a alimentos.

- Os que continuam operando no país vizinho só fazem com pagamento adiantado - diz.